Luiz Thadeu e João Pedro, na festa em comemoração aos 75 anos do Jornal Pequeno: uma amizade construída ao longo da vida, agora eternizada pelas lembranças e pela saudade
Por Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)
Manhã de sexta-feira, 03 de julho, chegamos ao segundo tempo de 2026. A vida segue seu curso no varal do tempo, sem se importar conosco.
Acordo. Vejo as primeiras mensagens do dia. “Nota de falecimento”, diz a mensagem falando da passagem, horas antes, de João Pedro de Oliveira Souza Aragão, ocorrida nos primeiros instantes do dia que começará.
No sábado anterior, no começo da noite, João me ligou dizendo que estava internado. Muito abalado. Conversamos um pouco e disse-lhe, o que repetia sempre: não será desta vez que vais partir. Já atravessaste tantos desertos, esse é apenas mais um.
Como de costume, no início da manhã, enviei mensagem perguntando como estava. Não obtive mais resposta. A resposta veio hoje, com a comunicação de sua partida.
João e eu sempre fomos próximos. Temos um ano de diferença de idade. Desde cedo nos conectamos. Frequentei a casa dele, na rua dos Afogados 497, centro da cidade, desde cedo. A casa de tio Zeca Loirinho, como era chamado seu pai, foi espaço de acolhimento. Lá morou minha mãe, tios, hóspedes de diferentes matizes.
Vi-o com toda sua empolgação chefiar o pelotão de honra do Colégio Maristas nos desfiles de Sete de Setembro, pelas ruas do centro de São Luís.
Estava ao seu lado no primeiro dia em que saiu de casa, empolgado e vibrando, para dar a primeira aula no Maristas, quando ainda não havia passado no vestibular para Direito. Acompanhei suas aulas de reforço em Química, na garagem de casa, para os seus alunos. A lousa — acho que hoje tem outro nome —, ficava toda coberta, com giz de diferentes cores. Algo que aprendeu com Márcio Ribeiro, dono do Meng. Por falar em Márcio, foi graças a João que consegui uma bolsa de estudos no cursinho Meng, quando não passei no primeiro vestibular para Agronomia.
Lembro de seu seleto grupo de amigos: Ramos, Walter, Talvane, Pinho, com inúmeras histórias/estórias hilárias. Do amor e devoção de dindinha Yayá por ele. Da admiração de Francisco de Assis Aragão Nunes, seu primo-irmão, que certamente o acolheu hoje. Devem ter muitas coisas para passarem em revista.
As festas no Jaguarema, em que eu não era sócio e ele, sempre sagaz, me colocava para dentro. Da banda de rock em que era o guitarrista.
Das eternas adivinhações, em que provocava crianças e adultos: o que é o que é? Com respostas simples e engraçadas. Rodrigo e Frederico, meus filhos, riam muito com tio João Pedro.
Do professor de Química que sabia como ninguém esmiuçar a Tabela Periódica com seus 118 elementos químicos: 92 encontrados na natureza e 26 produzidos artificialmente em laboratório. Essa informação pesquisei no Google, não tenho o privilégio da memória de João.
Por falar em memória, era algo abissal e admirável sua capacidade de armazenar informações.
Em uma de nossas últimas conversas, falei algo em que citei Sotero dos Reis. Foi o bastante para que me desse uma aula sobre Francisco Sotero dos Reis, nascido em São Luís, a 22 de abril de 1800, e falecido na mesma cidade, a 10 de março de 1871. Figura da maior projeção no Grupo Maranhense, o Sotero dos Reis gramático e filólogo, já foi apontado, com justo acerto, como o mestre dos mestres dentre os que se ocupam em definir as leis e regras da difícil arte de escrever. Parlamentar, publicista, poeta, e, sobretudo, professor e filólogo.
Qualquer assunto que abordava com ele, aprofundava, dava aula. Eu absorvia, atentamente, cada nova informação. Perdi uma enciclopédia. Há um provérbio africano que diz que “quando morre um sábio, acaba uma biblioteca”. Quanta sabedoria armazenada em uma cabeça privilegiada.
O ano era 1980, quando veio João me pedir para assinar a ficha de inscrição de um partido que estava nascendo nacionalmente. Vizinho de Freitas Diniz, então deputado federal pelo PT, João se filiou ao partido, eu junto. Saiu até candidato a deputado estadual pelo PT. Uma das melhores histórias que ele contava era sobre uma vez que o então desconhecido Luís Inácio da Silva, o Lula, em visita a São Luís, lhe pediu papel higiênico, em uma emergência.
Por causa de João Pedro dei aulas de Química para um seleto grupo de alunos seus. Sabia bem menos que os alunos, mas deu tudo certo. Das aulas saí com alguns trocados no bolso, tão necessários em tempo de escassez monetária.
As mulheres foram um território que dominou com maestria. Com lindos olhos azuis, herança materna, e bom de prosa era mamão com açúcar ganhar as moças. Como Giacomo Casanova, foi grande sedutor. Conheci duas centenas de namoradas. Com um coração latifundiário, sempre cabia mais uma, especialmente as mais jovens.
Atualmente bato ponto na SETUR, no centro histórico da Ilha do Amor, era comum João chegar com uma nova acompanhante para apresentar-me.
Enquanto escrevo, rebobino a memória para organizar a emoção. Nosso último encontro foi na festa em comemoração aos 75 anos do Jornal Pequeno. João estava acompanhado de Sofie, filha e amor de sua vida. Metade do salão do hotel Blue Tree, local da festa, tinha sido sua aluna.
Mesmo sabendo que vamos partir, não estamos prontos para despedidas.
A vida é só casa alugada. “A vida não nos pertence não, somos só visitantes nesse mundo. Hoje estamos aqui, ninguém sabe. Nós vivemos como o dono da estrada. Como o rei sentado na varanda, fazemos planos pra 100 anos, sem saber se amanhã ainda acordamos”, diz a letra de uma linda canção.
Com a partida de João Pedro, perco um confidente, um bom papo, um grande observador do seu entorno, um leitor contumaz, um amigo. Em todos os eventos em que fui homenageado, João estava presente. Como um biógrafo fazia questão de falar de minha trajetória. Não receberei suas mensagens e nem seus telefonemas, sempre com urgência, querendo narrar algo novo.
O vazio que sinto agora será preenchido pelas memórias que tive o privilégio de viver e vivenciar. Quantas lembranças. Somos feitos de memórias e recordações. Agora que o amor atende pelo nome de saudade, é tempo de agradecer a presença física de João Pedro Oliveira Souza Aragão. Queridos amigos, irmãos e familiares, João deixou de viver entre nós para viver em nós.
No sábado, em nossa última conversa, João me disse: “Não esquece de escrever minha crônica”. Dói em mim cada palavra digitada. Deixaste tantas histórias maravilhosas, que sempre serás citado. Só morre quem não é lembrado.
Tua partida me empobrece.
Obrigado, querido João.
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