O que esperar do Congresso Nacional Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados
Por Valtênio Paes de Oliveira (*)
O segundo turno da eleição presidencial brasileira se apresenta como imprevisível e, inusitadamente, numa encruzilhada. De um lado, um candidato sem qualquer experiência de gestão pública, sobrecarregado de denúncias terríveis de proximidade com o mundo do crime e de corrupção. Do outro lado, um candidato com histórico de realizações, voltadas para a população pobre, condenado e absolvido, mas também com forte apoio ao capital privado. Basta relacionar os benefícios sociais e os incentivos fiscais entregues aos empresários. No entanto, sem capacidade de reinventar o discurso na época das redes digitais.
No primeiro turno, a eleição para o Legislativo comprovou o voto odiento e reverso dos brasileiros. Um Congresso conservador que vai submeter o presidente eleito sem ressalvas. Assim, benefícios sociais, tolerância, respeito aos direitos das mulheres, dos mais pobres, à saúde, ao interesse coletivo e ao Estado Democrático de Direito, dentre tantos, previstos no artigo 5º da Constituição Brasileira, poderão ser esquecidos.
Com a grande maioria eleita de tendências exageradamente conservadoras e até repressoras, teremos conquistas sociais reduzidas e até extintas. Universidades públicas, direitos sociais, saúde, funcionários públicos, cultura e pautas ambientais terão seus espaços pormenorizados ou até extintos. Esta é a lógica se os discursos se confirmarem.
No segundo turno, em 25/10/26, o presidente eleito será vassalo do Congresso exageradamente conservador. Alguns membros até odientos. Curiosamente, candidatos que defendiam submissão das mulheres, rejeição de pautas ambientais, repressão violenta, praticantes de aliança com o crime organizado, chegarão ao poder eleitos para cargos de deputados federais e senadores em 1º de fevereiro de 2027.
Segundo o UOL de 08/10/26, sessenta e nove parlamentares, eleitos na última eleição para o Senado e a Câmara Federal, já chegam sob investigação por crimes de desvio de dinheiro público, corrupção, fraude em licitação e crimes ambientais. Por outro lado, qualquer presidente eleito que venha a pretender governar com ética fundada no coletivo, na defesa da saúde, da segurança e da educação para todos, será refém deste novo Congresso, majoritariamente conservador, com membros odientos e reversos ao bem comum.
O que explica pessoas que pregam o ódio, a violência e a submissão, o preconceito e o individualismo repressor serem eleitas para o Congresso brasileiro em outubro de 2026? Por que tais condutas passaram a ser aceitas e praticadas com vigor no Brasil e no mundo? O vírus do ódio e da violência, de vários matizes, cresceu exponencialmente. Até a própria pessoa sente prazer em contaminar-se. Produz vídeos e se elege. Narcisistas tornam-se influencers. O que leva votantes a colocarem nas urnas candidatos que defendem propostas contrárias aos seus próprios valores? Momentos difíceis virão, qualquer que seja o resultado do segundo turno da eleição presidencial.
O deputado federal mais votado da história do estado de São Paulo, com uma pauta ao redor da transfobia, e a deputada estadual mais votada pelos paulistas ganharam força nas redes pelo discurso antifeminista. No Google Trends, Pavanato conseguiu aumento de 900% em buscas pelo seu nome nos dias antecedentes à votação. Eduarda teve cinco mil por cento a mais, no mesmo período. O que explica isso? Dentre estes destaques, um deles combatia, nas redes digitais, benefícios sociais que sua genitora recebe há oito anos.
Acessar vídeos tornou-se videodependência. Horas diárias excessivas na frente da tela tornaram-se doença, também com efeitos eleitoreiros. Os maiores destaques de novos eleitos foram originários de redes digitais. Eleitores passaram a idolatrar influencers. Já ouvi um senhor dizer que “Nicolas é um Deus para mim”. A doença se alastrou; viciados se tornaram verdadeiros idólatras. Amigos, família e a convivência social passaram a ter pouca importância. Virou rotina, em qualquer diálogo, um vídeo ser apresentado ao interlocutor.
Neste cenário, é difícil entender o voto do eleitor(a) que votou e votará contra sua própria defesa e a comunidade. Eleitores se alimentam pelo ódio. O que justifica votantes assumirem posição reversa? O que justifica esta desconsciência com tanta informação? Fato é que a democracia permite até que cada um vote contra si e aniquile o benefício coletivo. O dia 25 de outubro de 2026 trará, ao anoitecer, respostas sobre o voto consciente, inconsciente ou odiento. Triste é que a história trará a punição para todos. Quem terá a coragem de fazer o “minha culpa”?
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