Outras palavras

Triste fim de Zezé Di Camargo

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Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

Ele esteve entre as maiores vozes da música brasileira. Ao lado do irmão, Luciano (Welson David de Camargo), formou uma das melhores duplas sertanejas do país, desde 1991, com o sucesso “É o amor”. Mas, nos últimos anos, envolvido em polêmicas de todo tipo, limitações de saúde e posturas políticas erráticas, ele tem sepultado um legado que poderia estar sendo celebrado com toda justiça, em que pesem seus mais de trinta anos de carreira.

Ao solicitar o cancelamento do seu especial de Natal no Sistema Brasileiro de Comunicação (SBT) esta semana, Zezé Di Camargo (Mirosmar José de Camargo) se diminuiu de vez. Fazendo um pronunciamento contraditório, preconceituoso e autoritário, ele decepcionou, mais uma vez, seus milhões de fãs das mais diversas classes sociais e idades, inclusive a mim que sempre curti suas canções e shows.

A questão em discussão não é se ele tem ou não o direito a posições políticas ou o direito de cancelar um evento com a emissora por discordar de sua postura ou de seu editorial ou linha jornalística, por exemplo, com o lançamento do SBT News. Mas, como ele expressou sua contrariedade nas redes sociais. A discussão, pois, é sobre a forma e também as expressões utilizadas por ele, como a que atribue às filhas de Sílvio Santos uma “prostituição” ideológica. Até porque, no referido evento estavam lá, além de Lula e Alexandre de Moraes, também Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, e tão bolsonarista quanto Zezé Di Camargo.

Como artista, ele, com esse comportamento tosco e infeliz, colabora ainda mais para aumentar a tensão política do país, quando deveria fazer o contrário, ainda que para isso não precisasse abrir mão de seu pensamento político-partidário e, desse modo, oferecesse aos seus fãs e telespectadores do SBT a sua arte no anunciado (agora cancelado) Especial de Natal.

Com 63 anos de idade, portanto um senhor, avô inclusive, não lhe cabe mais o papel de se comportar como um moleque em rede nacional. A quem interessa sua radicalidade ou recalque? O que aconteceu com aquele mesmo artista que em outros tempos idolatrava Lula, sendo responsável por um dos maiores hits de sua campanha presidencial em 2002? “Que é que há, meu país? Que é que há?”

Que é que há, Zezé Di Camargo? Que é que há? À época, o senhor e seu irmão chegaram a faturar R$ 5.000.000,00 num único showmício. A fonte secou e agora resolveu cuspir no prato que comeu e até lambeu? Aliás, o senhor segue usufruindo dos recursos públicos por meio de contratos milionários com diversas prefeituras do interior do Brasil. Infelizmente, com uma performance meia-boca, porque além de perder a voz, o talento, o carisma, o juízo, a noção, o bom-senso, também não tem mais seu irmão ao seu lado, que é, a propósito, mais ajuizado e centrado do que você, tanto que seguiu outros rumos e mais bem-sucedidos.

Ainda bem que as canções que você e seu irmão nos brindaram não são contaminadas por sua pequenez humana e artística. Pois ao contrário, elas ficarão imortalizadas, tocando nossos corações e despertando em nós emoções e sentimentos que você deixou que se perdessem no tempo, sob o julgo de sua arrogância, empáfia, vaidade e mediocridade, seja lá o que for, típico de quem até precisa de ajuda para lidar bem com fama e dinheiro.

Ao fim (e que triste fim) e ao cabo, o sujeito Mirosmar lançou na lama e no limbo da História o artista Zezé Di Camargo, fazendo-se porta-voz e caixa de ressonância de uma parcela da sociedade brasileira (refletida no Congresso Nacional, por exemplo) que insiste em ser machista, misógina e até mesmo imbecil e inconsequente, sejam nas atitudes e sobretudo no mau uso das palavras.

A única coisa positiva nisso tudo é poder ter a possibilidade de ver um Especial de Natal com a Turma do Chaves no SBT. Feliz Natal para todos. De esquerda, de centro ou de direita. Para os extremistas de plantão, que Jesus Cristo abra seus corações e toque em suas consciências, tornando-os menos agressivos e mais amáveis.

 

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Claudefranklin Monteiro

Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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