Outras palavras

Ainda estou aqui, there and everywhere

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Por  Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

C om raiva e lágrimas. Assim saí da sessão do filme “Ainda Estou aqui”. Como pai de família, me coloquei no lugar de Eunice e de seus filhos com Rubens Paiva (1929-1971): Vera, Eliana, Ana Lúcia, Maria Beatriz e Marcelo. Seus dramas, a dor da ausência, as dificuldades para seguirem em frente, as injustiças e a falta de respostas e de um corpo para velar, portanto, um luto inconcluso, uma ferida sempre aberta. Enfim, algumas de uma série de sequelas das atrocidades de um regime de governo as quais não se pode passar a mão, esquecer e sequer anistiar, nem de ontem e nem tão pouco do passado recente.

Embalado por grandes sucessos da Música Popular Brasileira, o filme “Ainda Estou aqui” (2024), de Walter Sales, é, sem sombras de dúvidas, um dos maiores do cinema nacional de todos os tempos. Se não alcançar os loiros do Oscar (a meu ver, mais do que merecedor), para além dos recordes de crítica e de bilheteria, ficará imortalizado na memória, geração após geração, deixando um legado importante e reflexões que, certamente, farão diferença na formação da consciência de uma juventude ainda ávida por transformações, liberdade e respeito.

Afinal, “É preciso [SEMPRE] dar um jeito, meu amigo” (Erasmo e Roberto, 1971), canção-tema do filme. Ainda há fumaça de satanás fungando em nosso cangote: aqui, ali e acolá. “Ainda estou aqui” nos lembra isso: que os fantasmas da ditadura militar (1964-1985) não foram devidamente despachados para o inferno. Generais, capitães e soldados (civis, também) ainda sonham com o poder, subvertendo a democracia, pervertendo-a com um nacionalismo caduco, enodoando a verdade com relativismos de uma retórica rasa e com uma massa encefálica doente e burra.

“Ainda estou aqui” é um filme adaptado do romance autobiográfico e histórico, homônimo, de autoria de Marcelo Rubens Paiva, lançado pela editora Alfaguara, em 2015. Estrelam a película um trio de atores extraordinários: Fernanda Torres (Eunice mais jovem), Fernanda Montenegro (Eunice idosa) e Selton Mello (Rubens Paiva). Ambientado entre o Rio de Janeiro e São Paulo no final dos anos 1970 e início de 1971, conta a história da família do ex-deputado e engenheiro civil, Rubens Beyrodt Paiva, às voltas com sua prisão pelos agentes da ditadura e seu “misterioso” desaparecimento, anos depois, confirmado na forma de tortura e assassinato. O filme retrata ainda dois outros tempos: 1996, quando Rubens teve sua certidão de óbito concedida pela justiça; e, 2014, quando do ocaso da advogada Maria Lucrécia Eunice Facciolla Paiva (1929), falecida em 2018, em decorrência das complicações do Alzheimer, que a maltratou por quinze anos.

O filme, por fim, nos ajuda a pensar e a repensar essa questão da anistia no país. Se por um lado a Lei de Anistia de 1979 concedeu o perdão político para figuras como Gabeira, Henfil e Miguel Arraes, permitindo que eles, uma vez exilados, retornassem ao Brasil, tendo se apresentado como “ampla, geral e irrestrita”, também passou panos quentes em torturadores e agentes do regime que ficaram impunes. Nesse sentido, muito significativa foi a fala do ministro Flávio Dino desta semana, no sentido de propor que a Lei da Anistia não valha para casos que tenha havido a ocultação de cadáver, “desaparecidos” para a ditadura militar:

“Manifesto-me no sentido de reconhecer o caráter constitucional e a repercussão geral do seguinte tema: possibilidade, ou não, de reconhecimento de anistia a crime de ocultação de cadáver (crime permanente), cujo início da execução ocorreu antes da vigência da Lei da Anistia, mas continuou de modo ininterrupto a ser executado após a sua vigência, à luz da Emenda Constitucional 26/85 e da Lei nº. 6.683/79”.

O fato é que a impunidade não pode mais reinar nos livros, nos tribunais e na História do Brasil. Quem tem com o quê pagar, que não morra devendo! Afora o direito à presunção de inocência, também o peso da lei e da justiça. As lições de um tempo não se apagam e as feridas não fecham. Aos que ainda morrem de saudades dos tempos de chumbo (zumbis de um lixo chamado ditadura militar), meu mais veemente protesto e indignação. Qualquer tipo de regime autoritário, sobretudo o impingido pela ditadura militar, é um veneno para a alma brasileira e um desserviço para a história da humanidade.

 

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Claudefranklin Monteiro

Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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