Palacio do Lavradio. no Rio de Janeiro
Por Rivaldo Frias (*)
1883: A REUNIFICAÇÃO DA MAÇONARIA BRASILEIRA
E a fusão do Grande Oriente do Brasil com o Grande Oriente Unido
Ao escrever este artigo, sobre o qual por algumas noites me debrucei pesquisando os mais diversos livros, internet e revistas direcionadas ao público interessado pela cultura maçônica e notadamente pela sua historiografia, que tem a finalidade de trazer a luz e dar conhecimento a fatos que marcaram a nossa história e após uma incessante pesquisa, resolvi trazer ao conhecimento dos diletos leitores um fato que me chamou a atenção e sem dúvida marcou a história da maçonaria brasileira.
No dia 18 de janeiro de 1883 realizou-se no edifício do Gr.: Or.: do Brasil, sito à Rua do Lavradio nº. 83, em assembleia geral do povo maç.:, a imponente cerimônia da União dos dois Círculos existentes no Brasil, isto é, o Gr.: Or.: do Brasil, ao Val.: do Lavradio e o Gr.: Or.: Unido, ao Val.: dos Benedictinos, denominando-se d’ora avante o Gr.: Corpo resultante de tão almejada união “Grande Oriente do Brasil” e continuando a ser sua sede a citada rua do Lavradio.
A tão solene festividade esteve presente avultadíssimo número de MMaç.: presurosos de reatar os laços da fraternidade que a cisão tinha rompido. O majestoso edifício do Lavradio achava-se tanto exterior como interiormente iluminado a “giorno” e todos os seus vastos salões sumptuosamente ornados. Na sala denominada dos Passos Perdidos destacavam-se os retratos em grandes telas dos proeminentes Grão Mestres Visconde do Rio Branco e Pod.: Ir.: Conselheiro Dr. Joaquim Saldanha Marinho. Na sala contígua viam-se o busto do Grão Mestre Pedro I, os retratos dos Grão Mestres Visconde de Inhauma e Marquês do Herval, e as telas da batalha de Riachuelo e Passagem de Humaitá (1).
Às 7 horas da noite, no Salão do Templo Azul foi aberta a sessão do Gr.: Or.: em assembleia geral do Povo Maç.:, no gr.: de Ap.:, pelo Pod.: Ir.: Gr.: M.: Conselheiro Dr. Francisco José Cardoso Júnior, nomeando em seguida uma Comm.: composta de GGr.: IInsp.: GGer.: 33, a fim de acompanhar ao Templo o Pod.: Gr.: M.: Honn .: Conselheiro Dr. Joaquim Saldanha Marinho.
Sendo franqueado o ingresso a tão distincto Maç .: com todas as formalidades do ritual, recebeu entre CCol.: o áureo malhete da sabedoria que lhe foi ofertado pelo Sob.: Gr.: M.:, o qual, ao anunciar-se a chegada de tão Pod.: Ir.: ao Templo descera do sólio para dar-lhe o ósculo e o amplexo fraternal. O Conselheiro Dr. Saldanha Marinho, nobre como sói ser em todos os atos, quer na vida profana quer na maçônica, elevou-se à altura de quem é respeitador da fé dos tratados, pelo que aceitou o malhete por mera cortesia e em seguida o entregou proferindo estas memoráveis palavras:
“Sob.: Gr.: M.:, a verdadeira união da família maçon.: do Brasil deve começar pela disciplina. Mac.: deste Circ.: reconheço e respeito a autoridade do meu Gr.: M.: e entrego-vos, pois, o malhete do Grão mestrado da Ordem”.
Abraçaram-se os dois GGr.: MMestr.: e esse abraço mais do que cousa alguma consolidou a União e ao som de estrepitosos aplausos e sonoros vivas tomaram assento no sólio o Sob.: Gr.: M.: no trono (2), ao seu lado direito o Conselheiro Dr. Joaquim Saldanha Marinho e ao esquerdo o Pod.: Ir.: José Antônio de Oliveira Moraes, Repres.: Part.: do Gr.: M.: e Gr.: Repres.: do Supr.: Cons.: de Inglaterra.
Concedida a palavra aos O Orad.: inscritos, usaram dela o Gr.: Orad.: Adj.: Antônio José de Souza congratulando-se com todos os MMaç.: pelo ato de União; em seguida, obtida a devida vênia, subiu ao sólio e em nome da nossa Subl.: Ord.: ofertou a cada um dos GGr.: MM.: um primoroso ramo de júbilo (3).
Oraram o Sob.: Gr.: Mest.: Conselheiro Cardoso Junior tornando saliente o quanto o coadjuvara o Pod.: Ir.: Conselheiro Dr. Joaquim Saldanha Marinho, em quem sempre encontrou a maior boa vontade e ardentes desejos para a unificação da Família Maçônica. Tomando a palavra o Pod.: Ir.: Conselheiro Dr. Saldanha Marinho eloquentemente aconselhou — constância na União.
Oraram ainda os RResp.: e Ill.: IIr.: Coronel Francisco Manoel da Cunha Júnior, Gr.: Orad.: do Gr.: Or.:, Octaviano Hudson, em nome das AAug.: Lojas.: Liberdade e Sete de Setembro; Dr. Figueiredo de Magalhães, Tomás Alves, Luiz Alves Macedo, Antônio José de Souza, Guedes Guimarães e Domingos dos Santos, em nome da Aug.: Loj.: Amparo da Virtude. O Resp.: e Ill.: Ir.: Dr. Feital recitou uma poesia.
Aplaudida entusiasticamente a União e os oradores, terminou a solenidade às 10 horas da noite, ao som do hino maçônico cantado pelo Resp.: Ir.: 33 Hermenegildo Nunes Cardoso e acompanhado por todos os MMaç.: presentes”.
oOo.
Esse relato da histórica sessão em que houve a união entre o Grande Oriente do Brasil do Lavradio e a Obediência dissidente criada por Saldanha Marinho, foi publicado no Boletim Oficial do Grande Oriente do Brasil, ano 11, número correspondente a dezembro de 1882 e publicado em janeiro de 1883, o que possibilitou a inserção da reportagem.
A dissidência surgira depois de uma eleição realizada no Grande Oriente do Brasil, a 7 de julho de 1863, porque o grupo de Joaquim Saldanha Marinho queria fazer válidos os votos dos membros honorários. As muitas irregularidades fizeram com que a eleição fosse anulada, sendo realizada outra, a 14 de agosto. A oposição, inconformada, tentou, por todos os meios, anular o pleito, o que fez com que o Grão-Mestre, marquês de Abrantes (Miguel Calmon Du Pin e Almeida), renunciasse ao cargo, a 25 de agosto, sendo substituído pelo Grão-Mestre Adjunto, Bento da Silva Lisboa, o barão de Cayru.
A 25 de novembro do mesmo ano, em sessão tumultuada pelos elementos da oposição, Cayru era aclamado — diante das circunstâncias — Grão-Mestre do Grande Oriente. Saldanha, diante disto, reuniu as Lojas Comércio, Caridade, Estrela do Rio, Silêncio, 18 de Julho, Imparcialidade e Filantropia e Ordem, com as quais consumou a cisão, criando uma Obediência, que, como se julgava o legítimo Grande Oriente, tomou o mesmo nome: Grande Oriente do Brasil, acrescentando, porém, a expressão “do Vale dos Beneditinos”, em alusão ao local em que se instalou no Rio de Janeiro.
Em 1869, eram iniciadas gestões no sentido de reunificar as duas Obediências, por interferência da Maçonaria portuguesa, que, em outubro daquele ano, realizara a fusão do Grande Oriente Lusitano com o Grande Oriente Português, daí resultando o Grande Oriente Lusitano Unido. Como o G.O. Lusitano tinha tratado de amizade e mútuo reconhecimento com o G.O. Dos Beneditinos, enquanto que o G.O. Português tinha o mesmo tratado com o G.O. Do Lavradio, a unificação deles criou uma situação de mal-estar, fazendo com que os maçons portugueses pressionassem os brasileiros, para que estes imitassem as Obediências portuguesas.
Formadas as comissões para tratar do assunto, em 1870, os trabalhos delas se estenderam até 1871. A 20 de maio de 1872, eram realizadas sessões extraordinárias de ambas as Obediências, para tratar mais ativamente da fusão. A 29 de maio, eram aprovados os termos do acordo e, a 4 de junho, resolveu-se tratar da organização de um Grande Oriente Unido, sendo eleita uma administração provisória, para a transição. O Grão-Mestre do Grande Oriente do Lavradio, empossado em março de 1871, era o Visconde do Rio Branco, enquanto que no dos Beneditinos, Saldanha continuava o primeiro e único.
A 7 de agosto eram realizadas a eleição para o Grão-Mestrado da Obediência unificada, com o seguinte resultado: Saldanha Marinho, com 182 votos; Rio Branco, com 181; e Caxias, com 3. Como a Constituição Provisória exigia maioria absoluta de votos, houve novo pleito, a 17 de agosto, quando Rio Branco recebeu 165 votos, contra apenas 14 contrários, entre votos para Saldanha, brancos e nulos. Com o protesto dos partidários de Saldanha, inconformados com o resultado, a eleição foi anulada e marcada outra para 4 de setembro. Esta, realizada em ambiente de tumulto generalizado e flagrantemente fraudulenta, computou 220 votos para Saldanha, contra 190 para Rio Branco.
O baixo nível da eleição comprometia, profundamente, a fusão; isso acabou fazendo com que Rio Branco reassumisse o Grão-Mestrado do Lavradio e declarasse nula a fusão, a 14 de setembro de 1872. Depois disso, Saldanha também reassumia a Obediência por ele criada, agora com o título de Grande Oriente Unido do Brasil — que seria o título depois da fusão — apesar da união não se ter concretizado. E a situação perduraria até 18 de janeiro de 1883.
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Referências Bibliográficas:
“Origens Históricas e Místicas do Templo Maçônico”
Editora Gazeta Maçônica – Paulo – 1991.
http//www.lojasmaçonicas.com.br/.
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