Mídia, Cultura e Ebulições

Não é fácil, nem difícil, muito pelo contrário

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Por Luciano Correia (*)

 

Os vencedores despertam sentimentos múltiplos. Quando se trata de branco, geralmente bem nascido, alguns com sobrenomes europeus, altos, bonitos e glamurosos, o sentimento vai da admiração até a chamada inveja positiva. Essa última deriva de uma pontinha de ressentimento ante o sucesso alheio: por que não comigo?

Quando o vitorioso não corresponde exatamente a esse modelo, acrescente-se outros temperos: a inveja pura e simples, sem adjetivações, raiva, agouro ou injúria. Na semana passada, em Itabaiana, tivemos um caso digno de divã de psicanalista, não pelo personagem que vai entrar em cena no próximo parágrafo, mas pelos que o denegriram, invejaram e ironizaram de variadas formas.

Zequinha da Cenoura é um típico comerciante itabaianense, batalhador e vitorioso no que se propôs na vida. Na matéria cenoura, fosse ele um desses pedantes novos ricos, já teria providenciado um título nobiliárquico para seu negócio, tipo: O Rei da Cenoura. Mas o comedido Zequinha não é afeito a salamaleques desses que antes infestavam colunas sociais e hoje fazem a pauta da vida mundana das redes sociais. O certo é que trata-se, pois, de um vencedor. De modos muito simplórios, acanhado no jeito e nas formas, é o que nós interioranos chamamos de um tabaréu que se deu bem na vida trabalhando, trabalhando e trabalhando mais. Sobre ele não pesa uma única acusação de malfeitos.

Como filho legítimo da cultura de Itabaiana-Grande, fala aquele idioma, quase dialeto, que inclui, por exemplo, pronunciar “fáce” em vez de fácil e “difíce” em lugar de difícil. Itabaiana é uma inesgotável fonte de expressões muito típicas, locais, algumas inclusive atravessaram fronteiras. O batido “fi do canso” é só um exemplo, dos menos notáveis entre tantos numa cidade que é rica de histórias, personagens e modos de ver e expressar a vida. Por uma conjectura da política, Zequinha se tornou o prefeito de fato e de direito dessa Babilônia serrana após renúncia do titular do cargo, Valmir de Francisquinho, candidato ao governo do Estado em outubro próximo.

No curtíssimo discurso de posse, menos de cinco minutos, disse que a missão de comandar a partir de agora os destinos dessa locomotiva que move a economia do estado não será fácil, mas, também, não será tão difícil. Pronto. Foi o estopim para acionar o gatilho de inteligências preguiçosas, quase todas entretidas no ramerrão estéril das redes, para esquadrinhar, letra por letra, a primeira fala do novo prefeito serrano. Foi um deus-nos-acuda de estrepitosas gargalhadas, ouvidas do bar do meu amigo Camilo a um endereço elegante da avenida Adélia Franco. Quá-quá-quá!!! Mas que coisa engraçada! Quer dizer que o que não é fácil também não é difícil? Fez-se o festim dos homens cultos dos palácios e da militância virtual.

Não que a burrice deva deixar de ser cogitada, pelo que conheço dos críticos postos em plantão, à falta do que fazer. O mais provável mesmo é o velho e rançoso choro de perdedores, gente que simplesmente patina na vida no seu mar de mediocridade e irrelevância. Como pode o anônimo Zequinha das Cenouras, pequenininho, acanhado nos modos e curto nas palavras, se tornar prefeito de uma cidade que é pujante na história, cultura e economia sergipanas? E ainda mais um vencedor, alguém que deu certo na vida, com o agravante de não ter nenhum agravante contra sua moral de homem de família, correto e honesto? É muito para o circo das igrejinhas ociosas que sujam o espaço público das redes e mídias com o cocô de suas mentes alugadas por compradores oficiais.

Mais do que a expressão do preconceito, tratou-se de uma missa encomendada por endereços conhecidos. Todos entenderam o que o modesto Zequinha quis dizer ao se referir ao novo desafio na gestão pública. Sergipe é pequeno, pequenininho, e não estamos dando um mote para fazer versos com a suposta grandeza do estado. A Itabaiana de Zequinha ostenta números grandiosos na sua economia privada, traduzidos num padrão de vida muito superior à media dos sergipanos, nos seus carros de luxo e na arquitetura moderníssima do bairro Chiara Lubich, onde estão algumas das mais belas casas do estado.

O êxito dos empreendedores serranos é completado, pelo menos nos últimos anos, pelas gestões transformadoras do prefeito Valmir, que soube aproveitar a energia criativa dos seus moradores para mudar os índices da saúde, educação e das políticas sociais, além de um portentoso volume de obras que vai da cidade aos povoados. Já o estado, em cuja capital se encontram os detratores caracterizados acima, é um cortejo ladeira abaixo, com os piores índices da educação, uma saúde representada pela falência do Ipes Saúde, estradas esburacadas e torneiras vazias. Aqui só prospera a vida fácil das festas públicas e seus cachês milionários. De fato, para os bobos dessa corte triste, não dá pra chorar com essa tragédia. Só resta à jagunçagem elegante e culta do jornalismo aracajuano rir com a simplicidade verdadeira do autêntico Zequinha.

 

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Luciano Correia

Jornalista e professor da Universidade Federal de Sergipe

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