"Nuvens dançando no céu azul e as lembranças da infância que me sustentam" Imagens: Pixabay
Por Luiz Thadeu Nunes (*)
Em meio à correria da vida, sempre encontro um tempinho para pequenas epifanias que clareiam meus pensamentos. Quando adolescente, mesmo com a agenda cheia, achava um tempo para deitar no chão frio da cozinha, onde passava uma corrente de ar, a observar as nuvens dançando no céu azul. Um balé lindo. Imaginava formas em seus desenhos: barcos, casas, plantas, animais e até rostos de pessoas. Ao voltar para a realidade, me sentia revigorado.
Rubem Alves certa vez escreveu:
“Gostaria de dizer às crianças e aos adultos que percam mais tempo fazendo coisas inúteis. Olhar as nuvens, ouvir o vento, sentir o cheiro da chuva, observar uma aranha tecendo sua teia. São coisas que não servem para nada, e são exatamente por isso que são indispensáveis, porque a vida não é só aquilo que serve. A vida também é aquilo que encanta. E o encantamento, esse sim, é o que nos mantém vivos de verdade.”
No outono da vida, continuo sonhador. Encantado com a vida. Gosto de fugir do lugar-comum para fazer pequenas coisas que me trazem alegria. Esses dias, me peguei fazendo um barquinho de papel com as sobras de um caderno antigo. O simples ato de dobrar as folhas me remeteu a Rosário, interior do Maranhão, onde ficava a ampla casa dos meus avós maternos, Agripino e Maria, onde passava as férias escolares. Meu avô Agripino me ensinou a dobrar o papel e dar forma ao barquinho, que eu colocava na sarjeta em dia de chuva. Era lindo ver minha obra de arte descer a correnteza e perdê-la de vista.
Ainda não fiz barcos de papel para meu neto primogênito, Heitor, de um ano e oito meses. Farei para encantamento dele.
Esses dias, vi um vídeo de um pai levando seu filho muito pequeno, de no máximo dois anos, pela mão, para entrar em poças de lama. Ambos sujos e felizes. O garotinho ria a cada vez que metia os pés na água barrenta. Tenho certeza de que, quando for adulto, se lembrará desses momentos lúcidos e únicos.
A escritora Lya Luft nos presenteou com a profunda metáfora:
“A infância é um chão que a gente pisa a vida inteira”. Minhas memórias da infância são santuários eternos, onde encontro refúgio da dureza da vida. É nelas que busco para não deixar morrer a criança que continua a habitar em mim. Como Mia Couto tão bem colocou, “a infância não é uma idade ou um tempo passado, mas sim a capacidade permanente de se espantar e se encantar com o mundo”.
Estou em Brasília. Vim a capital federal para entrevistas e palestras. Neste domingo, 4 de outubro , o Brasil vai às urnas para escolher seus futuros líderes. Em meio a um cenário tumultuado e caótico, são as lembranças da infância que me sustentam, alimentando a esperança por dias melhores.
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