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A Psicanálise em risco

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Petruska Menezes (*)

A comunidade psicanalítica começou o ano de 2022 indignada. O Ministério da Educação (MEC), de forma arbitrária e contra tudo o que se prega sobre conhecimento e prática psicanalítica, autorizou a criação de um curso de Graduação para “psicanalistas”. A indignação acontece porque quem tem o mínimo conhecimento dessa arte sabe que a construção de um analista nunca será possível de acontecer em um ambiente acadêmico com prazos e avaliações objetivas, e descaracterizando a formação da subjetividade analítica necessária ao processo.

Desde que a Psicanálise surgiu, a partir dos estudos de Sigmund Freud no início do século XIX, teve como seu primeiro grande marco para a sociedade o novo olhar sobre os sonhos, com o livro A interpretação dos sonhos, em 1900. Porém, o mais importante foi um novo olhar para o ser humano, ampliando a sua existência para os aspectos inconscientes. Freud tirava o controle do ser humano sobre si, quando integrou ao psiquismo humano uma grande parte daquilo que não pode ser conhecido, a não ser por suas formas de expressão características.

A formação psicanalítica foi desenvolvida, inicialmente, por um psicanalista contemporâneo de Freud. Max Eitingon, junto com Freud e outros analistas, desenvolveram um método muito específico para o desenvolvimento e a escuta do inconsciente, principalmente pela associação livre e atenção flutuante. Para tal prática, é necessária a construção de três eixos: análise pessoal, estudo teórico e clínico, e o exercício supervisionado da prática clínica. Uma formação consolidada não leva menos de 6 anos para ser concluída, se o candidato conseguir seguir e se desenvolver continuamente, ou seja, sem paradas. Eu levei 11 anos para concluir a minha formação, pela International Psychoanalytical Association (instituição fundada pelo próprio Freud, em 1910). Como a necessidade de autotransformação pode acontecer em um método de ensino tão rígido, predeterminado em tempo e espaço, e enclausurado nos limites da Academia?

Mas a problemática vai ainda mais longe. O Jornal O Globo redigiu, nesse mês de janeiro, matéria sobre a polêmica da Uninter – universidade paranaense especializada em cursos de Graduação a distância – por receber do MEC o registro de um Curso Superior para a formação de psicanalistas e fonte de toda a mobilização que se deu. É como solicitar que um cirurgião se forme pela internet. Você arriscaria ser operado por uma pessoa assim?

A matéria segue, em um segundo tempo, relatando que:

O ex-deputado federal Wilson Picler, filiado ao PSL, desde 2018, quando fez doações vultosas e participou da campanha de Bolsonaro no Paraná, é o fundador da Uninter. Foi com esse patrimônio político que ele acabou sendo atendido pelo MEC no pedido esdrúxulo de estabelecer um curso para psicanalistas. Um curso a distância, é bom quem se diga. [Jornal o Globo]

O Movimento de Entidades Psicanalíticas Brasileiras emitiu uma nota de protesto, assinada por 48 instituições psicanalíticas sérias e comprometidas com a qualidade da formação de novos psicanalistas. Em Sergipe, temos o Círculo Psicanalítico de Sergipe participando ativamente deste protesto nacional. O Movimento surgiu há 20 anos, com o objetivo de garantir a inserção social de psicanalistas que sigam o modelo inicialmente desenvolvido por Eitingon e Freud. Outra luta do Movimento é justamente para não transformar a formação psicanalítica em uma profissão. Como a palavra diz, FORMAÇÃO só pode acontecer quando existe um processo de transformação e de desenvolvimento interno. Muito mais do que se aprender uma prática, decorar e aplicar teorias, o psicanalista precisa estar aberto para as constantes mudanças intrínsecas ao ser humano. Precisa desenvolver a empatia, a escuta, além de palavras e expressões, e estar neutro, embora implicado no processo. Isso só acontece depois de muito estudo, prática, mas principalmente no aprendizado de uma postura de autodesenvolvimento contínuo, muitas vezes explicitado por diversas reanálises durante a vida.

O mais grave é enganar pessoas que entrarão nesse curso acreditando que poderão realizar o sonho de serem psicanalistas e, ao se “formarem”, se é que podemos falar isso, serão desacreditadas e não reconhecidas por seus pares. Infelizmente, quando a politicagem entra por uma porta, a ética, o respeito e o cuidado com a intimidade que é tocar a mente humana saem pela janela.

A própria comunidade acadêmica, composta por mestres e doutores que fizeram a sua formação nas instituições psicanalíticas, se soma à causa. Muito mais do que uma reserva de mercado, como podem pensar alguns, estamos falando de desqualificar e jogar às moscas um trabalho constituído desde o surgimento da própria Psicanálise.

Como Carlos Vieira, em sua coluna Psicanálise da vida cotidiana, do Jornal de Brasília afirma:

Lidar com a mente humana, manejar situações neuróticas graves, psicóticas e drogadictas é necessário muita sensibilidade, sanidade mental do profissional, capacidade ética e total recusa a atitudes e tentativas de controle moral, político e de cunho místico-religioso.

A convocação para uma mobilização de toda a sociedade e dos políticos faz-se importante, porque pode estar colocando-se em risco o cuidado integral de um(a) filho(a), neto(a) ou pessoa que possa vir a fazer análise com tais “profissionais” formados em universidades a distância. Os principais lesados serão as pessoas que forem usufruir de profissionais que estarão longe de ser verdadeiros psicanalistas.

 

(*) Profa. Esp. Petruska Passos Menezes é psicóloga e psicanalista, integrante do Círculo Psicanalítico de Sergipe e do Núcleo Psicanalítico de Salvador (IPA), tem MBA em Gestão e Políticas Públicas pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), Gestão Estratégica de Pessoas (pela Fanese), Neuropsicologia (pela Unit), graduanda em Nutrição e Gestão Empresarial pela FGV, em curso.

** Esse texto é de responsabilidade exclusiva da autora.  Não reflete, necessariamente, a opinião do Só Sergipe.

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