O líder feudal, Hidetora, tão como o Rei Lear, sofre um colapso mental Fotos: FILMGRAB Divulgação
“Shakespeare deu o esqueleto; Kurosawa deu a carne, o sangue e a paisagem de seu próprio país e de seu próprio coração”
Carlos F. Heredero
Por Léo Mittaraquis (*)
Folguei à larga quando soube que o Cinema do Centro, em Aracaju, espaço ao qual devoto carinho e admiração desde o primeiro momento, iria exibir, como, de fato, o fez, o filme testamento de Kurosawa, “Ran”.
Idoso e a vislumbrar os ainda tímidos raios emitidos pela aurora da senilidade, relembro, enquanto ainda o posso, tanto de vezes que assisti a esta obra-prima.
No caso desta mais recente exibição, tive, ainda, o privilégio de apresentar a película à belíssima Imperatriz Absoluta do Meu Coração, Iara Mittaraquis.
Como previa, a nobre e elegante companheira apaixonou-se pelo filme e manifestou felicidade pela oportunidade de compartilhar, comigo, do sentimento de sincera admiração pela monumental produção.
Lançado, corajosamente, em 1985, quando dos seus 75 anos, Ran foi, para Kurosawa, segundo a crítica especializada, o filme mais custoso, mais ambicioso e, não obstante, tardio de Akira Kurosawa.
Sei que, ao assistir a este filme pela primeira vez, compreendi que estava diante de um verdadeiro monumento erguido em nome da cultura tradicional que, costumeiramente, era referência para o cineasta. Mas, também, exemplo distinto do seu flerte com a cultura europeia ocidental.
Foi um gesto na maturidade extrema. E se pôs, de imediato, como testamento estético e filosófico. E mais: em Ran, o teatro se fez no cinema, sem ser dissolvido em seus aspectos essenciais; o cinema recebeu o teatro mantendo sua estrutura básica — duas manifestações imagéticas a oferecer, em uníssono, sem que uma anulasse a outra, um tributo gentil e perfeito aos amantes viscerais da Sétima Arte.
Ah, sim: Kurosawa “releu” Rei Lear, de William Shakespeare, porém, não se limitou a transportar a ação fermentada na cultura inglesa para a realidade cultural do Japão feudal. Entretanto, como diria a Polishop, não foi só isso: Kurosawa também incluiu, a título de fonte, a história de Mōri Motonari, originada no século XVI. E quem foi o cara? Resposta: um tal senhor feudal que dividiu seus domínios entre seus três filhos. E deles exigiu lealdade e unidade. Bem… Essas coisas nunca saem como o planejado.
Penso, em minha perspectiva, que, a partir de duas fontes caracterizadas, também, por argumentos similares, o diretor recriou a própria simbologia do termo “tragédia”, ao fundir estilo e saber estético ocidental com sensibilidade e profundidade espiritual oriental — a palavra com a imagem, o verso com a cor e, notadamente, o silêncio.
Vale o cuidado, a atenção, de se observar que o título, “Ran”, traduz-se como turbulência, barafunda… Já não é o nome de um rei: é a própria condição humana quando a ordem se desfaz.
E isso é o atestado, a condição existencial de Akira Kurosawa: até onde sei, salvo engano, o cineasta já detinha quase 75 anos quando dirigiu o filme. Some-se a perda da esposa, a confessa solidão, a sensação de que, mestre das imagens, às imagens do mundo se desfaziam, o próprio mundo perdia algo do seu sentido. Tudo isso verteu-se na obra. Não foi apenas um exercício de adaptação. Foi, do modo como observo a coisa, a confissão de quem também sentiu o peso da idade e a fragilidade do poder.
Bem, esta é a primeira parte das minhas dispensáveis e sensabóricas considerações sobre o filme. Ainda há o que dizer. Quanto às cores, por exemplo. O farei em algum momento adiante, caso me seja concedido mais tempo sobre meu quadrado na Terra.
Inté!
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