Mídia, Cultura e Ebulições

Cuba busca um lugar ao sol num novo contexto mundial (II)

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Por Luciano Correia (*)

 

Cuba respira, para desgosto dos ignorantes. As redes sociais digitais abriram a tampa do inferno e empoderou cada idiota que passou a dar opinião sobre tudo. Nelson Rodrigues já havia preconizado isso, décadas antes do surgimento da Internet. No Brasil esse fenômeno ganhou tintas especiais com a ascensão do movimento político mais estúpido em 129 anos de república, o bolsonarismo-miliciano. Assim, se já era arroz-de-festa falar mal de Cuba antes da eclosão das redes, onde cada imbecil é uma TV própria, com seguidores, imagine atualmente.

Para decepção dos analistas de calçada, aviso que não vi mais sinais da revolução e muito menos do comunismo em Cuba. Nem eu nem grande parte da população. No meu DataLuc das ruas, é raro encontrar defensores fiéis, como o senhor Tony, dono do apartamento em que fiquei em Havana Velha, professor de História da Universidade de Havana. Se na primeira vez, em 1989, encontrei uma sociedade acomodada com os subsídios da pátria mãe do mundo socialista, a União Soviética, em 1997 assisti ao desespero e fome do chamado “período especial”, quando o governo da ilha teve que caminhar com as próprias pernas, sem ajuda internacional. Sem pernas pra andar, sucumbiu a uma das piores crises humanitárias do século passado.

Desde a morte de Fidel em 2014, e o crescente apagamento da mística em torno dos heróis da Sierra Maestra, uma nova geração ascendeu ao poder, oriunda da velha burocracia partidária incrustada no Estado, sem carisma político e com alguma capacidade administrativa. Alguma. O suficiente para entender que, se não abrir a economia, não há saída num horizonte próximo. A novidade que encontro nessa minha terceira viagem é uma incipiente classe empreendedora, de micros e pequenos negócios, desde restaurantes caseiros, hostals ou pizzarias, dentre outros. Isso tem gerado renda, muita, para alguns. E empregos, para outros, com salários muito baixos, mas quem somos nós para falarmos de baixos salários da classe trabalhadora?

Se não abrir a economia, não há saída num horizonte próximo

Um enorme sopro nesta nova fase na vida da ilha vem dos chineses, esses onipresentes investidores que, embora oficialmente comunistas, praticam um avançado capitalismo de mercado. Para um país proibido de buscar relações com os capitalistas americanos, o investimento chinês é sopa no mel. Uma boa amostra pode ser vista no fabuloso canteiro de obras que restaura prédios inteiros de Havana Velha, com uma qualidade que faz as obras públicas de Pindorama corarem de vergonha. Da China também vêm os milhares de novos carros e motos elétricas que tomaram as ruas de Havana e das principais cidades, um alento para quem praticamente não dispunha de transporte público com mínima qualidade há décadas.

Se os chineses são hoje o principal parceiro econômico da ilha, a Rússia, histórica parceira, vem retomando aos poucos o comércio com o país, ilustrado, entre outros insumos, nos novos Ladas que desfilam nas ruas, ao lado dos velhos automóveis símbolo da era soviética com seu design quadrado, retangular, registro de um tempo passado. O táxi que me levou de volta ao aeroporto José Marti foi um desses, moderno e confortável, comprado pelo taxista Alfredo em regime de comodato com o governo.

Por falar em restaurantes, há os estatais e os privados. Vi bom atendimento e melhor comida tanto em uns quanto em outros. E, eventualmente, alguns problemas, também nos dois modelos. Para se ter uma ideia, nos 15 dias que viajei pelo país o lugar que comi com menos qualidade foi justamente num resort à beira mar, o espanhol Ibero Star de Cayo Guillermo, um gigante confortável no mar do Caribe, mas com má gestão. Nos demais dias, fiquei entre casas de famílias e pequenos hostals, todos eles com um serviço de primeira, o carinho imenso dos proprietários, coincidentemente a maioria mulheres. A exceção foi o banho de chuveiro, mas, quem somos nós, com nossas Desos e Sabesps, pra falarmos de pouca água nas torneiras?

Nas duas semanas pelo país, andei de noite e de dia, só ou com amigos, indo ou voltando de baladas ou eventos. Não sofri sequer uma só situação de risco ou assédio, embora muitos dos nossos anfitriões se repetissem em alertas e relatos de perigos. Um estraga prazeres da excursão perguntou ao nosso guia oficial, de curioso nome Alain Delon, a razão de tantas grades em portas e janelas do país inteiro. Ele desconversou e saiu-se com essa inusitada resposta: “é uma questão de preferência dos proprietários, de decoração”. Verdade ou não, quem somos nós pra falarmos de segurança?

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Luciano Correia

Jornalista e professor da Universidade Federal de Sergipe

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