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Por Manuel Luiz Figueiroa (*)

 

A chamada “Armadilha de Tucídides” nasce da reflexão do historiador grego Tucídides ao analisar a devastadora Guerra do Peloponeso. Segundo sua interpretação, “foi o crescimento do poder de Atenas e o medo que isso provocou em Esparta que tornou a guerra inevitável”. Mais do que um conflito militar, aquele episódio revelou como o medo, a ambição, o orgulho e a sede de supremacia podem conduzir civilizações inteiras ao abismo.

A Guerra do Peloponeso não destruiu apenas cidades e exércitos; ela corroeu a ética, a confiança e o senso de fraternidade entre os homens. Atenas, símbolo da filosofia e da razão, e Esparta, símbolo da disciplina e da força, tornaram-se reféns de suas próprias paixões. Quando o medo substitui a sabedoria e o orgulho suplanta a virtude, o homem deixa de enxergar o semelhante como irmão e passa a vê-lo como inimigo inevitável.

É nesse cenário que se pode compreender a ideia da “egrégora do mal”: uma força coletiva alimentada pelos pensamentos, emoções e ações humanas degradadas. Não apenas como conceito místico, mas como realidade psicológica e social. A soma do ódio, da intolerância, da ganância e do desejo de dominação cria um campo moral sombrio capaz de influenciar multidões inteiras. A guerra nasce primeiro no interior do homem, antes de incendiar fronteiras e nações.

O homem e seu incessante trabalho de desbastar a pedra bruta Escultura do artista Iginio Rivero Moreno (@animalsigiloso)

A tradição maçônica oferece profunda reflexão sobre esse perigo ao ensinar que o verdadeiro combate da humanidade não ocorre apenas no mundo externo, mas sobretudo dentro do próprio indivíduo. O simbolismo da “corrente dos 81 nós” representa justamente os múltiplos vínculos invisíveis que unem os homens em pensamentos, atitudes e destinos comuns. Cada nó simboliza uma ligação moral, espiritual e humana. Quando essa corrente é alimentada por virtudes — fraternidade, justiça, tolerância e sabedoria — ela sustenta a harmonia coletiva. Porém, quando dominada pelas paixões inferiores, transforma-se em cadeia de propagação do medo, da violência e da destruição.

A Armadilha de Tucídides manifesta-se precisamente quando os homens rompem os laços da fraternidade e permitem que a corrente humana seja conduzida pela ignorância e pelo orgulho. Assim, a egrégora negativa expande-se, influenciando líderes, povos e civilizações inteiras. O inimigo deixa de ser apenas externo; passa a habitar o interior do próprio homem.

Por isso, a Maçonaria insiste no fundamento da construção do “homem interior”. Antes de erguer templos de pedra, é necessário lapidar a pedra bruta da alma humana. O verdadeiro iniciado é chamado a dominar seus impulsos destrutivos, vencer o egoísmo, controlar a ira e iluminar a consciência pela razão e pela virtude. Sem essa transformação interior, qualquer sociedade, mesmo poderosa e culta, corre o risco de repetir a tragédia da Guerra do Peloponeso.

A construção do homem interior é, portanto, um antídoto contra a egrégora do mal. O homem que aprende a ouvir antes de julgar, dialogar antes de atacar e compreender antes de condenar torna-se instrumento de equilíbrio e não de caos. Cada consciência iluminada fortalece a corrente do bem; cada espírito dominado pelo ódio fortalece a corrente da destruição.

A lição de Tucídides permanece atual: civilizações não caem apenas pela força das armas, mas pela decadência moral de seus homens. Quando a ambição coletiva se afasta da ética e a busca pelo poder supera o compromisso com a verdade, abre-se espaço para a repetição dos grandes desastres históricos. É o que estamos vivenciando em nível global, dentro das instituições e, até mesmo, em nossa Ordem.

Assim, o verdadeiro desafio da humanidade não é apenas evitar guerras entre nações, mas impedir que a guerra interior domine o espírito humano. Somente pela construção consciente do homem interior, pela vigilância moral e pela fraternidade autêntica será possível romper a Armadilha de Tucídides e impedir que a egrégora do mal continue conduzindo os destinos da civilização.

 

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Bibliografia

  1. Tucídides. História da Guerra do Peloponeso
  2. Donald Kagan. A Guerra do Peloponeso
  3. Platão. A República.
  4. Graham Allison. Destined for War: Can America and China Escape Thucydides’s Trap?
    Thomas Hobbes. Leviatã
  5. Sigmund Freud. O Mal-Estar na Civilização.
  6. Albert Pike. Morals and Dogma.
  7. Jules Boucher. O Simbolismo da Maçonaria
  8. Eliphas Levi. A Chave dos Grandes Mistérios.
  9. Robert Lomas. Os Símbolos Secretos da Maçonaria
  10. Joaquim Gervásio de Figueiredo. Curso Filosófico de Maçonaria Simbólica
  11. Carl Gustav Jung. O Homem e Seus Símbolos.
  12. Carl Gustav Jung. Psicologia e Alquimia.
  13. Mircea Eliade. Tratado de História das Religiões

 

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Manuel Luiz Figueiroa

Professor Manuel Luiz Figueiroa é mestre maçom da Loja Maçônica Clodomir Silva e secretário de Educação e Cultura do GOB-SE

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