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Por Tácio Brito (*)

 

Há uma parcela da minha vida, uma parcela importante dela, à qual me dediquei a projetos diversos. Sendo uma pessoa de interesses multíplices sempre empenhei minha energia em tornar verdadeiras minhas aspirações de mundo. Entretanto, como tudo no mundo, invariavelmente nos encontramos com pessoas que, embebidas da vaidade e da bajulação, se interpõem contra os criadores e frutificadores, a estes dedico este texto, uma exploração da natureza da vaidade humana e sua consequente solidão.

Existe uma fome na alma humana, um pavor primordial que sussurra em nossos momentos de silêncio: o medo de sermos, em última análise, insignificantes. No grande vácuo que se estende entre o nascimento e a morte, somos confrontados com a tarefa titânica de construir um significado, de tecer uma narrativa que justifique nossa breve e quase imperceptível passagem pela existência no teatro do universo. Este é o trabalho mais árduo, a verdadeira poiesis da vida.

E muitos de nós, aterrorizados pela magnitude desta tela em branco que se ergue diante de nossos olhos, fogem.

Fogem em vez de se engajarem na difícil alquimia de forjar um valor interno. É o processo que exige vulnerabilidade, fracasso e a aceitação da própria imperfeição. Se voltam para uma miragem que, à primeira vista, é mais fácil e sedutora: a vaidade. E junto dela, como um encosto, a busca incessante pelo micropoder.

“Vanitas vanitatum, dixit Ecclesiastes, vanitas vanitatum, omnia vanitas”. Eclesiastes 1:2

É um fenômeno que observamos em toda parte, a metástase silenciosa que adoece nossas organizações, nossas comunidades, nossas empresas. Pessoas que, movidas por uma insegurança profunda ou por um vazio existencial que não ousam nomear, se embebem na vaidade dos títulos, das medalhas, dos “penduricalhos”. Elas não buscam a substância; buscam os símbolos. E para dar a esses símbolos um peso que eles não possuem, elas constroem para si um reino.

É o Principado do Vazio.

O monarca deste principado não governa um território vasto, mas um feudo minúsculo: a comissão de um projeto, a moderação de um grupo online, a gerência de um pequeno departamento, a presidência de uma instituição… Sua coroa não é de ouro, mas de papel timbrado. Seu cetro é o título pomposo, o jargão corporativo, a regra obscura do manual que só ele conhece. Seu poder não reside em criar, em inspirar ou em facilitar, mas em regular, em limitar, em controlar. Ele é o carcereiro do portão, e sua maior alegria é a de poder dizer “não”.

Retrato de Luis XIV da França de Hyacinthe Rigaud

Ele se veste com o uniforme da importância, uma indumentária pesada, não com as insígnias de batalhas vencidas, mas com as medalhas de reuniões comparecidas, de e-mails respondidos com cópia para a diretoria, de procedimentos zelosamente aplicados, de papéis com sua assinatura. Cada “penduricalho” é um testemunho não de sua contribuição valiosa, mas de sua presença passiva, de sua antiguidade, de sua maestria sobre a burocracia.

“O desejo de estar no Círculo Íntimo lubrifica todo o mecanismo do mundo. (…) Enquanto você não fizer parte dele, desejará entrar. Mas uma vez que você entre, descobrirá que há um círculo ainda mais íntimo, mais secreto, mais autêntico. Você passará a vida toda se esforçando para entrar, descobrindo que cada novo círculo é apenas uma casca vazia, e você morrerá de sede no limiar da fonte que acreditava estar lá dentro.” C.S. Lewis em seu livro “O Peso da Glória”

E é aqui que a tragédia dessa dança se desvela. As organizações e comunidades não são máquinas; são ecossistemas vivos. Elas precisam de jardineiros: pessoas apaixonadas, criativas, que desejam plantar, cultivar, ver as coisas florescerem. Mas o monarca do Principado do Vazio, do alto de sua arrogância e inveja da vitalidade do outro, não é um jardineiro. Ele é um carcereiro, um vigia como o da Torre. E ele vê cada nova semente, cada ideia que não partiu dele, não como uma promessa de vida, mas como uma ameaça à sua torpe e tola soberania.

O jardineiro chega com as mãos cheias de terra e entusiasmo, e se depara com o carcereiro, que lhe exige o preenchimento de um formulário em três vias para o uso do regador. O inovador propõe um novo caminho, e o ímpio o informa de que o comitê para a avaliação de novos caminhos só se reúne na terceira quinta-feira de meses ímpares. A pessoa de talento, que busca realizar, se vê enredada em uma teia de micro-agressões, de informações sonegadas, de aprovações adiadas, tudo orquestrado para reafirmar quem detém o controle do portão.

E então, as boas pessoas partem. Não com um estrondo, mas com um suspiro de exaustão. Os jardineiros não lutam contra os carcereiros; eles simplesmente procuram um solo mais fértil. E o que resta no Principado do Vazio é um silêncio cadavérico da vaidade, asséptico, sem vida. A organização, antes um ecossistema vibrante, se transforma em um mausoléu de procedimentos. O monarca, enfim, venceu. Ele expurgou todos os que desafiavam sua ilusória autoridade, todos os que ousavam criar sem sua permissão. Ele agora reina, absoluto e inconteste, sobre um reino de ecos.

E esta é, senão a mais dura ironia. Na sua busca desesperada por se sentir importante, o monarca do micropoder se esvazia de toda a importância real. Ele sacrifica a vitalidade do todo pela validação de sua máscara. E no final, ele se senta em seu trono, em uma sala perfeitamente ordenada e absolutamente morta, polindo seus títulos, ajustando seus penduricalhos, o soberano inconteste de um reino que já não tem mais súditos. Apenas a sua própria e retumbante insignificância.

Mas a história não precisa terminar com o triunfo do vazio, nem com a partida silenciosa de todos os jardineiros. A Narrativa Simpoiética nos ensina que, mesmo no coração da burocracia, a capacidade de forjar significado e de escolher o que realmente vale a pena reside em cada um de nós.

O verdadeiro valor não está nos títulos que ostentamos, mas nas conexões que cultivamos. Não está nas medalhas, mas nas sementes que plantamos. O que realmente importa é a Confluência Narrativa: a capacidade de entrelaçar a nossa história com a de outros, criando algo maior, mais resiliente, mais belo.

Diante de um solo infértil, governado por um Principado do Vazio, a escolha que se apresenta é profundamente pessoal, e depende inteiramente dos valores que você carrega em si, do que considera genuinamente valioso.

“Semeador em Arles” de Vincent van Gogh

Pois há aqueles cuja integridade se manifesta na resiliência do reformador. São os que, com uma paciência louvável, decidem ficar e adubar o solo árido, acreditando que mesmo a terra mais dura pode ser amaciada. Eles são a prova de que a mudança, por vezes, nasce da persistência teimosa, da pequena flor que insiste em brotar no concreto.

Mas há também aqueles cuja integridade não permite que se demorem em um ambiente que lhes é hostil ou que os põe em crise constante. São os pioneiros, os que entendem que sua energia mais preciosa deve ser investida não em lutar contra a seca, mas em encontrar um novo campo para cultivar. A escolha de buscar solos mais férteis não é um ato de desistência, mas um ato de sabedoria, é o reconhecimento de que seu propósito é frutificar.

“Campo de Trigo Verde com Ciprestes” de Vincent van Gogh

Ambos os caminhos são válidos. Ambos contribuem para o florescer do mundo. A escolha entre ser o que restaura o velho jardim ou o que funda o novo depende de uma única coisa: a honestidade com o seu próprio Codex Vitae.

A resposta para o vazio não está em preenchê-lo com símbolos, mas em nutri-lo com substância. E a forma como escolhemos fazer isso — seja transformando o deserto em um oásis ou levando nossas sementes para um vale desconhecido — é o que define a verdadeira riqueza de nossa jornada.

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Tacio Brito

Tácio Brito é empresário, consultor de cultura e inteligência artificial, polímata

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