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El Niño ameaça produção de leite em Santa Rosa do Ermírio, em Sergipe

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O povoado produz atualmente cerca de 250 mil litros de leite por dia, enquanto Poço Redondo, considerando todo o município, ultrapassa 300 mil litros diários

 

Por Antônio Carlos Garcia (*)

  A falta de chuva começa a ameaçar uma das principais atividades econômicas de Santa Rosa do Ermírio, povoado de Poço Redondo, no Alto Sertão de Sergipe. Com a baixa produção de milho, os produtores de leite já começaram a comprar silagem em outras regiões para alimentar o gado. A água também passou a pesar nos custos das propriedades. O presidente da Associação Amigos do Leite, Odair José de Oliveira, estima que a produção poderá cair até 20%, dependendo da intensidade e da duração dos efeitos do El Niño.

Odair José, presidente da Associação Amigos do Leite

O problema tem peso econômico porque Santa Rosa do Ermírio está no centro de uma das principais regiões produtoras de leite de Sergipe. Segundo Odair, o povoado produz atualmente cerca de 250 mil litros de leite por dia, enquanto Poço Redondo, considerando todo o município, ultrapassa 300 mil litros diários.

A escassez de alimento começa na lavoura. Segundo informações levantadas pela reportagem junto ao setor produtivo, a quebra da produção de milho na região chegou a aproximadamente 90%, comprometendo a produção de silagem usada na alimentação do gado.

“O gargalo que teve foi esse El Niño. Nós não tiramos lavoura para fazer silagem para o gado. A silagem é muito pouca”, afirma Odair. Em algumas áreas, segundo ele, o milho sequer conseguiu se desenvolver. A alternativa encontrada pelos produtores foi buscar alimento em outras regiões, principalmente em Carira, em Sergipe, e Pedro Alexandre, na Bahia.

Silagem já vem de outras regiões

O preço da silagem está entre R$ 350 e R$ 400 por tonelada, segundo Odair. Os produtores fazem as compras individualmente, o que dificulta a negociação de grandes volumes. Parte do alimento armazenado nas propriedades ainda garante a alimentação do rebanho, mas o estoque deve durar somente até outubro. “Aí depois é onde a gente vai ter que se virar para salvar os animais e salvar a produção regional também”, afirma.

Para Odair, a prioridade é evitar que a falta de alimento provoque redução do rebanho e, consequentemente, da produção de leite. Uma das principais reivindicações é uma linha de crédito pelo Banese, com juros baixos e prazo de dois anos, para financiar a compra de ração e outros alimentos. “Precisamos de uma linha de crédito para ração, com juros baixos e prazo de dois anos para salvar os animais da região”, afirma.

Produtores pedem limpeza de 400 aguadas

A falta de alimento não é o único problema. A água também está ficando escassa nas propriedades. Segundo Odair, os produtores começaram a comprar água por volta de abril. Uma carrada transportada do Rio São Francisco custa aproximadamente R$ 450.

Em uma das propriedades da região, a despesa chega a cerca de R$ 100 mil por mês somente com água. Diante da situação, os produtores levaram as reivindicações ao secretário de Estado da Agricultura, Desenvolvimento Agrário e da Pesca, Zeca Ramos da Silva.

Além da linha de crédito, pediram a limpeza das aguadas utilizadas pelos criadores. Segundo Odair, o secretário se comprometeu a providenciar a limpeza de aproximadamente 400 aguadas da região e a avaliar formas de ajudar os produtores na compra de silagem. Uma nova reunião entre o secretário, a Associação Amigos do Leite e alguns produtores está prevista para a próxima semana.

A demanda por água ocorre em uma região onde o próprio Governo de Sergipe reconhece a necessidade de ampliar a segurança hídrica. Poço Redondo é o município mais beneficiado pelo projeto da Adutora do Leite, principalmente Santa Rosa do Ermírio. A estrutura deverá levar água bruta do Rio São Francisco para a região e atender criadores de cinco municípios do Alto Sertão.

A obra ainda está na fase de estudos e projetos. Portanto, não há confirmação oficial de que a construção física tenha começado. O Governo prevê a implantação da adutora como uma das principais ações de segurança hídrica para a cadeia leiteira.

Enquanto a obra não chega, o Estado vem recorrendo a medidas emergenciais. Segundo a Coderse, desde o início de 2025 já foram preparadas 103 aguadas em Poço Redondo, incluindo sete de médio porte, para ampliar a capacidade de armazenamento de água para as propriedades rurais.

El Niño já está instalado

A meteorologista Wanda Tathyana de Castro Silva, da Secretaria de Estado do Meio Ambiente, Sustentabilidade e Ações Climáticas (Semac), explica que as chuvas ficaram abaixo da média ainda durante a transição para o El Niño e que o fenômeno já está instalado.

Meteorologista Wanda Tathyana:  chuvas ficaram abaixo da média Foto: Ascom/Semac

Segundo ela, o comportamento do Oceano Atlântico pode amenizar os efeitos do fenômeno em Sergipe. “Se o Atlântico estiver aquecido, mesmo o El Niño atuando, favorece a chegada de sistemas meteorológicos e chuvas aqui no Estado, minimizando os impactos desse fenômeno”, explica Wanda.

A ressalva é importante porque a meteorologista diferencia o período em que ocorreram as perdas nas lavouras da instalação efetiva do El Niño. Segundo ela, as chuvas de maio ficaram muito abaixo da média esperada: eram previstos entre 300 e 350 milímetros, mas foram registrados cerca de 180 milímetros.

Poço Redondo é o maior produtor de leite de Sergipe

Os números oficiais mostram por que uma crise na alimentação do rebanho de Santa Rosa do Ermírio tem potencial para produzir efeitos econômicos muito além das propriedades rurais. A Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) 2024, do IBGE, mostra que Poço Redondo produziu 121 milhões de litros de leite em 2024, com valor de produção de R$ 283,5 milhões. O município ficou entre os 20 maiores produtores de leite do Brasil.

Poço Redondo, Porto da Folha e Nossa Senhora da Glória produziram juntos 316 milhões de litros, quase metade dos 678,5 milhões de litros produzidos em Sergipe em 2024. Além do volume, Poço Redondo se destaca pela produtividade. Dados da Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe (Emdagro), vinculada à Seagri, apontam média de 3.960 litros por vaca por ano, contra 2.336 litros em Sergipe e 1.343 litros na média brasileira. A produtividade do município é, portanto, quase três vezes superior à nacional.

Santa Rosa do Ermírio é o principal polo produtor de leite de Poço Redondo. O Governo de Sergipe também informa que o leite é a principal fonte de renda de 90% das famílias do povoado, o que amplia a dimensão econômica da atividade. O plantel da região está entre 20 mil e 25 mil vacas leiteiras.

O leite produzido nas propriedades é destinado principalmente a grandes empresas do setor, entre elas Piracanjuba, Nativille, Ouro Bom e Natulact.

Mais custo para produzir leite

A combinação de falta de silagem e escassez de água altera a estrutura de custos das propriedades. O produtor que normalmente produz parte do alimento dentro da própria fazenda agora precisa comprar silagem de outros municípios, pagar pelo transporte e adquirir água para manter o rebanho.

Para Odair, esse aumento de custos ocorre justamente quando existe o risco de queda na produção. Ele estima que, se a estiagem persistir e os efeitos do El Niño forem intensos, a produção de leite poderá recuar até 20%. A preocupação não é apenas com a próxima safra de milho, mas com a capacidade de manter os animais alimentados e hidratados durante os próximos meses.

Uma cadeia que movimenta milhões

O impacto ultrapassa as propriedades. A cadeia leiteira envolve produtores, trabalhadores, transportadores, fornecedores de ração, comércio e indústrias de beneficiamento.

Poço Redondo movimentou R$ 283,5 milhões com a produção de leite em 2024. Uma redução significativa da produção representa perda potencial de receita para os produtores e menor circulação de dinheiro em toda a cadeia. Enquanto buscam crédito, água e silagem, os produtores de Santa Rosa do Ermírio tentam atravessar o período seco sem reduzir os rebanhos.

A próxima reunião com o secretário de Agricultura será mais uma tentativa de encontrar soluções emergenciais. Para Odair, a prioridade é garantir alimento e água suficientes para manter os animais e preservar a produção.

Em uma das principais regiões leiteiras de Sergipe, a seca já deixou de ser apenas uma preocupação climática. Virou uma questão de custo, renda e sobrevivência econômica das propriedades.

 

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Antônio Carlos Garcia

CEO do Só Sergipe

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