Casas Bahia em um dos shoppings de Sergipe Foto: Redes sociais
A Casas Bahia fechou três lojas na Grande Aracaju em meio à grave crise financeira que levou o grupo a pedir recuperação judicial. As unidades ficavam nos shoppings RioMar e Jardins, em Aracaju, e no Shopping Prêmio, em Nossa Senhora do Socorro. A informação é do presidente do Sindicato dos Empregados Comerciários de Sergipe, Luan de Oliveira Almeida, que afirma ter recebido relatos dos próprios trabalhadores sobre as demissões e o fechamento das unidades.
Segundo Almeida, as três lojas foram fechadas na sexta-feira (14), quando os funcionários também foram comunicados das demissões. O sindicato tomou conhecimento da situação por meio dos empregados e colocou sua estrutura jurídica à disposição para acompanhar os desligamentos e eventuais problemas relacionados aos vínculos trabalhistas.
“Não é normal que a empresa que estava rodando aqui no Estado anuncie o fechamento assim, de maneira abrupta, e já demita os funcionários”, afirmou.
O presidente do sindicato disse que, inicialmente, a entidade avaliou que pudesse se tratar de uma situação localizada em Sergipe. No entanto, ao buscar informações junto à Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio e Serviços do Brasil (CNTC), percebeu que o movimento fazia parte de uma reestruturação muito mais ampla.
Segundo ele, empresas do grupo estavam fechando unidades em diversas regiões do país, tanto em shopping centers quanto em lojas de rua.
“Não era uma situação local aqui para o Estado de Sergipe”, disse Almeida.
A situação ganhou uma nova dimensão com o pedido de recuperação judicial apresentado pelo Grupo Casas Bahia no domingo (16). O pedido foi protocolado na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo e envolve dez empresas do grupo. A dívida declarada é de R$ 17,3 bilhões, dos quais R$ 16,4 bilhões são com credores sem garantia.
A companhia afirma que pretende preservar as operações durante o processo, mas propõe uma ampla reorganização financeira e operacional, incluindo o fechamento de 298 lojas e redução do quadro de funcionários.
Para Luan Almeida, o pedido de recuperação judicial altera significativamente a preocupação do sindicato, principalmente em relação aos trabalhadores que foram demitidos na semana passada.
“Com a notícia da recuperação judicial, o cenário já é alterado”, afirmou.
O presidente do sindicato explica que, caso a recuperação judicial seja deferida pela Justiça, as cobranças contra a empresa passam a seguir as regras e procedimentos do processo de recuperação. O temor da entidade é que trabalhadores demitidos recentemente tenham dificuldades para receber as verbas rescisórias.
Almeida chama atenção para o prazo para pagamento das verbas decorrentes da rescisão. Segundo ele, os trabalhadores receberam o aviso na semana passada e existe prazo de dez dias para o pagamento da rescisão.
“Estamos temendo um grande calote aos empregados que foram demitidos na semana passada”, disse.
O receio, segundo ele, é que, se a recuperação judicial for deferida antes do pagamento e a empresa não quitar as verbas rescisórias, os trabalhadores tenham de discutir esses valores dentro do processo de recuperação judicial.
O fechamento das unidades em Sergipe ocorre dentro de um programa nacional de reestruturação da Casas Bahia. A companhia fechou 298 lojas, o equivalente a quase 30% de sua rede física, e anunciou milhares de demissões.
O número de demissões divulgado pelas diferentes fontes variou nos primeiros dias da reestruturação. Uma reportagem informou cerca de 1.900 trabalhadores desligados em dois dias, enquanto o pedido de recuperação judicial apresentado pela companhia registra aproximadamente 3 mil demissões.
Esses números são nacionais e não representam a quantidade de trabalhadores demitidos em Sergipe.
O Grupo Casas Bahia tinha pouco mais de mil lojas antes da reestruturação. Em Sergipe, a empresa mantinha dez unidades, segundo informações divulgadas anteriormente pela companhia.
Por isso, o fechamento das três unidades mencionadas pelo sindicato não significa o encerramento de todas as operações da Casas Bahia no Estado.
O sindicato informou que a loja localizada no Calçadão de Aracaju permanece aberta nesta segunda-feira (17). Almeida afirmou que a entidade faria uma nova visita presencial ao estabelecimento para verificar a situação e acompanhar a movimentação.
O Sindicato dos Comerciários de Sergipe ainda não conseguiu levantar o número total de trabalhadores demitidos no Estado.
Almeida afirmou que as três lojas fechadas eram unidades grandes e bastante movimentadas, com fluxo intenso de trabalhadores e consumidores, tanto nas vendas presenciais quanto nas operações relacionadas ao comércio eletrônico.
“São lojas grandes, que eram bastante movimentadas, que têm um fluxo muito intenso de gente trabalhando, de gente procurando, de gente comprando”, afirmou.
O Portal Só Sergipe também não encontrou, até o momento, fonte pública confiável que informe quantos empregados da Casas Bahia trabalhavam especificamente em Sergipe ou quantos foram desligados no Estado durante o atual processo de reestruturação. Por isso, o número exato de demissões em Sergipe ainda precisa ser confirmado junto à empresa, ao sindicato ou por meio de registros trabalhistas oficiais.
A crise financeira da Casas Bahia se agravou no segundo trimestre de 2026. A companhia registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões entre abril e junho. O resultado, entretanto, foi fortemente influenciado por efeitos contábeis não recorrentes de R$ 9,1 bilhões.
Sem esses efeitos, o prejuízo ajustado ficou em R$ 978 milhões, acima dos R$ 555 milhões registrados no mesmo período do ano anterior.
A receita líquida cresceu 1,6%, para quase R$ 7 bilhões, mas as despesas com vendas aumentaram 17%, chegando a R$ 1,8 bilhão. A companhia também enfrenta dificuldades relacionadas ao crédito e ao custo financeiro.
A Casas Bahia acumula oito trimestres consecutivos de prejuízo e chegou ao segundo trimestre com patrimônio líquido negativo de aproximadamente R$ 8,1 bilhões.
O pedido de recuperação judicial ocorre cerca de dois anos depois de a empresa ter recorrido a uma recuperação extrajudicial para renegociar bilhões de reais em dívidas. Agora, o grupo busca uma nova reestruturação para evitar o agravamento da crise e preservar suas operações.
A situação da Casas Bahia não surgiu apenas com o fechamento das lojas. A companhia vinha enfrentando dificuldades para equilibrar despesas, geração de caixa e endividamento.
Segundo a empresa, a deterioração financeira foi agravada pelas restrições de crédito, pelos juros elevados e pelo aumento dos custos operacionais.
O cenário é especialmente delicado para uma empresa do varejo que depende de crédito para financiar compras de bens duráveis, como móveis e eletrodomésticos.
A tentativa anterior de reorganização financeira não foi suficiente para solucionar os problemas estruturais da companhia, que agora recorre novamente à Justiça para renegociar suas obrigações.
A crise também provocou mudanças na estrutura de comando da companhia. O diretor jurídico e tributário Fábio Spina renunciou ao cargo. Também deixaram suas posições os conselheiros Jackson Medeiros de Farias Schneider e Rogério Paulo Calderón Peres.
Segundo Almeida, o sindicato também acompanha essa movimentação.
“Nós tivemos a notícia de que o executivo Fábio Spina renunciou ao cargo de vice-presidente jurídico e tributário e que outras pessoas também renunciaram”, afirmou.
Para o dirigente, a sucessão de acontecimentos mostra que a crise não está restrita ao fechamento de lojas e às demissões.
O Sindicato dos Comerciários de Sergipe integra a estrutura da confederação nacional que acompanha o caso e afirma que já estão sendo tomadas medidas para tratar do problema em âmbito nacional.
Almeida informou que a reunião com o Ministério Público do Trabalho foi solicitada pela confederação e estava prevista para esta segunda-feira (17). Ele explicou que não participaria pessoalmente da reunião, mas que representantes da entidade nacional participariam das discussões.
“Como é um movimento que ocorre nacionalmente, não é um fato isolado aqui do Estado de Sergipe. Nós, em conjunto com a CNT, já estamos tomando as medidas judiciais necessárias”, afirmou.
Segundo ele, uma comissão da confederação ficará responsável pelas reuniões e, depois, repassará as informações às entidades sindicais dos Estados.
“Nós temos uma comitiva, um comitê que vai tocar essas reuniões. E, a partir dessas reuniões, a gente pega os informes e passa aqui com a base, com os Estados”, explicou.
O sindicalista disse que o sindicato continuará acompanhando a situação das unidades sergipanas e pretende atualizar as informações conforme forem divulgadas novas decisões.
A preocupação do sindicato é que a recuperação judicial torne mais complexa a cobrança das verbas devidas aos trabalhadores desligados.
O caso ganha dimensão ainda maior porque as demissões ocorreram praticamente ao mesmo tempo em que centenas de lojas foram fechadas em todo o país. Sindicatos de outros Estados também começaram a questionar a forma como os desligamentos foram realizados. O Sindicato dos Empregados no Comércio de Osasco e Região, por exemplo, anunciou uma ação coletiva contra a empresa e questionou a ausência de negociação prévia com os trabalhadores.
Em Sergipe, o sindicato ainda busca identificar exatamente quantos trabalhadores foram atingidos e acompanhar o pagamento das verbas rescisórias.
O Portal Só Sergipe continuará acompanhando o caso, especialmente os desdobramentos da reunião com o Ministério Público do Trabalho, a situação das demais lojas sergipanas e eventual divulgação, pela Casas Bahia ou pelo sindicato, do número de trabalhadores desligados em Sergipe.
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