CNBB orienta a participação dos católicos no processo eleitoral de 2026 Foto: Fiama Tonhá/ASCOM CNBB
Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)
Frente à constante instrumentalização da religião pela política, notadamente entre alguns segmentos evangélicos, muitos se perguntam se a Igreja Católica também não faz o mesmo, sobretudo nesta semana em que a instituição, no Brasil, resolveu publicar, como sempre faz quando necessário, diversas manifestações em defesa da democracia e da soberania brasileiras. Isto, ao contrário do que preconiza o Direito Canônico, não significa tomar partido ou indicar alguém que mereça um voto. Nem tampouco, por meio do púlpito e se valendo da Palavra de Deus (como fazem alguns “pastores”), tocar o terror entre os fiéis e, a fórceps, ferindo a liberdade que temos desde a nossa criação, obrigá-los a votar num candidato que se apresenta como o salvador da pátria.
Longe de desobedecer ao Direito Canônico, o que a Igreja Católica fez e faz está expresso na Doutrina Social da Igreja. E mais, reflete as ideias contidas nos Santos Evangelhos, sobretudo de defesa da dignidade humana, garantindo-a para todos, sobretudo para os pobres. E isto passa, obviamente (pelo menos para quem tem o mínimo de sensibilidade e inteligência), pela defesa da democracia e da soberania nacionais. Não pode haver um país livre sem soberania, nem tampouco um país ser soberano em um regime que não seja democrático. E a Igreja Católica, a meu ver, não poderia ficar isenta disso. Se esta postura incomoda quem defende a interferência externa (leia-se, norte-americana) e flerta com ideologias sectárias e autoritárias, reveja urgentemente seu conceito de católico. Pois, no seguimento de Jesus, não há lugar para quem faz acepção de pessoas, propaga o ódio, divide a sociedade e as famílias, julga e condena e pratica o farisaísmo.
Entre as diretrizes apresentadas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), para as eleições de 2026, destacam-se: a neutralidade partidária; a política como lugar da prática da caridade; o voto consciente, com vistas a desestimular a abstenção. Nesse particular, entende a Igreja que abster-se do processo eleitoral pode dar espaço para soluções nada cristãs, embora revestidas como tais. Além disso, como venho dizendo, a defesa da democracia brasileira, fazendo um apelo para a necessidade urgente de se respeitar a Constituição, reforçando a independência dos poderes e a integridade de nosso processo eleitoral, por meio das urnas eletrônicas (constantemente questionadas por um segmento político-partidário).
A CNBB também denuncia práticas como a corrupção, a compra de votos, os abusos de poder econômico e político, o uso indevido dos recursos públicos e a disseminação de fake news. Todas deveriam ser, conscientemente, vistas por nós cristãos, independentemente de sermos católicos ou não, como coisas que não emanam de Deus. E aqueles que delas fazem uso para chegar ou se manter no poder são tão diabólicos quanto o próprio diabo, mas, em geral, se apresentam como pessoas de bem, tementes a Deus e defensoras dos bons costumes e da família.
Além disso, a CNBB chama a atenção para os critérios de discernimento que o eleitor deve cultivar na hora de decidir sobre seu voto. Deve analisar a trajetória e o histórico do candidato, verificar se ele que está alinhado à Lei da Ficha Limpa, se defende os vulneráveis e se apresenta propostas de políticas públicas que lhes garantam dignidade, se proteje a Amazônia, os povos originários e o meio ambiente e a soberania nacional. Neste particular, ressalto a fala do arcebispo dom Orlando Brandes, da Arquidiocese de Aparecida (SP), em missa do último dia 7 de setembro: “Vamos defender a nossa soberania. Nenhum poder de fora, seja quem for, não deve mandar aqui. Aqui é nossa soberania, aqui é nossa casa, aqui é nossa pátria”.
Fato é que a Igreja Católica, longe de fazer uso instrumental da política, exerce um papel importante ao orientar seu povo, o povo de Deus. No seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, deve-se levar em consideração sempre o bem comum, a concórdia e a fraternidade, e a política pode e deve ser, também, esse lugar. Aliás, que bom seria que católicos autênticos ocupassem mais espaços de representação política e de poder, mesmo. Não para impor a sua ideologia, como querem outros segmentos religiosos, mas para propagar o amor de Deus por meio das instituições humanas, sacralizando-as e livrando-as de oportunistas, fariseus e lobos travestidos em peles de cordeiro.
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