Entre a bolha digital e a convivência humana, o desafio é preservar o caráter, a ética e a virtude Imagem: IA/Só Sergipe
Por Valtênio Paes de Oliveira (*)
Na seara popular, com o sutil preconceito, a aparência profissional era muito usada associada ao bom caráter. O sacerdote era conhecido pelo colarinho, o banqueiro pelo luxo, o monge pelo hábito, mas Rayn Holinday e Stephen Hanselman afirmaram na obra Diário Estoico: “um estóico não se identifica pelo uniforme e não se assemelha a nenhum estereótipo. Eles não são identificáveis por aspecto, pela visão ou pelo som. A única maneira de reconhecê-lo é pelo caráter”.
Tomás de Aquino dissera que caráter “é a marca da personalidade”. Segundo a definição, “caráter vem do grego “charactér” de “charássein” = gravar. Como conjunto de disposições psicológicas e comportamentos habituais de uma pessoa, isto é, a personalidade concreta”. Caráter relacionado à vontade, e nesse caso conota as ideias de energia, honestidade e coerência. É nessa acepção que falamos aqui, em pessoa de caráter. Na psicologia pode ser o somatório de todos os traços na maneira predominante de agir de cada indivíduo. Para Aristóteles, o caráter “é resultado de hábitos cultivados pela prática de boas ações, moldando a excelência moral e o equilíbrio”. Para Kant, caráter deve ser guiado “pelo respeito às leis morais universais”. Enfim, inúmeros outros filósofos, psicólogos, educadores, religiosos e familiares refletem conceitos sobre caráter.
No popular, falava-se “fulano é pessoa de caráter” quando se queria referenciar alguém como boa pessoa. Era o reconhecimento. No entanto, falha-se quando danos materiais de empresas acontecem contra pessoas e seus proprietários não são identificados. A imprensa informa apenas “a empresa”, ocultando sempre quem é o responsável que busca sempre o lucro. O dono de uma empresa que traz danos materiais à saúde da população tem bom caráter?
Atente-se que a fragilidade humana decorrente do vício pelo uso das redes digitais está descaracterizando o caráter das pessoas. Valores morais estão sendo eliminados pela prática do imediatismo, do individualismo, do lucro, do consumismo e da violência. Sabe-se que 45% dos jovens de 15 a 29 anos com ansiedade são decorrentes do vício nas redes digitais e 30% dos adultos têm risco de depressão segundo o Panorama da Saúde Mental 2024. O Brasil é o terceiro país do mundo que mais usa internet e a OMC alerta para os malefícios do uso prolongado.
Atualmente, com a plenitude da mentira, a violência e a busca inveterada pelo lucro nas redes digitais estão eliminando o exercício do bom caráter. Humanos se trancam numa tela esquecendo de praticar a virtude em detrimento do vício. Aprovar a virtude e rejeitar o vício é uma necessidade social. Priorizarmos a reflexão e a prática coerente do bom caráter na escola, na família, na política para que a sociedade ocidental retome a ordem ante o caos moral existente é de grande valia para o crescimento da virtude. Uma ética fundada no coletivo, um fortalecimento de valores sociais centrados no bem-estar social é imperativo na boa coerência humana.
Ledo engano para quem imagina ser possível viver humanamente saudável na bolha da rede digital. As doenças mentais crescem exponencialmente. Os avanços nas comunicações estreitaram mundialmente os diálogos, mas afastaram a vivência humana que exercitava emoções, e sentimentos de valores morais. Vivência presencial, tolerância, respeito, emoções e sentimentos de amizade plena, tão inerentes aos humanos, estão relegados nos tempos presentes. O desafio é escolher a bolha individualizada ou conviver sem se submeter. Esta ebulição contraditória empurrou a população ocidental para a violência, o consumismo e o individualismo, esgotando o caráter e sua relação com a ética. Somente uma ética social fundada no coletivo, portanto, para o bem de todas as pessoas, poderá amenizar este desafio da humanidade. Esperançar na prática é um bom caminho.
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