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Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

Particularmente, sou fascinado por cinebiografias e, de modo particular, por aquelas cujos motes inspiradores são personalidades da música. Tive a oportunidade de ver as últimas do tempo recente, com exceção (por enquanto) da que se refere à cantora Amy Winehouse – “Back to Black” (2024). Gostei muito, na ordem de preferência, de “Bob Marley: One Love” (2024), “Elvis” (2022), “Bohemian Rhapsody” (Queen, 2018) e “Rocketman” (Elton John, 2019). Mas, nada se compara a “Michael” (2026). Para além do malquerer de parte da crítica raivosa e preconceituosa, trata-se do melhor que se produziu do gênero até a presente data.

É bem verdade que esta minha assertiva tem muito a ver com o fato de eu ser fã de Michael Jackson (1958-2009) há mais de quatro décadas. Entretanto, digo e reafirmo, sobretudo, pela proposta desta que é a primeira parte da cinebiografia do multiartista norte-americano mais reconhecido, vendável e premiado de todos os tempos, inclusive postumamente. E o sucesso do filme não me deixa mentir, batendo recordes após recordes a cada semana desde sua estreia, no último dia 23 de abril. Sem falar que é, no momento, o artista mais ouvido nas plataformas de música do mundo inteiro.

Lembro, com nitidez, da primeira vez que vi Michael Jackson na TV. Dia 4 de dezembro de 1983, quando o videoclipe da canção “Thriller” foi ao ar, no final do programa “Fantástico”, da Rede Globo. Eu tinha apenas nove anos de idade. Fiquei por 14 minutos paralisado diante da TV. Doravante, passei a me interessar por tudo que dizia respeito ao artista, dentro das limitações de acesso à comunicação e de consumo cultural de minha época, de um garoto do interior de Sergipe.

Acompanhei a carreira de Michael Jackson em seus altos e baixos, e, mesmo diante da acusação de prática de pedofilia (nunca provada) via nele alguém que veio para fazer a diferença, superando dramas pessoais e familiares, sobretudo dos traumas de infância que o consumiram mentalmente e que procuraram moldar seu comportamento, visto como estranho. Inclusive, no que diz respeito às inúmeras plásticas que fizeram mudar a sua fisionomia e a sua cor de pele, às voltas com o vitiligo.

Quando de sua morte,  no dia 25 de junho de 2009, aos 50 anos de idade, eu chorei como se tivesse falecido alguém muito próximo. E imaginar que ele, como a tantos outros desse meio do entretenimento de massa, também sucumbiu à pressão e ao uso de algum tipo de droga para tentar fugir dessa loucura toda que a fama cobra com juros e correção monetária. No seu caso, dependente que se tornou de analgéticos, mais de perto do Propofol, do qual fazia uso para tratar de uma insônia crônica.

A bem da verdade, foi duro e ainda é para uma parte da sociedade, notadamente branca, admitir que um jovem negro, de origem humilde, dono de um talento incomum e singular (seja no dançar e no cantar) fosse capaz de ser mais famoso e vender mais do que Elvis Presley, Beatles e Rolling Stones. De tal sorte que Michael Jackson segue sendo o alvo predileto de racistas e fascistas de nosso tempo. Há, para além disso, uma má vontade que beira à inveja, motor para todo tipo de especulação e armadilhas que chegaram a levá-lo aos tribunais e mesmo a ter que se explicar em entrevistas ocasionais. E, em todas as situações, Michael encarou a tudo de cabeça erguida, inclusive reforçando seu orgulho de ser negro.

Poderia, ainda, destacar suas ações caritativas, em especial dedicadas a crianças, idosos e pobres. Nesse particular, como não lembrar da campanha “We Are the World” (1985), capitaneada por ele, que reuniu um time de grandes outros artistas em prol de arrecadar fundos contra a fome na Etiópia? Michael dividiu a autoria da canção-tema com Lionel Richie. Por ocasião de seu acidente (e o filme cobre esse momento), em 27 de janeiro de 1984, quando da gravação de um comercial da Pepsi, no Shrine Auditorium, em Los Angeles, ele sofreu sérias queimaduras no couro cabeludo. Na oportunidade, Michael foi indenizado pela empresa com US$ 1,5 milhão. Ele o doou, integralmente, ao Centro Médico Brotman.

Esses e outros aspectos da vida e da carreira de Michael Jackson fazem parte do filme, dirigido por Antoine Fuqua. Estrelado por seu sobrinho, Jaafar Jackson (filho de Jermaine Jackson, membro do Jackson 5 e irmão de Michael), a primeira parte de sua cinebiografia cobre o período de 1966 a 1988. O grande destaque, certamente, é o jovem ator Jaafar, que faz uma interpretação fenomenal. Ao ver o filme, era incrível como me dava a impressão de que era o próprio Michael quem estava ali.

Até o fechamento deste artigo, o filme “Michael” havia superado a cifra de US$ 420 milhões e ultrapassado 3,5 milhões de espectadores no Brasil. Em que pese o fato de a cinebiografia ser contestada aqui e ali (naturalmente) não é, definidamente, um filme para discussão acadêmica e tampouco para o deleite de uma crítica muitas vezes cruel e injusta com os artistas. Como fã que sou, trata-se, sim, de um filme para fã. E somente quem é, de fato fã, será capaz de ter a sensibilidade suficiente para reconhecer (além de derramar lágrimas de emoção) que se trata de uma grande e justa celebração da memória de um dos maiores artistas que a história já conheceu.

 

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Claudefranklin Monteiro

Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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