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O “bichinho” da ansiedade

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Petruska Menezes (*)

Em uma sociedade voltada para a produção e o trabalho, não existe tempo para o desenvolvimento do sentir. Os sentimentos são colocados de lado, como se sentir fosse algo para pessoas fracas ou incapazes de controlar seus impulsos. Pessoas afetivas logo são vistas como problemáticas, inconstantes e não-aptas para fazer parte de organizações e, consequentemente,  excluídas dos ambientes sociais.

Não sei o quão adoecidos estamos, para acreditar que o afeto é algo primitivo e precisa ser eliminado. Os afetos e os sentimentos são respostas adaptativas à vida e possuem uma função primordial de nos dar sentido, direção e promoção da melhor adaptação ao meio.  Ouso dizer que foram as primeiras formas de interação e comunicação partindo dos estímulos corporais, que transmitiam sensações e percepções, dando-lhes uma avaliação sentida como boa, quando favorecia a vida e ruim, quando a dificultava.

Neste processo, a angústia ou a ansiedade (aqui considero as duas palavras como sinônimas) são importantes mecanismos de alerta de que algo não vai bem. Freud, nas duas teorias da libido, afirma que a angústia aparece quando as tensões ou energias corporais não são devidamente descarregadas. Ou seja, a angústia é consequência do excesso de pressão energética. Num segundo momento, ele acrescenta que a angústia também pode ser gerada, quando se acredita que algo de ruim está para acontecer (chamada de angústia-sinal) e mostra uma antecipação do sujeito para um futuro incerto, e de que algo de perigoso pode chegar.

Melanie Klein, outra estudiosa da angústia, diz que existem, principalmente, dois tipos de angústia e que oscilamos entre as duas. Uma angústia é voltada para a desconstrução e segmentação das coisas, sendo o agente impulsionador desse modelo de funcionamento; e o segundo modelo é de uma angústia que busca reparar e integrar. Para Klein, vivemos oscilando entre um estado de angústia e o outro, em busca do equilíbrio.

O que estes dois estudiosos têm em comum é falarem da angústia como algo sinalizador e até benéfico para o ser humano. Seria como a febre em uma pessoa doente. O problema aparece quando tentamos silenciá-la com ansiolíticos e antidepressivos por um aumento significativo, em vez de nos cuidarmos e buscarmos entender o que nos ocorre de desequilíbrio para gerar uma ansiedade (angústia) de proporção maior.

A ansiedade não pode ser ignorada

Em um mundo sem tempo para o sentir, a ansiedade é o “termômetro” de que nada vai bem e, ao invés de nos ouvirmos para reestabelecer o equilíbrio, buscamos ignorá-la (ignorando-nos). É como se adoecêssemos de uma infecção bacteriana e no lugar de investigarmos e entrarmos com um antibiótico adequado para a resolução do que gerou a ausência de saúde, usamos um antitérmico, tentando inibir a febre, achando que, com isso, a doença está curada.

A ansiedade é vista como uma representação à parte de nós, como se ela não fosse algo em nós, pertencente a nós. É vista como um “bichinho” que precisa ser extraído a qualquer preço. E que preço se paga! Uma dependência infinita às medicações, diminuição dos momentos de felicidade e alegria ou sua pseudovivência, mediante muletas sociais delegadas.

Se considera sua ansiedade como um “bichinho”, que tal adotá-la como um bichinho de estimação? Transforme essa sensação desconfortável em sua bússola, nos processos de autoconhecimento, e se permita ter uma vida plena, com o desenvolvimento de recursos pessoais, para lidar com o que seu corpo e sua mente sentem e te explicitam. Não é uma apologia ao sofrimento. É uma dica de autocuidado para, justamente, viver em paz consigo e em harmonia. Ao contrário desta sociedade da anestesia, permita-se sentir suas ansiedades, para que possa encontrar os demais sentimentos. Aí, sim, sentimentos vividos passam a dar sentido à vida e proporcionam os tão sonhados amadurecimento e crescimento mental. Os problemas podem se tornar menores ou perderem a importância, porque você aumentou seus recursos para lidar consigo, com o meio e com as adversidades da vida.

(*) Profa. Esp. Petruska Passos Menezes é psicóloga e psicanalista, integrante do Círculo Psicanalítico de Sergipe, tem MBA em Gestão e Políticas Públicas pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), Gestão Estratégica de Pessoas (pela Fanese), Neuropsicologia (pela Unit) e em curso Gestão Empresarial pela FGV.

** Esse texto é de responsabilidade exclusiva da autora.  Não reflete, necessariamente, a opinião do Só Sergipe.

 

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