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Professor Uchôa – 90 anos: uma vida transformando educação em oportunidade

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Por Saumíneo da Silva Nascimento (*)

 

Em setembro de 2026, o professor Jouberto Uchôa de Mendonça completa 90 anos. A data oferece uma oportunidade especial para olhar para sua trajetória não apenas como a história de um educador, empreendedor e dirigente de uma das mais importantes instituições de ensino de Sergipe, a Universidade Tiradentes (UNIT), mas como parte da própria história do desenvolvimento educacional do Estado.

Há vidas que podem ser medidas pelo tempo. Outras, pelo número de pessoas que foram alcançadas por elas. A trajetória de Uchôa pertence à segunda categoria.

Nascido em 17 de setembro de 1936, terceiro dos 11 filhos de Jacinto Uchôa de Mendonça e Cândida Rodrigues de Mendonça, o professor conheceu desde cedo as dificuldades de uma origem humilde. Antes de se tornar dirigente universitário, passou por diferentes ocupações profissionais, inclusive como tecelão, balconista, auxiliar de laboratório e funcionário público. Sua entrada no mundo da educação ocorreu de maneira igualmente simples: começou como vigia e, posteriormente, exerceu funções de servente, inspetor de alunos, professor de Matemática, secretário e diretor.

Essa origem ajuda a compreender uma das características mais marcantes de sua trajetória: a percepção de que educação não deve ser privilégio de poucos, mas caminho para transformar vidas.

A história de Uchôa é também a história de alguém que não permitiu que sua origem determinasse o limite de suas possibilidades. Graduou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e posteriormente realizou estudos de pós-graduação, incluindo formação em Administração de Unidades de Ensino e Administração Pública.

 

Universidade Tiradentes, no bairro Farolândia

 

Em 1962, fundou o Ginásio Tiradentes. A iniciativa cresceu, transformando-se em colégio e, posteriormente, em instituição de ensino superior. Em 1972, veio a autorização para o funcionamento da faculdade, inicialmente com os cursos de Administração, Economia e Ciências Contábeis. Em 1994, as Faculdades Integradas Tiradentes transformaram-se na Universidade Tiradentes — UNIT.

Sergipe possuía, naquele período, limitações importantes na oferta de educação superior. A expansão da iniciativa criada por Uchôa significou ampliar o número de jovens que poderiam ingressar no ensino superior sem necessariamente precisar deixar o Estado.

Por isso, sua contribuição não pode ser avaliada apenas pelo crescimento de uma instituição. Ela deve ser observada pelo efeito multiplicador da educação: um estudante formado torna-se profissional; esse profissional participa do mercado de trabalho; muitos tornam-se professores, gestores, empresários, servidores públicos e líderes comunitários; e suas trajetórias passam a influenciar novas gerações.

É essa capacidade multiplicadora que talvez melhor sintetize o legado de Uchôa, sendo ele um divisor de águas na educação sergipana.

Em publicação do Governo de Sergipe sobre sua biografia, o desembargador aposentado Osório Ramos afirmou que divide a história da educação sergipana em dois períodos: antes e depois de Uchôa. A afirmação traduz a dimensão atribuída à criação e à expansão da Tiradentes.

Em 2024, durante sessão da Assembleia Legislativa de Sergipe, o deputado Luciano Pimentel também destacou o impacto da trajetória de Uchôa, observando que é difícil encontrar uma família sergipana sem alguém que tenha estudado na UNIT.

Independentemente de avaliações individuais sobre instituições ou modelos educacionais, existe um fato histórico relevante: a expansão da educação superior privada em Sergipe ampliou significativamente as possibilidades de formação profissional no Estado. E o professor Uchôa foi protagonista desse processo.

Existe, entretanto, uma dimensão de sua trajetória que merece atenção especial: Uchôa não parece compreender educação apenas como transmissão de conhecimento ou obtenção de um diploma. Em seu discurso de posse na Academia Sergipana de Educação, em 2020, destacou que ser professor exige sensibilidade, aproximação com o aluno e capacidade de ajudá-lo a descobrir o melhor de si mesmo.

Essa concepção aproxima sua visão de educação de dois grandes pensadores brasileiros.

O primeiro é Anísio Teixeira, para quem a educação deveria estar associada à democracia e à construção de uma sociedade capaz de oferecer oportunidades efetivamente mais amplas aos seus cidadãos.

O segundo é Paulo Freire, cuja obra colocou no centro do processo educacional a dignidade do educando, o diálogo e a compreensão da educação como prática de transformação.

Uchôa não precisa ser colocado artificialmente na mesma dimensão intelectual desses autores para que se perceba uma convergência importante: a educação ganha sentido quando consegue transformar possibilidades em oportunidades concretas de vida.

No plano internacional, sua trajetória também pode ser aproximada da reflexão de Edgar Morin, especialmente de sua defesa de uma educação capaz de preparar as novas gerações para compreender a complexidade do mundo, estabelecer relações entre diferentes conhecimentos e desenvolver uma visão humana e responsável da sociedade.

 

Professor Uchôa, na época do Colégio Tiradentes Foto: Divulgação

 

A aproximação entre esses três pensadores — Anísio Teixeira, Paulo Freire e Edgar Morin — e a trajetória de Uchôa pode ser feita por uma ideia comum: educar é preparar pessoas para a vida, e não apenas para uma profissão.

A maturidade da trajetória de Uchôa também se expressa em sua participação em instituições de natureza acadêmica e cultural.

Ele integra a Academia Sergipana de Letras, ocupando a cadeira nº 23, sucedendo ao intelectual Luiz Antônio Barreto; é membro da Academia Sergipana de Letras Jurídicas, da Academia Sergipana de Administração e da Academia Sergipana de Educação. Em 2021, passou também a integrar a Academia Nacional de Economia, ocupando a Cátedra nº 33.

Sua entrada na Academia Sergipana de Educação possui um significado especial. A instituição foi criada justamente para reunir educadores, professores e intelectuais com o propósito de discutir caminhos para melhorar a educação sergipana e preservar a memória de personalidades que contribuíram para sua história.

O reconhecimento institucional, portanto, não é apenas honorífico. Ele revela que sua trajetória passou a fazer parte da memória intelectual e educacional de Sergipe.

O legado de Uchôa não se limita à formação de profissionais. A atuação do Grupo Tiradentes também esteve associada à pesquisa, à cultura, à preservação da memória sergipana e à aproximação entre educação, ciência e desenvolvimento.

O Instituto de Tecnologia e Pesquisa, por exemplo, foi destacado por representantes públicos como uma iniciativa com impacto científico e tecnológico e com relações nacionais e internacionais.

O Memorial de Sergipe Professor Jouberto Uchôa, criado em 1998 e reinaugurado em novas instalações em 2023, também expressa essa preocupação com a preservação da história e da cultura sergipanas, realizando exposições e ações educativas destinadas a fortalecer a identidade local e estimular as novas gerações a conhecer e valorizar seu patrimônio.

É uma característica importante de uma trajetória educacional madura: não formar apenas profissionais para o presente, mas preservar conhecimento para o futuro.

A preocupação com as novas gerações talvez seja justamente aqui que se encontre a maior atualidade da trajetória de Uchôa aos 90 anos.

Uma sociedade não pode construir seu futuro apenas olhando para aquilo que já realizou. Precisa formar pessoas capazes de continuar realizando.

O professor tem sido descrito por alunos, ex-alunos e colaboradores como alguém que incentiva permanentemente o estudo e a aprendizagem. A própria UNIT registra que uma de suas características mais lembradas é estimular as pessoas a manterem a disposição para aprender como caminho para progredir na vida profissional e pessoal.

Essa preocupação é particularmente importante em um mundo marcado pela inteligência artificial, pela transformação tecnológica, pelas mudanças no mercado de trabalho e pela necessidade crescente de aprendizagem ao longo da vida.

A grande pergunta contemporânea já não é somente quantas pessoas conseguimos formar. É também que tipo de cidadão estamos formando.

Nesse sentido, a experiência de Uchôa deixa uma mensagem atual: o investimento mais importante de uma sociedade continua sendo aquele realizado nas pessoas.

Celebrar os 90 anos do professor Jouberto Uchôa de Mendonça é, portanto, mais do que homenagear uma biografia. É reconhecer uma trajetória que saiu de uma origem humilde, atravessou diferentes profissões, chegou à sala de aula, passou pela gestão educacional e alcançou a construção de uma instituição universitária com presença nacional.

É reconhecer também alguém que compreendeu que uma escola ou universidade não termina quando entrega um diploma. Seu verdadeiro resultado aparece nas vidas que seus alunos conseguem construir depois dela.

Por isso, talvez a melhor maneira de homenagear Uchôa seja não apenas olhar para aquilo que ele fez, mas perguntar o que sua trajetória nos obriga a fazer daqui para frente, e imagino que a resposta passa necessariamente pela formação das novas gerações.

Sergipe precisa continuar formando professores, pesquisadores, médicos, engenheiros, administradores, economistas, advogados, profissionais de tecnologia, empreendedores e, sobretudo, cidadãos comprometidos com o desenvolvimento humano e social.

Aos 90 anos, Uchôa representa uma geração que acreditou que era possível ampliar os horizontes educacionais de Sergipe.

Seu maior legado, contudo, não está somente nos prédios, nos cursos, nas instituições ou nos títulos acadêmicos. Está nas pessoas.

Está em cada profissional que encontrou na educação uma oportunidade que talvez sua família não tivesse tido anteriormente.

Está em cada professor que continuou a multiplicar conhecimento.

Está em cada jovem que pôde permanecer em Sergipe para estudar e construir sua trajetória.

E está, principalmente, na ideia de que uma vida dedicada à educação pode produzir efeitos que ultrapassam em muito a existência de quem a dedicou.

Aos 90 anos, o Professor Jouberto Uchôa de Mendonça pode ser visto, portanto, como parte viva da história da educação sergipana — mas também como um convite para que essa história continue sendo escrita.

Porque o verdadeiro legado de um educador não é aquilo que ele deixa para trás. É aquilo que consegue fazer nascer nas gerações que vêm depois.

 

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Saumineo Nascimento

Advogado, Economista e Geógrafo – Atuando como Diretor no Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.

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