Engenheiros do Hawaii: a banda que marcou o rock nacional com canções que atravessam gerações e permanecem atuais Foto: Divulgação
Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)
Há quarenta anos, a banda Engenheiros do Hawaii lançava o seu primeiro disco, intitulado “Longe demais das capitais”. Além de sucessos como “Todo mundo é uma ilha”, “Segurança” e “Beijos pra torcida”, o álbum se destacou pela canção “Toda forma de poder”, de autoria do vocalista e líder do grupo, Huberto Gessinger. Ele, Marcelo Pitz e Augusto Licks (formação original) entraram para a história do rock nacional com melodias provocativas e reflexivas, todas elas ainda bastante atuais.
Fundado em 1985, Engenheiros do Hawaii surgiu num contexto de transição de um regime autoritário para um regime democrático no Brasil. Nesse sentido, recomendo a leitura do trabalho de conclusão de curso da professora e historiadora Wanessa Fonseca de Goes (Licenciatura em História da Universidade Federal de Sergipe, 2019): Por que o mundo não acabou nos anos 80: Engenheiros do Hawaii e a narrativa histórica de uma época. Em sua pesquisa, ela mostra como o grupo se utiliza de suas letras e canções para traduzir a história do país e do mundo, como na lendária canção O Papa é pop (1990).
À época do surgimento da banda gaúcha, eu estava saindo da infância e entrando na adolescência. Foi um tempo de grande efervescência cultural, notadamente no campo da cultura pop, cuja realização da primeira edição do Rock in Rio (1985) foi um divisor de águas. Reprimida por vinte anos, a criatividade do povo brasileiro, particularmente da juventude, explodiu com outros grupos, a exemplo de Legião Urbana, Titãs, Os Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho e RPM. Todos eles dizendo, cantando e gritando, em alto e bom som: DITADURA NUNCA MAIS!
Eu cresci nesse ambiente e pude experimentar o que é viver num país democrático. E, nesse sentido, a canção Toda Forma de Poder e tantas outras da banda Engenheiros do Hawaii têm muito a nos dizer, em especial nas vésperas da realização do segundo turno das eleições presidenciais no Brasil, onde, em jogo, não estão apenas duas candidaturas (uma de esquerda e outra de extrema direita), mas o destino da democracia brasileira. Estaria ela, após quarenta anos, fadada a ser colocada novamente em escanteio em nome de mais uma aventura autoritária?
Para além de discorrermos um pouco mais sobre Toda Forma de Poder, vale ressaltar outras passagens icônicas da discografia do grupo, que incluem doze discos, a saber: Longe Demais das Capitais (1986); A Revolta dos Dândis (1987); Ouça o Que Eu Digo: Não Ouça Ninguém (1988); O Papa É Pop (1990); Várias Variáveis (1991); Gessinger, Licks & Maltz (1992); Filmes de Guerra, Canções de Amor (1993); Simples de Coração (1995); Minuano (1997); !Tchau Radar! (1999); Surfando Karmas & DNA (2001); Dançando no Campo Minado (2003).
Destes, estão entre meus prediletos O Papa É Pop e Várias Variáveis, álbuns que trazem versos incríveis como:
“Em livros de história / Seremos a memória dos dias que virão / Se é que eles virão”; “Todo mundo é moderno como um relógio antigo”; “Somos suspeitos de um crime perfeito / Mas crimes perfeitos não deixam suspeitos”; “Toda catedral é populista / É macumba pra turista”; “Na visão da macro-história nada gera um general / A visão do microscópio é o ópio do trivial”; “O povo pena, mas não para”; “A pátria à flor da pele, pede passagem”; “Campos desertos que não geram pão / Onde a ganância anda de rédeas soltas” e “Nas grande cidades de um país violento / Os muros e as grades nos protegem de quase tudo”.
Em A Violência Travestida faz seu Trottoir, a presença sutil da violência nas mais diversas situações da vida, como em “Armas de brinquedo, medo de brincar”. Em Nunca mais Poder, recomendo a leitura de um artigo de minha autoria publicado no Jornal do Dia no dia 23 de agosto de 2020.
Por fim, em Toda Forma de Poder, uma profunda reflexão sobre o poder, suas seduções e consequências, desde “Toda forma de poder /É uma forma de morrer por nada” a “Toda forma de conduta / Se transforma numa luta armada”. O sucesso da canção foi tema do personagem Raí (Taumaturgo Ferreira), na novela Hipertensão (Globo, 1986). Tocou em todas as emissoras de rádio. Todo jovem em minha idade, ao ouvi-la se sentia empoderado no melhor sentido da palavra. E o sentimento de empoderamento da juventude voltou a ser a tônica de nossos tempos, quando estudantes voltam às ruas para dar novos e velhos recados presentes na letra da canção:
“Eu presto atenção no que eles dizem/ Mas eles não dizem nada”; “E eu começo a achar normal que algum boçal / Atire bombas na embaixada”. E, de modo muito particular e especial: “E o fascismo é fascinante/ E deixa gente ignorante fascinada”
Se tudo passa, como nos lembra Engenheiros do Hawaii nesta canção, que não tenham sido inúteis todas as lutas pela reconquista e manutenção da democracia no Brasil. Que nem eu, minha geração e tantas outras anteriores a mim, não se esqueçam da importância de se viver num país livre, democrático e justo. Não caiamos na ilusão de que “É tão fácil ir adiante e se esquecer / Que a coisa toda tá errada”. Lembremos, sigamos e lutemos!
Nova etapa pode movimentar R$ 90 bilhões em dívidas, mas consumidores ainda precisam aguardar a…
Boletim aponta queda das chuvas, riscos à agricultura e problemas no abastecimento de água. Defesa…
Bancos terão cinco dias úteis para apresentar carteiras de crédito; governo prevê leilão com descontos…
Suco de laranja lidera as vendas internacionais, enquanto óleos essenciais e novos produtos ampliam a…
Acidentes já deixaram mais de 316 mil clientes sem energia no estado; levantamento identifica três…
Apesar da queda no movimento aéreo em setembro, ações de promoção turística, congressos e Pré-Caju…