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Por Luciano Correia (*)

 

Nossa classe média é a melhor encarnação daquele ditado que dizia: “Calça de veludo, ou bunda de fora”. Há muito que os governos, de direita ou esquerda, empreendem medidas que só aumentam o arrocho contra essa outrora garbosa categoria. Hoje ela vive espremida por um orçamento que não cabe no salário, mas, para seguir a tradição de uma gente de nariz empinado, mantém a pose como se fossem filhos da nobreza. De certo mesmo é sua capacidade de furar filas, arrumar jeitinhos bem brasileiros e praticar a indecorosa Lei de Gerson: o importante é levar vantagem.

Para essa classe média, experta, pela esperteza, em furar os bloqueios da administração pública para traficar seus interesses, algumas mudanças reais não significam nada, sobretudo se o bolso aliviado não for o seu. A isenção do desconto de Imposto de Renda na faixa que vai até 5 mil reais de salário é um exemplo. A classe média da qual tratamos aqui não faz parte dessa massa, portanto, está fora do alcance do benefício.

Mas o grosso da população assalariada sabe a delícia que representa esse pequeno alívio, de 200 ou 300 pilas por mês, uma festa no orçamento de um povo pobre.

Há dias vi o depoimento de uma mulher dizendo das facilidades para tirar a habilitação para dirigir veículos. Num país cartorialmente escroto, pelo menos essa raspinha de dignidade o governo Lula pôde propiciar, um governo de centro com ligeiras tintas de esquerda. A elite brasileira, totalmente cartorial, e hoje estreando no negócio das drogas, não permite mais que uma raspinha aqui ou acolá. Na verdade, a antiga regra para a habilitação de motoristas era exercida por máfias organizadas, que iam dos mentirosos exames médicos ao teste prático de habilitação: tudo fake. Fábrica de dinheiro sob o comando dos Detrans estaduais, esses antros de corrupção tão genuinamente brasileiros, uma corrupção tão velha como a posição de fazer o número 2.

A fala da moça me impressionou pela simplicidade para resumir a questão: com um decreto governamental, uma antiga safadeza é retirada do cardápio nacional de safadezas historicamente entranhadas no fabulário geral de nossas safadezas normalizadas. É pouco ainda, mas é importante, porque é dessa matéria que vivem as pequenas transformações do cotidiano, as coisas que realmente importam. Sim, importam porque se referem à vida prática e real das pessoas. O resto é peroração pseudoideológica, como essa palhaçada em torno das sandálias Havaianas, hoje o tema principal do programa teórico do Psol e outros quejandos da esquerda identitária.

Que novas pequenas causas venham no horizonte próximo e se transformem em novas bandeiras de ganhos e conquistas. Uma a uma, melhorando efetivamente a vida dos que mais precisam. Que comecem a reduzir a vergonha da pior distribuição de renda do mundo. Isso não virá nunca da esquerdinha identitária nem da direita troglodita, com suas políticas parlamentares semelhantes, apenas com sinal trocado. São iguais em desgraças. Como disse alguém outro dia, o parlamento brasileiro é uma casa de negócios tocada por 513 empreendedores, cuja diferença entre si é basicamente a cor das camisetas que usam nos rolês dos fins de semana.

 

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Luciano Correia

Jornalista e professor da Universidade Federal de Sergipe

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