Incidental — Considerações Estéticas a Qualquer Momento

Voz, Verdade e Vocação — A propósito de Nessun Dorma, ária interpretada por Gentil Monteiro

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Por Léo Mittaraquis (*)

 

Há alguns dias, o multifacetado artista Marcos Gentil Monteiro, ou tão somente Gentil Monteiro, ousou interpretar um trecho da ópera Turandot, de Giacomo Puccini, exibida, pela primeira vez, em 1926, no Teatro alla Scala, em Milão.

O que moveu este intérprete e compositor a proceder de tal modo?

Vamos ser diretos e honestos? Pois, então: Em um contexto social em que música é pensada, primeiramente, como uma manifestação dominada por batidas sintetizadas e refrões inventados já com o objetivo de “viralizar”, em segundos, no TikTok, a presença de um competidor, que se arrisca a exercitar, com rigor, momentos de solo vocal, expressando, em nome do personagem da obra original, suas emoções, de forma melódica e virtuosa, é quase um notável incidente estético, diante do qual público e jurado, salvo honrosas exceções, não sabem como se portar e nem como emitir juízo bem fundamentado.

Em tempo: Gentil Monteiro é, sim, um intérprete apaixonado. Porém, sua paixão não significa ignorar a técnica. O artista se preocupa em ensaiar, estudar, buscar orientação técnica entre os melhores daqui, de Aracaju.

Houve, e sempre haverá, quem apenas acuse o artista de anacrônico. A resposta autêntica a esta acusação sempre será o posicionar-se, ciente de que o campo oferece riscos.

Acima de tudo, a disposição de Gentil Monteiro de investir neste gênero musical clássico e imortal é um ato, repito, de intrepidez e desassombro, que desafia a lógica rasa do entretenimento atual.

Tome-se nota, como diria Lola Monteiro, personagem de Jean-Paul Sartre: Gentil não é contra as composições contemporâneas, contra os ritmos atuais. Apenas quer exercer seu direito espiritual e estético de ocupar um pequeno, porém essencial, espaço, atuando com profissionalismo e dignidade.

Sim, como bem disse Nietzsche, no aforisma 33 (costumo repetir isso, confesso): “Sem a música, a vida seria um erro, uma tarefa cansativa, um exílio”.

Gentil recusa-se a ser somente um exilado e tarefeiro na própria vida. Opta, com consciência e alegria, em compor e interpretar. Opta por fazer de parte da sua vida uma grande arte.

Merece, por isso, ser aplaudido de pé.

 

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Leo Mittaraquis

Léo Mittaraquis é graduado em Filosofia, crítico literário, mestre em Educação.

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