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Por Léo Mittaraquis (*)

Sim, meu amigo: à sua provocação, destilada de um jeito ‘maraud’, como quem quer tão somente levar a efeito boa conversa [destas que, sem maiores pretensões, acodem ao longo de certa jornada noite adentro, regadas a copos e copos de brandy ou taças e taças de vinho e anônimo tira-gosto], respondo que, sim, continuo a compor e publicar, sem tão amplo alcance, uns versos sobrepostos a outros versos, assemelhando-os, assim, a algo que, por distração hermenêutica, pode ser considerado poema.

Este artigo tem jeito de carta aberta, eu o sei. Porém sem a menor pretensão de representar a transformação da experiência subjetiva em verdade universal.

É resposta, apenas: oh, continuo, sim, capcioso amigo, a compor poemas.

Por que o faço?

Primeiramente, quero fazê-lo. Vontade mesmo, no sentido que tomo sem autorização, ao modo desavergonhado, de Henri Bergson, vale dizer, respondendo ao mundo de forma orgânica, munido de reflexão e  consciência.

Posso, também, suponho, afirmar que, mal parafraseando Miklos Vetö, este pensador metafísico da interioridade humana, que faço-o, isto é, prossiga quixotescamente, a compor poemas em nome da vontade por ela mesma, pelo seu objeto primeiro e maior, homogeneidade suprema: deter o poder de ser vontade de ser a vontade.

Portanto, alçando a labuta, vale dizer, o compor poemas, ao status de ação livre [esta que emana do cerne do espírito, que se abaliza no fluido do intelecto, dotando a percepção estética de gratidão ao patrimônio crítico-cognitivo], extraio do acumulado nos anos, das orientações sólidas, fundamentadas, dos grandes mestres, o estímulo que me faz levar a efeito a concretude da intenção presente a conceber coisa sincera — meus poemas.

Ou, se você quiser, inquisidor amigo: a vontade de compor o poema [não ‘um’ poema], deve, na minha limitada percepção, manifestar-se como, digamos, movimento interior, como aquilo que me orienta a saber de mim mesmo, em nome de alguma plenitude e, quiçá, de alguma transcendência.

Em segundo lugar [não por valor hierárquico, mas, sim, pela exigida sequências do discurso], componho poemas pelo fato, percebido apenas por mim e por pessoas muitíssimo próximas, de que significa a manutenção da minha pouco restante sanidade.

Em terceiro, creio, prumode ser produção apreciada meio à meia dúzia de elegantes mentes iniciadas, partícipes de um mundo cada vez menor, dentro dos demais mundos deste Mundo. Redução de campo, diga-se de passagem, salutar, pois, a convivência fraterno-intelectual detém a mais alta qualificação.

Portanto, açulador confrade, vejo-me levado à larga no tocante a invocar musas e lavrar versos. Em seguida, fazendo jus à notória vaidade e à característica arrogância, publico-os na expectativa de que, pelo menos, duas ou três pessoas os considerem obras-primas.

Assim, sigo entre motes, termos e estrofes. A dizer de mim e de outrem. A ouvir considerações até que razoáveis sobre meus pobres cantos.

Não sou digno, reconheço, de ingressar num bando de bardos. Deambulo por fora, bem à margem mesmo.

A título de arremate, desencavo este poema, por mim censurado, já com, salvo engano, uns três anos de molho:

Réu confesso — cometi a um mal poema.

Veredito: sopro de cal e cinza

a ferir língua.

Palavra à solta, faz-se agulha,

perfura d’inocente papel a derme.

Folha ao vento d’impensado ato.

Não há norte qual franca via,

apenas frieza insossa.

Quando palavra quisera pão, fora farelo.

Quando dito quisera voz, fora veio vazio, esgotado de gemas.

Entre rotos versos, neste sulco de sal, nada mais a minerar.

Estreitos, termos emudecem.

Impera o não-dizer.

Quisera sepultar este poema.

Fora porém seduzido ao vago vazio,

Este que m’é inútil nomear”.

Bem, eis mais um poema. Não sei se o escreveria hoje em dia. Julgo-o um tanto execrável.

C’est la vie!

 

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Leo Mittaraquis

Léo Mittaraquis é graduado em Filosofia, crítico literário, mestre em Educação. Bodegário da empresa Adega 7 Instagram: @adega7winebar

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