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André Brito (*)

 

Dia desses estava descansando na rede. Era fim de tarde, sol entrando no colapso do seu rubor sanguíneo. Eu, como príncipe do Egito antigo, sentia a brisa que vem do leste e tomava uma deliciosa água de coco gelada, na tranquilidade da varanda, quando me deparei com uma cena bem pitoresca: a cópula de um casal de pássaros!

Até aí, nada demais, até porque assim nascem os passarinhos: macho e fêmea perpetuando a espécie. Mas, de fato, o que me chamou a atenção não foi o ato natural e poético. O que me fez refletir foi ver que o safadinho do pássaro (um bem-te-vi desaforado) simplesmente, ao terminar seu júbilo orgasmático, lançou-se ao etéreo (sempre quis usar essa palavra!), deixando a pobre ‘passarinha’ solitariamente só.

A dileta fêmea, transfigurada em solidão absorta, ficou parada no tempo e no espaço, como se seu coração palpitasse pela presença marcante do seu parceiro que, ao que pareceu, apenas quis usufruir de pequenas porções de prazer efêmero e a descartou como um canudo de plástico (tá proibido, né?) que, ao ser usado, rapidamente é jogado na não mais serventia da sua existência (eita filosofada da gota!).

Cá comigo, claro, fiquei a devanear sobre a solitude da meiga e desprezada femeazinha. A bichinha me fez pensar um caminhão (sabe as ‘mercedinhas’ de Itabaiana?) de coisas. Machismo do passarinho, história se repetindo de fêmeas ficando solitárias e enquadradas em mundos de silêncio e liberdade vigiada.

— Cara, esse passarinho é um sacana! Deixou a coitada sozinha naquele fio frio, largada ao léu, sem parentes, aderentes, nem lenço pra descarregar as mágoas criadas pela solidão invasiva!

Que drama, eu sei, mas a cena me fez refletir. Xinguei o passarinho de tudo quanto era nome feio. Usei todos os palavrões sergipanos para destratar aquele indivíduo sem-vergonha. Ô ódio!

Enquanto isso, a ‘passarinha’, mesmo parecendo incólume, na sua solidão divagante e espinhosa, não saía do seu lugar. Pensava eu que a coitada estava sofrendo pela ausência daquele safado que se borrou de gozo como quis e depois caiu fora.

Fiquei torcendo para que ela pudesse alçar voo e buscar novos caminhos para tentar reduzir o sofrimento de ter sido usada sem a firmeza de um compromisso mais sólido. Não. Ela não saiu. Manteve sua posição esperançosa e, como um soldado no campo de batalha, permaneceu firme aguardando a escuridão da noite fria e sem companhia.

Voltei a xingar o ‘carniça’. ‘Fi’ disso, ‘fi’ daquilo, não parei de vociferar veementemente torcendo por um estilingue a alcançá-lo. Tanta raiva! Deixou a bichinha sozinha! Fiz uma relação direta com a realidade das pessoas. Não é assim que acontece? É! Voltei a xingar o desgraçado!

Mas, para minha surpresa e vergonha, o passarinho voltou, romanticamente voltou. Com uma florzinha vermelha no bico. Quase deu pra ver que a amada sorria.

Eu fiquei com um misto de alegria e de vergonha. Julguei antecipadamente. Elucubrei. Dei ao texto a interpretação que eu queria. Carregado de pré-conceitos e julgamentos, xinguei, amaldiçoei e senti raiva. Estava errado. O bichinho só tinha saído pra buscar uma flor para a sua amada.

 

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Andre Brito

André Brito é jornalista e professor

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