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O que devemos esperar da maçonaria?

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Para a minha mulher,

Fernanda Flores.

Nilton Santana [1]
Alguns esperam que minhas palavras espelhem o ofício do historiador, o ávido leitor, o voraz estudioso. Embora busque conhecer profundamente teorias, ideologias, religiões, filosofias e quaisquer formas do pensamento humano, pretendo aqui retirar todos os rótulos e erudições para falar da forma mais direta possível para aqueles que almejam entrar algum dia na maçonaria.

Pretendo falar sobre o que deve ser cultivado no âmago de todo aspirante a maçom. Para isto, serei o mais informal possível em minhas palavras.

Deixo claro que estou longe de ser um bom maçom, ainda estou desbastando a minha pedra bruta. Mas creio que na vida a direção importa mais que a velocidade. Por isso, digo ao aspirante que caso não esteja na direção certa é hora de reavaliar e considerar se a maçonaria realmente deve fazer parte da sua jornada.

O Pequeno Príncipe Foto: Divulgação

Os motivos que levam uma pessoa a se interessar pela maçonaria são vários: alguns pensam que a maçonaria os tornará ricos, que os “contatos” o levarão para uma vida recheada de poder financeiro. Aquele que adentrar à Ordem com este pensamento, logo se decepcionará. Ficará desapontado porque o poder aquisitivo material não irá aumentar com o passar dos meses ou anos. Não irá demorar muito tempo para abandonar a Ordem. A riqueza proporcionada pela maçonaria é outra. Não é material, não é palpável, é uma fortuna mais elementar, mais essencial em nossas vidas e relembrando O Pequeno Príncipe: “O essencial é invisível aos olhos.”[2]

É verdade que há maçons ricos na sociedade, porém, isto está longe de ser uma regra. Na maçonaria há pessoas das mais variadas classes sociais, das mais diversas religiões, e que possuem baixo, médio e alto poder financeiro. O maçom rico não adquiriu riqueza por causa da maçonaria, mas por aproveitar por meio de seus esforços as oportunidades que lhes surgiram (assim como toda e qualquer pessoa rica pertencente à maçonaria ou não). Podemos concluir que a maçonaria não te deixará mais rico.

E também não te dará prestígio social, aliás, visto o grande preconceito que muitos nutrem em relação à maçonaria, imagino que em alguns ambientes sociais o seu prestígio social até diminua ao saberem que você é um maçom. O preconceito aflora até mesmo em pessoas diplomadas, aliás como deixa claro o livro Sidarta de Hermann Hesse[3]: possuir conhecimento não é o mesmo que possuir sabedoria.

Então, se a maçonaria não me trará mais dinheiro, o que ela poderá me proporcionar? Para responder isto, quero observar a mensagem bíblica nas tentações de Jesus. Mensagem bíblica já conhecida, porém, farei aqui uso de uma leitura simbólica do trecho. Uma leitura que alguns historiadores, antropólogos e mitólogos fazem de escrituras sagradas não importando a tradição. Farei isto procurando não me alongar, sendo o mais sucinto possível sobre as narrativas de textos sagrados.

Saliento que toda narrativa sagrada se refere ao íntimo do ser humano. Campbell deixa claro que toda narrativa dirige-se primeiro ao nosso interior[4]. Longe de somente ter narrativas curiosas, a mitologia serve a algo prático: orientar a nossa experiência.

No Baghavad Gita[5], vemos a batalha entre Pandavas e Kauravas, uma alusão entre duas forças distintas e antagônicas que habitam o nosso interior (a boa inclinação e a má inclinação). Da mesma forma podemos citar no Gênesis[6] o nascimento de Esaú e Jacó (que mais tarde tornar-se-ia Israel) onde vemos ali a mesma disputa que acontece em cada ser humano. No Êxodo[7] temos representadas duas maneiras de agir: o Faraó com sua arrogância e Moisés com sua humildade. São ambos também duas forças. Toda narrativa sagrada visa falar do que acontece no ser humano, e não fora. O mito remete sempre a algo que experimentamos.

A narrativa da tentação de Jesus no deserto guarda algumas lições valiosas para quem quer adentrar a maçonaria. Em Mateus vemos que Jesus é tentado por quarenta dias e quarenta noites pelo diabo.

Sem ignorar a leitura literal do texto gostaria de propor uma leitura simbólica, na qual Jesus simboliza o bem que há no íntimo humano e o diabo a má inclinação. Entenda-os aqui como duas forças opositoras que há em nosso íntimo. A tentação no deserto se refere a toda tentação que encaramos no nosso dia a dia e que precisa ser vencida. O próprio diabo pode ser interpretado como a nossa má inclinação, a vaidade, o ego que a todo momento está nos tentando. O diabo seria a ideia de que temos um “eu” separado de todo o restante da realidade. O diabo tenta fazer com que Jesus torne-se egoísta e vaidoso, e este recusa tais investidas. Jesus vence a má inclinação.

Quando o apóstolo Paulo[8] diz que não era ele quem vivia, mas que Cristo vivia nele, isto mostra que a batalha travada em seu interior havia sido vencida por Cristo. Não há espaços para convívio entre Cristo e o nosso “eu separado”. Quando possuímos a concepção de que somos separados do restante do mundo, damos vazão ao nosso orgulho. E este pequeno “eu” pode se manifestar de diferentes formas e ressalto que o problema não é “aquilo que fazemos”, mas a “intenção por trás daquilo que fazemos”.

Permita-me esmiuçar essa breve mensagem: uma pessoa dominada pelo “eu” poderá comprar um carro para “ostentar” (termo usado em nossos tempos para se referir ao crescente prestígio social ao adquirir algo). Possui o carro para se diferenciar e se sentir superior às demais. O problema não é o carro, mas a sua intenção. Uma pessoa tomada pelo deus interior seria alguém que compraria o carro pela necessidade de ter que se deslocar. O mesmo podemos ver com a escolha do ofício: algumas pessoas escolhem determinados empregos por conta da distinção social que este possui, e outras porque percebem a sua verdadeira vocação. Poderia aqui conceder vários exemplos entre atitudes tomadas para alimentar o “pequeno eu” e atitudes tomadas para alimentar o deus que habita em nós.

Na tradição hindu a centelha divina que habita em nosso interior é chamada de Átman. Na Bíblia lemos no livro de Salmos[9] o “vós sois deuses”. Essa centelha divina que alguns chamam de Eu Maior, consciência de Cristo ou Consciência de Buda. Seria o acesso a um estado onde integramos todo nosso ser. Mas antes disso temos que passar por uma guerra interna.

O maçom é aquele que percebe a sua guerra interna, almejando se tornar uma pessoa mais virtuosa. A sua luta é para desbastar a sua própria pessoa da mesma forma que o artista desbasta uma pedra para fazer uma escultura. O artista retira os excessos (vícios) para que a escultura esteja bem desenhada com suas formas (virtudes) bem definidas. É alguém que olha primeiro para o seu mundo interior que é, na verdade, a sua primeira casa. O maçom reconhece seus vícios, luta contra estes e busca a virtude. Portanto, por meios simbólicos nota-se que a maçonaria visa melhorar a pessoa que já possui essa disposição. E como possuir essa disposição?

Por meio da sabedoria. Para adentrar na maçonaria, o aspirante deve ter em mente as palavras de Provérbios[10], onde amiúde diz que a sabedoria é mais valiosa que o ouro e a prata. E posso citar aqui que tais admoestações para buscar cada vez mais sabedoria é também presente no Nahjul Ballaghah[11] (Livro importante do islamismo xiita) e no Alcorão (Livro presente tanto no sunismo quanto no xiismo)[12]. A sabedoria é louvada em diferentes tradições religiosas e filosóficas. No meio romano temos os estoicos: Epicteto, Sêneca e Marco Aurélio. Ressalto aqui O manual para a vida[13] de Epicteto. Todos esses livros nos fazem trabalhar o interior e são leituras prazerosas. Ler os grandes clássicos é atravessar o tempo e aprender com os escritos eternos dos antigos.

O aspirante a maçom deve antes de tudo aprender com os antigos e buscar a sabedoria. E mesmo aquele que não seja maçom deve fazer o mesmo. Porque é o dever primordial de todo ser humano possuir tal intento. É a nossa principal busca. A sabedoria é tão importante que até mesmo o amor é definido pela sabedoria. O nosso amor possui a profundidade da nossa sabedoria. Basta lembrar que quando crianças muitas vezes não entendemos a advertência de nossos pais como “amor”, hoje, já adultos possuímos uma visão totalmente diferente, porque a nossa sabedoria aumentou (ou deveria aumentar). Para perceber e definir o amor necessitamos da maturidade e maturidade somente advém com a sabedoria.

Talvez o vosso caminho não seja o de adentrar na maçonaria, mas, se caso venha um dia a receber o convite tenha em mente que aquilo que você deve esperar da maçonaria é o aprendizado que lhes será passado por meio dos símbolos. A riqueza que a maçonaria irá lhes proporcionar é a sabedoria. O verdadeiro maçom é um filósofo, ou seja, um amante da sabedoria.

Em Sidarta, de Herman Hesse[14], percebemos que nem todos buscam a sabedoria. Alguns seres humanos estão realmente interessados em outras coisas: riquezas e prestígio social são exemplos. O dinheiro e o prestígio não são ruins, apenas a colocação deles como centro da vida que é prejudicial. Para aqueles que colocam a riqueza e o prestígio social como centro da sua vida, a maçonaria não é o seu lugar. Mas para aqueles que possuem como centro a busca da sabedoria, posso afirmar que terá grandes aprimoramentos na maçonaria.

A sabedoria possui uma natureza diferente segundo Hesse[15], ela não pode ser ensinada, é somente aprendida. Algumas lições apenas aprendemos vivendo, e a maçonaria pode proporcionar esta vivência.

 

___________

[1] Professor de História. Membro da Loja Estrela de Davi. Amante dos estudos sobre religiosidades e mitologia.

 

Referências:

ALCORÃO. O significado dos versículos do Alcorão Sagrado. Tradução: Samir El Hayek. São Paulo: Marsam Editora Jornalística, 2016.

 BÍBLIA – Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.

 CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito – Entrevistas com Bill Moyers. São Paulo:Editora

Palas Athena, 1990.

Canção do Venerável (Baghavad Gita) / tradução do sânscrito, prefácio e notas Carlos Alberto Fonseca. São Paulo: Globo, 2009.

Epicteto. O Manual para a Vida (Enchiridion). Trad. e comentários de Rafael Arrais. eBook para eReaders v1.1. São Paulo: Rafael Arrais; 2013.

HESSE, Hermann. SIDARTA. Rio de Janeiro: Record, 2019.

SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O Pequeno Príncipe. Rio de Janeiro: Agir, 2006.

TALEB, Iman Ali ibn abi. Nahjul Balaghah, o método da eloquência. O Príncipe dos Fiéis Iman Ali ibn abi Taleb. Tradução: Samir El-Hayek. 2ª Ed. São Paulo: Centro Islâmico no Brasil, 2010.

___________________________

[2] SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O Pequeno Príncipe. Rio de Janeiro: Agir, 2006. P. 72.

[3] HESSE, Hermann. SIDARTA. Rio de Janeiro: Record, 2019.

[4] CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito – Entrevistas com Bill Moyers. São Paulo:Editora

Palas Athena, 1990.

[5] Canção do Venerável (Baghavad Gita) / tradução do sânscrito, prefácio e notas Carlos Alberto Fonseca. São Paulo: Globo, 2009.

[6] BÍBLIA – Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.

[7] Ibidem

[8] Ibidem.

[9] Ibidem.

[10] Ibidem.

[11] TALEB, Iman Ali ibn abi. Nahjul Balaghah, o método da eloquência. O Príncipe dos Fiéis Iman Ali ibn abi Taleb. Tradução: Samir El-Hayek. 2ª Ed. São Paulo: Centro Islâmico no Brasil, 2010.

[12] ALCORÃO. O significado dos versículos do Alcorão Sagrado. Tradução: Samir El Hayek. São Paulo: Marsam Editora Jornalística, 2016.

[13] Epicteto. O Manual para a Vida (Enchiridion). Trad. e comentários de Rafael Arrais. eBook para eReaders v1.1. São Paulo: Rafael Arrais; 2013.

[14] HESSE, Hermann. SIDARTA. Rio de Janeiro: Record, 2019.

[15] Ibidem.

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