Milharal no Campus da UFS no sertão sergipano Foto: Acervo Pessoal
Por Antônio Carlos Garcia (*)
Produtores de milho de Sergipe poderão começar a testar, na safra de 2027, uma tecnologia desenvolvida no próprio estado que utiliza bactérias encontradas na natureza para reduzir a necessidade de fertilizantes nitrogenados nas lavouras. Os primeiros experimentos conduzidos pelo engenheiro agrônomo e doutorando Walisson Vieira, da BiotechSe Biotecnologia Agroindustrial, indicaram potencial para diminuir em até 75% a adubação nitrogenada, mantendo o vigor das plantas. Na prática, segundo o pesquisador, uma aplicação de 100 quilos de ureia poderia cair para 25 quilos com o uso do microrganismo selecionado.
A pesquisa integra o trabalho de doutorado de Walisson, desenvolvido sob orientação do professor Paulo Roberto Gagliardi, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da Rede Nordeste de Biotecnologia (RENORBIO). O programa funciona em rede, reunindo instituições de ensino e pesquisa do Nordeste, entre elas a Universidade Federal de Sergipe (UFS).
O foco do estudo é o nitrogênio, nutriente essencial ao desenvolvimento do milho e presente na ureia utilizada na adubação. A estratégia é aproveitar uma característica natural de determinados microrganismos: a capacidade de capturar o nitrogênio presente na atmosfera, fixá-lo e disponibilizá-lo para a planta. Dessa forma, parte do nutriente fornecido atualmente por meio da adubação química pode ser suprida pela atividade biológica.
“Se eu utilizo 100 kg de fertilizante de ureia na área, a gente consegue reduzir para 25 kg. E isso é o que o microrganismo apresentou em grande potencial”, explicou Walisson. Segundo ele, uma redução dessa magnitude na adubação nitrogenada pode representar economia superior a 15% nos custos considerados na produção do milho.
Walisson estima ainda que, quando transformado em produto, um bioinsumo com essas características possa representar cerca de 10% do custo de uma fertilização tradicional com ureia. Trata-se, entretanto, de uma estimativa feita durante o desenvolvimento da tecnologia, e não de preço comercial já estabelecido.
A tecnologia começou a ser construída a partir da própria biodiversidade sergipana. A BiotechSe Biotecnologia Agroindustrial trabalha com pesquisa, desenvolvimento e inovação e tem entre suas especialidades a bioprospecção — busca e seleção de recursos genéticos encontrados na natureza que possam apresentar potencial tecnológico.
Os primeiros trabalhos envolveram áreas de Estância e Aracaju, principalmente ambientes de restinga no litoral. Os pesquisadores coletaram microrganismos associados às raízes e folhas de plantas nativas, entre elas cajueiros e gramíneas.
Inicialmente, foram isolados cerca de 300 microrganismos. Depois de sucessivas etapas de seleção, restaram quatro considerados “elite”, por apresentarem as características mais promissoras para continuar no processo de desenvolvimento da tecnologia.
Antes de avançarem nos experimentos, os microrganismos passam por avaliações para verificar se podem apresentar características patogênicas ou fitopatogênicas. Depois são analisados aspectos como capacidade de fixação biológica de nitrogênio, produção de fitormônios e disponibilização de outros nutrientes, como fósforo e potássio.
Uma das bactérias selecionadas chamou particularmente a atenção. Depois do sequenciamento, segundo Walisson, surgiu a possibilidade de se tratar de uma nova espécie. Foi esse microrganismo que apresentou potencial para permitir a redução de 75% da adubação nitrogenada, mantendo o vigor e a coloração das plantas nos experimentos realizados até agora.
Antes de chegar ao campo, a tecnologia passou por experimentos em casa de vegetação. As bactérias foram inoculadas em plantas cultivadas em vasos para que os pesquisadores acompanhassem seus efeitos sobre o desenvolvimento vegetal. Depois dessa fase, a pesquisa avançou para a lavoura e está no segundo ano consecutivo de testes.
Parte dos experimentos ocorre em Nossa Senhora da Glória, no Campus do Sertão da Universidade Federal de Sergipe (UFS), em parceria com pesquisadores que trabalham com a cultura do milho.
Uma das formas de utilização consiste em inocular a bactéria diretamente na semente. Posteriormente, quando o milho chega ao estágio V4, com quatro folhas verdadeiras, o microrganismo também é aplicado nas folhas. Nos experimentos apresentados por Walisson, as plantas tratadas desenvolveram raízes maiores. Um sistema radicular mais desenvolvido amplia a capacidade da planta de explorar o solo em busca de água e nutrientes.
A próxima etapa será levar a tecnologia para uma escala maior e aproximá-la ainda mais das condições reais encontradas nas propriedades rurais. A previsão é trabalhar com produtores parceiros na safra de 2027, possivelmente a partir de março. A equipe pretende ampliar os experimentos e verificar como os resultados obtidos até agora se comportam em áreas maiores de produção.
Isso não significa, entretanto, que o produto estará disponível comercialmente já no próximo ano. Depois das etapas de desenvolvimento e validação, será necessário cumprir o processo regulatório e obter registro no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para que o inoculante possa chegar ao mercado.
Segundo Walisson, essa etapa normalmente leva entre seis meses e um ano. A meta de longo prazo é mais ambiciosa: chegar a uma tecnologia capaz de substituir integralmente a adubação nitrogenada em determinadas condições. A referência é a experiência brasileira com a soja, cultura na qual a fixação biológica de nitrogênio permitiu reduzir drasticamente a necessidade de fertilizantes nitrogenados.
No milho sergipano, entretanto, a pesquisa ainda não chegou a esse estágio. O resultado apresentado até agora é um potencial experimental de redução de 75%, que ainda precisa passar pelas próximas etapas de validação.
A possibilidade de reduzir o consumo de ureia ganha dimensão econômica diante da elevada dependência brasileira de fertilizantes produzidos no exterior. O Brasil importa atualmente cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária. Soja, milho e cana-de-açúcar, juntos, respondem por mais de 73% do consumo nacional desses insumos.
Essa dependência ganhou ainda mais relevância após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022. A Rússia permanece entre os principais fornecedores de fertilizantes para o Brasil, embora a China tenha assumido a liderança em volume em 2025. Naquele ano, o Brasil importou 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes. Desse total, 11,9 milhões de toneladas vieram da China e 11,1 milhões da Rússia.
A concentração das compras em poucos mercados deixa o agronegócio brasileiro exposto não apenas às variações de preços, mas também a conflitos geopolíticos, disponibilidade de matérias-primas, fretes e problemas logísticos.
Nesse cenário, uma tecnologia capaz de reduzir a quantidade de fertilizante necessária por hectare pode ter efeitos que ultrapassam a lavoura onde é aplicada. A diminuição do consumo de ureia pode reduzir custos para o produtor e, em maior escala, contribuir para diminuir a exposição da agricultura brasileira às oscilações do mercado internacional.
Para o produtor sergipano, o desenvolvimento da tecnologia ocorre também em um período marcado por dificuldades dentro da própria lavoura. Depois do desempenho alcançado na safra anterior, a irregularidade das chuvas prejudicou as plantações em 2026.
Os sinais começaram a ficar mais evidentes a partir do fim de maio. Nos levantamentos seguintes, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) passou a registrar os efeitos dos veranicos sobre as áreas produtoras, principalmente no semiárido.
No fechamento da safra 2025/26, divulgado em setembro, a produção total de grãos de Sergipe foi estimada em 864,8 mil toneladas, contra 1,31 milhão de toneladas na temporada anterior, retração de 34,1%. No milho da terceira safra, o rendimento recuou cerca de 35%, em um ciclo marcado pela irregularidade das precipitações.
A Conab já havia informado, em julho, que as baixas precipitações em Sergipe estavam provocando reflexos sobre a evolução das lavouras de milho. No levantamento seguinte, voltou a apontar o estado entre as áreas do Nordeste onde as condições climáticas registradas desde junho influenciaram negativamente o desenvolvimento da cultura.
Em algumas localidades do Alto Sertão, o impacto foi ainda mais intenso. Em Santa Rosa do Ermírio, povoado de Poço Redondo, produtores chegaram a relatar perdas próximas de 90% nas lavouras locais de milho, comprometendo também a produção de silagem destinada à alimentação do rebanho.
Os percentuais representam situações distintas: a queda de aproximadamente 35% refere-se ao rendimento estadual do milho da terceira safra, enquanto os 90% correspondem a relatos de produtores em uma região específica do Alto Sertão.
Para o agricultor, o cenário evidencia que o custo da produção não depende apenas do preço dos insumos. Chuva, produtividade e fertilizantes interferem diretamente na rentabilidade.
Há ainda uma particularidade econômica em Sergipe. Enquanto pesquisadores trabalham para diminuir a quantidade de ureia necessária nas lavouras, o estado voltou a produzir o fertilizante em grande escala.
A Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados de Sergipe (Fafen-SE), localizada em Laranjeiras, retomou a produção de amônia em 31 de dezembro de 2025 e iniciou a fabricação de ureia em 3 de janeiro de 2026. A unidade tem capacidade para produzir 1.800 toneladas de ureia por dia, volume equivalente a aproximadamente 7% do mercado brasileiro. A Petrobras realizou investimento inicial de R$ 38 milhões para a retomada da fábrica.
A retomada da Fafen e o desenvolvimento dos bioinsumos atuam, portanto, em duas frentes de um mesmo problema econômico. A fábrica aumenta a oferta doméstica e contribui para reduzir a necessidade brasileira de importar ureia; a pesquisa desenvolvida em Sergipe busca diminuir a quantidade desse fertilizante necessária dentro da lavoura.
A estratégia está alinhada ao desafio estabelecido pelo Plano Nacional de Fertilizantes, que trabalha com horizonte até 2050 para ampliar a produção nacional e reduzir a dependência externa do país.
A BiotechSe Biotecnologia Agroindustrial está instalada no Sergipe Parque Tecnológico (SergipeTec). Além da pesquisa voltada à nutrição do milho, a empresa desenvolve estudos com microrganismos direcionados ao controle biológico de doenças e pragas, promoção do crescimento vegetal e redução dos efeitos da menor disponibilidade de água sobre as plantas. Walisson afirma que há cerca de dez pesquisas desse perfil em desenvolvimento ou previstas.
Walisson também atua como pesquisador no desenvolvimento do eixo de biotecnologia do SergipeTec. O engenheiro agrônomo fez mestrado em Fitopatologia na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
O modelo de negócio da BiotechSe não prevê necessariamente que a própria empresa fabrique os produtos resultantes das pesquisas. A estratégia é desenvolver e validar tecnologias que posteriormente possam ser transferidas a empresas parceiras com capacidade para levá-las ao mercado.
O médico e sócio da empresa Maxwell Nascimento Santos atua principalmente nas áreas de processos, negócios e avaliação da viabilidade econômica das soluções desenvolvidas. Ele relaciona o trabalho da empresa à busca por maior autonomia na oferta de insumos para o agronegócio e menor exposição às crises internacionais. Maxwell sintetizou seu papel na empresa como o de ajudar a “viabilizar que saia da academia e encontre a produção”.
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