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Por Léo Mittaraquis

 

O indivíduo — homem ou mulher — contemporâneo parece carregar consigo uma secreta inclinação para o fácil, o comum, o repetível, o imediatamente aceito em massa.

Prefere, como costumávamos dizer há algumas décadas, pular, quando muito, as cercas baixas. Prefere, sem que essa preferência seja necessariamente vontade consciente, os caminhos já percorridos; prefere as ideias que chegam prontinhas, acabadas, embaladas para o consumo, sem que se pergunte, muitas vezes, quem as formulou, por que foram formuladas e a que propósito servem.

O desconhecido, afinal, como bem perceberam os antigos mestres do pensamento, exige solidão.

Não me refiro, aqui, à solidão física, à ausência do outro, ao isolamento do indivíduo.

Refiro-me à solidão intelectual, filosófica, contemplativa: aquela condição em que o homem permanece, ainda que por alguns instantes, diante de uma ideia sem o amparo da opinião alheia; diante de uma obra sem a segurança do consenso; diante da beleza sem a necessidade de saber previamente se aquilo que contempla deve ou não ser considerado belo.

Talvez, creio eu, seja também por isso que aconteça com a música de Antonio Vivaldi algo que, à primeira vista, pareceria paradoxal: uma parte de sua obra tornou-se tão conhecida que acabou por esconder o restante.

E não estou dizendo “restante” como sobra sem valor.

Muito pelo contrário.

Nenhuma composição de Vivaldi — concertos, incluindo As Quatro Estações, sonatas, música sacra, cantatas, oratórios ou óperas — pode ser tratada simplesmente como aquilo que ficou depois da obra famosa. Há, em sua produção, uma riqueza que não autoriza essa redução. Daí o excelente. Daí, em determinados momentos, o sublime.

O que aconteceu foi outra coisa.

 

Primeira página da partitura autógrafa do concerto para fagote de Vivaldi Imagem: Domínio Público

 

A composição musical intitulada As Quatro Estações foi tomada pela cultura de massa e transformada, pouco a pouco, em uma espécie de senha universal para reconhecer Vivaldi. Mais do que isso: tornou-se uma senha geral para emprestar pompa, elegância ou solenidade aos momentos mais distintos da vida contemporânea.

Uma imagem, uma cena, uma publicidade, uma cerimônia, um ambiente qualquer: bastam alguns compassos reconhecíveis e Vivaldi aparece.

Mas há aqui um ponto que precisa ser considerado e compreendido.

Não obstante o poder massivo da mídia, mediante o emolduramento da estrutura musical por imagens, sons, narrativas e situações diversas, a atração maciça exercida por As Quatro Estações sobre um público que, de resto, permanece muitas vezes completamente indiferente ao vasto universo da música erudita não é apenas um acidente histórico.

Não é apenas o resultado da presença circular da obra nos meios de comunicação.

Há, também, o triunfo — este, sim, profundamente vivaldiano — de uma organização estética singular.

Ouça, improvável leitor, com atenção.

Leia sobre como a obra foi concebida. Procure os estudos daqueles que sobre ela se debruçaram. Observe sua construção, sua economia, seus contrastes, sua capacidade de produzir imagens através do som.

As Quatro Estações funcionam como uma espécie de ponte de baixa resistência cognitiva, capaz de seduzir mentes pouco habituadas à arquitetura abstrata de determinadas grandes composições, sobretudo aquelas mais lentas, extensas, densas e exigentes.

São peças relativamente curtas, enérgicas, cortantes e vibrantes, moldadas com uma economia de meios que, curiosamente, encontra perfeita correspondência no ritmo acelerado da sensibilidade moderna.

Por isso As Quatro Estações estão nos elevadores, nos anúncios, nos filmes, nas salas de concerto, nas coletâneas, nos programas de televisão e nas inúmeras repetições que fazem com que uma obra, de tão familiar, já não seja verdadeiramente escutada.

Inverno. Primavera. Verão. Outono. Retornam tantas e tantas vezes, mais e mais, que frequentemente a própria música acaba transformada em ruído de fundo.

Eis, então, o paradoxo.

Aquilo que deveria aproximar o ouvinte da obra pode terminar por afastá-lo dela. A repetição excessiva retira da música justamente aquilo que ela possui de mais precioso: a possibilidade do espanto. Não quero, evidentemente, transformar a repetição em uma espécie de inimiga absoluta.

A repetição, em circunstâncias específicas, submetida a uma didática consciente e comprometida com a aprendizagem, pode reforçar a memória, consolidar conhecimentos, permitir a apropriação de estruturas complexas.

Repetir pode ensinar. Mas a mera repetição automática, desprovida de finalidade pedagógica, estética ou intelectual, pouco mais é do que uma forma de tirania. Uma tirania silenciosa.

Uma tirania exercida por meio de uma estética rasa, previsível, que, ao invés de revelar, oculta.

Existe na repetição uma força apaziguadora. Aquilo que ouvimos continuamente deixa, pouco a pouco, de nos interrogar. Torna-se familiar e, justamente por isso, menos estimulante intelectualmente. O que inicialmente poderia provocar surpresa, inquietação ou encantamento passa a integrar o repertório previsível de nossas experiências.

O thauma desaparece. E emprego aqui a palavra grega em seu sentido mais profundo: não simplesmente o espanto diante de alguma coisa extraordinária, mas aquela suspensão radical da familiaridade diante do mundo, aquele instante em que aquilo que julgávamos conhecer volta a apresentar-se diante de nós como problema, como mistério, como presença.

É nesse ponto que a repetição pode tornar-se perigosa. Porque aquilo que deixa de nos causar espanto também pode deixar de nos fazer pensar.

Talvez seja também por isso que As Quatro Estações tenham alcançado uma presença tão extraordinária na cultura ocidental. E isso, diga-se, não é necessariamente ruim.

Afinal, a composição oferece uma entrada imediata no universo de Vivaldi. O ouvinte reconhece os motivos, identifica os movimentos, antecipa determinadas passagens. Há conforto nessa familiaridade. E há, inclusive, beleza.

Seria injusto negar isso. O problema começa quando a porta de entrada passa a ser confundida com a casa inteira. Vivaldi não foi compositor de uma única obra-prima.

Foi, na minha opinião, um dos grandes arquitetos da linguagem musical do Barroco. Sua produção alcança centenas de concertos, sonatas, obras sacras, sinfonias, óperas e outras formas musicais. Seu catálogo revela uma atividade criadora de proporções extraordinárias.

Enquanto o público comum, pouco familiarizado com o mundo da música erudita, reconhece imediatamente os primeiros compassos de As Quatro Estações, uma parte enorme da produção vivaldiana continua à margem da escuta habitual. Há ali um verdadeiro continente musical.

E nós, muitas vezes, permanecemos diante dele como quem contempla, de longe, uma terra desconhecida. Cada concerto participa dessa aventura criadora. Não se trata simplesmente de repetir uma fórmula barroca, mas de explorar possibilidades: combinações instrumentais, contrastes, ritmos, diálogos entre solista e conjunto, mudanças de caráter, movimentos de tensão e repouso, aproximações e afastamentos, momentos em que o instrumento parece perguntar e outros em que parece responder.

Vivaldi parece escrever como quem precisa continuamente descobrir alguma coisa através da própria música. É difícil não perceber, em sua produção, uma espécie de urgência. Como se o silêncio fosse sempre uma ameaça a ser vencida.

Há uma diferença importante entre uma obra grande e um grande criador. Uma obra pode alcançar extraordinária perfeição e, ainda assim, representar apenas uma parte daquilo que um artista foi capaz de realizar.

As Quatro Estações são, sem dúvida, uma obra de enorme importância. Sua construção é inventiva, sua linguagem é imediatamente comunicativa e sua capacidade de estabelecer imagens sonoras permanece impressionante.

Vivaldi consegue transformar fenômenos da natureza em matéria musical sem reduzir a música a uma simples ilustração da natureza. Mas Vivaldi é maior do que As Quatro Estações.

E dizer isso não diminui a importância dos quatro concertos. Ao contrário. É justamente devolver-lhes a dimensão adequada dentro de uma obra muito maior.

A imensidão de Vivaldi está nessa capacidade de não permanecer preso a uma única fórmula. Está na quantidade de caminhos percorridos, nos diferentes afetos explorados, nas possibilidades encontradas para o concerto, para a música sacra, para a ópera e para a escrita instrumental.

E há ainda um aspecto particularmente importante: sua relação com o Ospedale della Pietà, em Veneza. Ali, Vivaldi encontrou um ambiente no qual pôde desenvolver parte fundamental de sua experiência musical. As jovens instrumentistas da instituição, muitas delas órfãs, participaram de uma experiência artística que ajudou a marcar profundamente a história musical veneziana e europeia.

Quando nos afastamos das quatro estações mais conhecidas, começamos, pouco a pouco, a encontrar outro Vivaldi. Um Vivaldi menos domesticado pela familiaridade. Nas óperas, nas obras sacras e nos inúmeros concertos, aparece um compositor interessado em explorar diferentes estados afetivos, diferentes relações entre voz e instrumento, diferentes possibilidades de movimento e contraste.

A música torna-se menos conhecida. E talvez, justamente por isso, volte a ser capaz de nos surpreender. O problema, portanto, não está em ouvir As Quatro Estações. O problema começa quando acreditamos que já ouvimos Vivaldi porque conhecemos As Quatro Estações.

A posteridade, nesse sentido, pode cometer uma injustiça involuntária: transformar o cartão de visitas na casa inteira. E Vivaldi acabou, de certo modo, aprisionado pela própria facilidade com que uma parcela de sua genialidade pôde ser reconhecida.

Recuperar a verdadeira dimensão de Antonio Vivaldi exige abandonar, por algum tempo, a segurança daquilo que já conhecemos. É preciso entrar no labirinto. E um labirinto não é apenas um lugar de desorientação.

Pode ser também um lugar de descoberta. Nele, cada caminho pode conduzir a outro; cada desvio pode revelar uma paisagem que não imaginávamos existir; cada porta pode abrir-se para uma sala cuja existência sequer suspeitávamos.

Assim acontece com a obra de Vivaldi. As óperas, os concertos, as obras sacras, as sonatas e tantas outras páginas que permanecem fora do repertório mais popular aguardam um ouvinte disposto a ultrapassar o primeiro contato.

Não se trata de abandonar As Quatro Estações. Trata-se de recolocá-las dentro de um universo maior. Enquanto permanecermos ouvindo apenas aquilo que já sabemos ouvir, a música continuará simplesmente confirmando nossas expectativas. Quando nos aventuramos além delas, começa a verdadeira escuta.

Talvez seja esse, afinal, o destino mais interessante de Vivaldi: deixar de ser apenas o compositor das quatro estações e voltar a ser aquilo que sua obra realmente revela — um compositor em permanente movimento, interessado em transformar o tempo, a natureza, o afeto e o próprio gesto musical em matéria de criação.

O sacerdote vermelho de Veneza não pertence apenas ao inverno, à primavera, ao verão ou ao outono. Essas são apenas quatro portas de entrada. Depois delas, há muito, muito mais a ouvirmos, a descobrirmos, a nos fascinarmos, ao percorrermos o extraordinário mundo musical de Antonio Vivaldi.

 

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Leo Mittaraquis

Léo Mittaraquis é graduado em Filosofia, crítico literário, mestre em Educação.

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