Lá Vem História

“A vida não nos pertence, somos só visitantes neste mundo”

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Por Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

 

Na semana passada retornei de viagem. Passei dias longe do meu cotidiano. Sempre que posso, me ausento, na busca de coisas novas. Gosto de flanar, sem lenço e documento, em algum canto desconhecido. Sair da rotina, ser viajante, transeunte, giramundo em terras estrangeiras.

Desembarquei em uma madrugada chuvosa. Dormi exausto: cansado de voos longos, conexões rápidas, poltronas apertadas e desconfortáveis.

Acordei e vi mensagens comunicando o falecimento de uma prima querida. Educada, discreta, com uma vida de grandes realizações, Franciângela Viana Silva partiu cedo, aos 58 anos. Havíamos marcado um novo café, já que tínhamos o hábito e gosto de bebermos bons cafés. Nosso café, tantas vezes adiado, se perdeu no cipoal do tempo.

O tempo parou num clique de câmera, congelou a alegria, e a saudade veio depois, como sempre vem, em silêncio e com atraso. O sorriso que brilhou num instante eterno tornou-se eco de um tempo irrecuperável, e é justamente nesse eco, onde vibra o indizível da memória, que habita a dor mais silenciosa e mais civilizada: a saudade. Não a saudade sentimental dos espíritos frágeis, mas lembranças metafísicas de quem compreende, com alguma crueldade interior, que o passado não é apenas aquilo que foi, mas aquilo que nunca mais poderá ser.

Vivo e sobrevivo num tempo em que tudo parece escapar, mesmo quando é capturado. O momento, tal qual uma fotografia, em sua aparência de eternidade, nada mais é do que a moldura do efêmero, a tatuagem luminosa de um instante já consumido.

No domingo fui visitar, em um leito de UTI, um querido mestre dos bancos escolares da faculdade de Agronomia. Mestre João Batista Braga brigava pela vida. Ao acordar no dia seguinte, soube que ele fizera a passagem. Por diversas vezes marquei de visitá-lo, em sua casa no Cutim. Ficamos de tomar um vinho, jogar conversa fora, relembrar o passado. Homem decente, elegante no trato, discreto, fala mansa, era um ótimo papo.

Tive o privilégio de conviver duas vezes com mestre Braga: como seu aluno e como colegas de profissão no INCRA. Culto, um cabedal de conhecimento, tínhamos sempre bons assuntos para discorrer. Nossas últimas conversas foram sobre minhas andanças pelo mundo.

“A vida não nos pertence, não, somos só visitantes neste mundo, hoje estamos aqui, amanhã ninguém sabe. Vivemos como donos da estrada, como reis sentados na varanda, fazemos planos para cem anos, sem saber se amanhã ainda acordamos. Decoramos casa emprestada, pintamos sonhos na madrugada, mas o tempo passa sem pedir licença e leva tudo sem dar sentença. A juventude vai embora devagar, a saúde um dia pode falhar, os amigos mudam e o amor também, só Deus conhece o destino de alguém. Quando a vida bater na porta, não há dinheiro que encontre a resposta, fama, luxo ou posição para impedir a despedida do coração. A vida é casa alugada, nós somos só inquilinos. Hoje brindamos sorrindo, amanhã seguimos outro caminho. Entrega a chave, meu irmão, nada que cabe na mão, tudo passa nesse mundo, só o amor deixa lembrança no coração”, ouvi essa canção na internet, que mostra bem que não somos, apenas estamos… de passagem.

“Sou pó de estrada e bruma de ampulheta, um sino antigo em trânsito e cansaço, que leva o próprio adeus dentro do passo. Trago nos olhos húmus de profeta e um elixir de eras sobre a pressa. Cada relógio é só ferrugem quieta.  E o tempo não passa: me atravessa!”, cito o poema “Passageiro do tempo”, de Rinaldo Nunes.

No intervalo de três dias perdi duas pessoas queridas, mostrando que a vida não avisa quando vamos embora. Deixei de tomar café com Franciângela e um vinho com João Braga. Restaram memórias e saudades.

 

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Luiz Thadeu Nunes

Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”. E-mail: luiz.thadeu@uol.com.br

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