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Rally apresenta dez anos de pesquisa para tornar pecuária do semiárido mais produtiva

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Por Antônio Carlos Garcia (*)

Após dez anos de pesquisas, o Rally Forrageiras para o Semiárido apresentou, na terça-feira (11), em Nossa Senhora da Glória, um conjunto de tecnologias voltado à produção de alimentos para os rebanhos em condições de baixa disponibilidade hídrica. Realizado na Unidade de Referência Tecnológica (URT) da Embrapa Semiárido, no Sertão de Sergipe, o encontro reuniu pesquisadores, especialistas e produtores rurais para conhecer os resultados de experimentos com capins, palma, sorgo, milheto e outras forrageiras adaptadas ao semiárido, além de estratégias para reduzir custos, aumentar a produtividade e garantir segurança alimentar aos animais.

A apresentação dos resultados ocorre em um momento estratégico para a pecuária sergipana. A irregularidade das chuvas e os efeitos do El Niño sobre o ciclo agrícola comprometeram a produção de milho em áreas do Sertão. Com menor oferta de silagem, produtores já recorrem à compra de alimento em municípios como Carira e Pedro Alexandre, na Bahia. O aumento dos custos preocupa uma região cuja produção de leite pode cair pelo menos 20%, segundo estimativas levantadas no contexto da atual dificuldade enfrentada pelos produtores.

Muitos pessoas participaram do Rally Forrageiras

Coordenadora do projeto Forrageiras para o Semiárido, a engenheira agrônoma Alenilda Carvalho explica que o projeto nasceu em 2017 a partir de uma parceria entre a Embrapa e o Instituto CNA, sob mentoria do pesquisador João Martins, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A proposta era reunir alternativas capazes de formar um “cardápio” de forrageiras e tornar a pecuária do semiárido mais sustentável e resiliente.

Na primeira fase, foram testadas 30 espécies forrageiras, sendo 18 variedades de capins, sete variedades de palma, três variedades de lenhosas leguminosas e oito variedades de milho, sorgo e milheto.

“Os melhores resultados obtidos na fase um do projeto, que nasceu em 2017, trouxemos agora para uma fase dois. Dessa vez, com o componente animal, na condição de pastejo”, explica Alenilda.

Nessa segunda etapa, foram utilizados massai, bufel árido, sandropó, guaruana, piatã, paiaguás, capim-marandu, capim-corrente e capim-tamani. Os experimentos receberam animais das categorias de gado de leite, gado de corte e ovinos, em condições de pastejo que procuraram reproduzir a realidade enfrentada pelos produtores.

O desafio considerado pela pesquisa é produzir em uma região onde a precipitação acumulada pode ficar abaixo de 500 milímetros por ano. Por isso, as unidades experimentais foram classificadas entre condições de chuva abaixo e acima desse volume.

Pesquisa chega ao produtor

Para Alenilda, o Rally representa o encerramento oficial de um ciclo de pesquisas iniciado em 2017 e a entrega dos resultados aos produtores. “Hoje, com o Rally Forrageiras, a gente está fazendo essa entrega oficial desses dez anos de pesquisa, onde essas informações estão compiladas em um guia de bolso, que vai ser distribuído hoje aqui nesse evento para os produtores”, afirma.

Alenilda Carvalho: O projeto reúne quatro fases desenvolvidas entre 2017 e 2025

O material reúne informações sobre as forrageiras mais indicadas para diferentes condições de precipitação, além de recomendações de acordo com a categoria animal.

A publicação mostra quais materiais podem ser utilizados em ambientes com baixa precipitação e em regiões com chuva superior a 500 milímetros. Também organiza as alternativas entre gramíneas para o período seco e gramíneas para o período chuvoso, além de indicações para sistemas de produção de leite, corte e ovinos.

O projeto reúne quatro fases desenvolvidas entre 2017 e 2025. Com o Rally, esse ciclo é encerrado e uma nova etapa começa a ser preparada.

“A gente fecha esse período do projeto e dá o start inicial para uma fase três”, afirma Alenilda.

Segundo ela, a terceira fase deverá trabalhar com sistemas de produção, incluindo a possibilidade de pastejo direto na palma. A intenção é reunir o conjunto de forrageiras pesquisadas dentro de um sistema produtivo.

“Na fase três, o nosso objetivo é reunir todo esse cardápio dentro de um sistema, como um sistema de LPF, por exemplo, um sistema que agregue e aumente ainda mais a capilaridade dessas forrageiras dentro da unidade produtiva”, explica.

Milho não serve para todas as regiões

A pesquisa também procura evitar que o produtor adote uma tecnologia sem considerar as características de sua propriedade. Alenilda cita como exemplo sistemas de produção de milho altamente tecnificados desenvolvidos em regiões como o Oeste brasileiro, onde há disponibilidade de irrigação, enquanto boa parte do semiárido trabalha em sistema de sequeiro.

Para as regiões com menor volume de chuva, ela recomenda materiais mais resistentes. “Em regiões que chove abaixo de 400 milímetros, por exemplo, (…) é o milheto, sem sombra de dúvidas”, afirma.

O milheto pode chegar ao ponto de corte para ensilagem aproximadamente 70 dias depois do plantio, permitindo ao produtor formar estoque de alimento para o período seco.

Na sequência, vem o sorgo. Segundo Alenilda, acima de 500 milímetros de chuva o sorgo pode ser utilizado. Já em regiões com precipitação entre 700 e 800 milímetros, o milho pode ser trabalhado com maior segurança.

A distribuição da chuva também é importante. Em locais onde o período chuvoso não ultrapassa 140 dias, a recomendação é utilizar materiais mais resistentes e resilientes, principalmente sorgo e milheto.

Forragem interfere no fluxo de caixa

A escolha da alimentação dos animais tem efeito direto sobre a economia da propriedade, segundo Alenilda.

“Quando a gente coloca um cardápio dentro da propriedade, eu estou dando segurança alimentar para os meus animais e também para o meu fluxo de caixa”, afirma.

Um animal que continua ganhando peso durante o período seco pode permanecer menos tempo na propriedade, principalmente os destinados à terminação.

“Eu tenho um animal que poderia passar 24 meses dentro de um sistema para chegar ao peso de abate, com 12 meses em um sistema onde tenha um cardápio, um sistema que tem segurança alimentar para esse animal”, explica.

A consequência é uma conversão mais rápida do alimento consumido em ganho de peso e, portanto, maior eficiência econômica.

A estratégia combina palma forrageira, silagem e pastagens, distribuídas de acordo com as necessidades do animal e os períodos de chuva e seca.

“Eu tenho aí um ambiente sustentável, uma pecuária sustentável e um ambiente onde eu garanto ali o meu fluxo de caixa positivo no final de um ano agrícola”, diz.

Palma mantém papel estratégico

A palma forrageira ocupa lugar de destaque no sistema recomendado pela pesquisa. “A palma dentro do sistema em regiões de semiárido é o divisor de águas”, afirma Alenilda.

Segundo ela, pesquisas mostram melhora no desempenho de animais de leite e de corte alimentados com palma. Como a planta também contém grande quantidade de água, os animais podem gastar menos energia com a busca por água.

A palma também é uma fonte de energia. Segundo Alenilda, aproximadamente 65% correspondem a energia, carboidratos e açúcares.

No período seco, quando os capins perdem parte de seu valor nutritivo em razão da fisiologia natural das plantas, a palma pode ser associada à silagem e às pastagens para manter a eficiência da alimentação.

Ela ressalta, entretanto, que a palma não pode ser fornecida como alimento exclusivo. “A palma é 80% água. Então, eu posso causar um distúrbio no meu animal”, explica. Quando combinada com silagem, capim e outras forrageiras, especialmente as nativas, a palma passa a integrar um sistema mais equilibrado.

Embrapa aposta na transferência de conhecimento

Coordenador da Embrapa no local onde o Rally foi realizado, Rafael Dantas afirma que o evento consolida a parceria entre Embrapa, Instituto CNA, CNA e federações do Nordeste.

Rafael Dantas: o evento consolida a parceria entre Embrapa, Instituto CNA, CNA e federações do Nordeste

“O Rally Forrageiras é justamente para você trazer todas as tecnologias que já foram trabalhadas durante o projeto Forrageiras, trazer essas informações para que o produtor rural tenha acesso a essas informações”, afirma.

O evento reúne ainda materiais didáticos, informações sobre mecanização agrícola e outras tecnologias. “Não seria nem um dia de campo, seria uma grande feira do conhecimento”, define Rafael.

A programação inclui palestra magna sobre alternativas forrageiras para animais, a carreta do Forrageiras para o Semiárido, com vídeos explicativos e dinâmicas, apresentação e distribuição do manual de bolso e três estações de campo.

Uma estação apresenta os resultados da pesquisa. Outra trata da conservação de forragem. A terceira é dedicada à palma forrageira.

Para Rafael, a transferência de conhecimento é o principal instrumento de parceria com o produtor. “A entrega de material propagativo, por exemplo, como semente, muda ou uma cartilha, isso é estanque, é momentâneo. Mas o conhecimento, a técnica e a tecnologia que são passados para o produtor, isso não tem preço”, afirma.

Estações mostram onde o produtor pode ganhar

O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Sergipe (Faese), Gustavo Dias, destaca justamente a importância das estações para transformar a pesquisa em uma ferramenta prática de decisão.

Participantes se preparando para a visita às estações na unidade da Embrapa Semiárido

Segundo ele, os experimentos permitem ao produtor comparar as diferentes variedades e entender o potencial de cada uma dentro de sua realidade. “As estações mostram a capacidade de cada variedade de capim ou de forragem ou da variedade de milho, para mostrar ao produtor quanto ele consegue produzir na sua área, o quanto ele consegue baixar o custo, qual o volume que ele consegue produzir, qual é a tecnologia que ele tem que inserir na sua área”, afirma.

Gustavo considera importante que o produtor possa acompanhar os resultados diretamente no campo.“Você vê in loco os produtores realmente atentos, realmente perguntando, realmente querendo entender”, diz.

Segundo ele, o produtor sai do evento levando conhecimento, informação, tecnologia e inovação. O presidente da Faese também destacou a dimensão econômica da atividade agropecuária em Sergipe. Segundo Gustavo, o agro representa mais de 30% da economia do Estado e somente a bacia leiteira sergipana produz mais de 2 milhões de litros de leite por dia.

Mais produtividade em menos tempo

Gustavo também compara a produtividade atual da pecuária com a realidade de alguns anos atrás. Segundo ele, há seis a oito anos um boi de 20 arrobas poderia levar quatro ou cinco anos para chegar ao peso. Atualmente, o mesmo animal pode atingir 20 arrobas em aproximadamente dois anos a dois anos e meio.

Na pecuária leiteira, vacas que produziam entre 10 e 15 litros por dia já eram consideradas excepcionais. Hoje, segundo Gustavo, novilhas em Sergipe chegam a produzir 30 a 35 litros de leite por dia. “O melhor girolando do Brasil está aqui em Sergipe, está com vocês, produtores rurais”, afirmou.

A evolução também aparece na produção de silagem. De acordo com Gustavo, uma produtividade de 15 a 20 toneladas por hectare era considerada muito alta. Atualmente, os produtores conseguem alcançar 45 a 50 toneladas por hectare. “Por isso que a gente faz esse dia de campo aqui para vocês realmente entenderem o quanto é importante a gente produzir a nossa matéria seca, quanto é importante a gente produzir as nossas forragens”, disse.

Para ele, o objetivo do Sistema Faese/Senar é levar capacitação, tecnologia, conhecimento e inovação para que propriedades rurais se transformem em negócios mais eficientes. “Transforme sua propriedade. Em vez de ser uma propriedade rural, transforme-a numa empresa rural”, afirmou.

Drones entram na rotina das propriedades

A tecnologia apresentada no Rally não se restringiu às forrageiras. Os produtores também conheceram soluções de mecanização e aplicação por drones. Victor Lisboa, da Base Drones, empresa que representa a DJI Agricultura em Sergipe, afirma que o equipamento está se tornando mais acessível aos produtores.

Drone, uma realidade no campo

“O drone está cada vez que passa mais tecnologia, ficando mais seguro e o preço baixando. Está sendo mais acessível ao pequeno produtor”, afirma. Segundo ele, o mercado começou concentrado nos prestadores de serviço, mas o produtor rural passou a perceber que o equipamento também pode ser um investimento para uso próprio e prestação de serviços a terceiros.

A Base Drones atua em Sergipe com venda, treinamento, pós-venda e peças. Segundo Victor, é a única revenda autorizada da DJI Agricultura no Estado. No evento, a empresa apresentou o T100, drone com capacidade de 100 litros, além dos modelos T25 e T70.

O modelo mais acessível apresentado é o T25P, de 20 litros, considerado por Victor mais adequado à realidade da região em razão do relevo e do tamanho geralmente menor das propriedades.

O kit custa atualmente R$ 87 mil, com drone, três baterias e carregador. Por aproximadamente R$ 91 mil, o produtor pode adquirir também o gerador necessário para a operação.

A empresa oferece capacitação para os compradores. Segundo Victor, o CA, que ele compara a uma habilitação para pilotar o equipamento, envolve curso on-line de aproximadamente sete dias e uma prova. A Base Drones também realiza de dois a três dias de treinamento na própria fazenda. O equipamento pode ser utilizado na propriedade e também para prestar serviços a vizinhos ou outros produtores.

Victor cita o caso de um cliente que investiu aproximadamente R$ 120 mil. Em dois meses, segundo ele, o piloto cedido pela empresa calculou que, caso o produtor tivesse prestado serviços com o equipamento, teria faturado cerca de R$ 124 mil. “Então, em dois meses, o drone se pagou”, afirma.

Além da redução de custos, o equipamento permite trabalhar em áreas onde máquinas terrestres enfrentam dificuldades.

“Ele disputa mais com o trator. É economia de água, produto, é mais assertivo, menos amassamento na propriedade. Tem lugar que se estiver encharcado, o trator não entra, o autopropelido não entra, e o drone está lá”, afirma. A Base Drones também oferece assistência técnica e mantém peças para pronta entrega.

No conjunto, o Rally mostra que a adaptação da pecuária ao semiárido passa por uma combinação de fatores: escolha adequada das forrageiras, produção de alimentos para a seca, conservação de forragem, genética, tecnologia, mecanização e gestão dos custos. Depois de uma década de pesquisas, o desafio agora é fazer com que esse conhecimento saia dos campos experimentais e seja incorporado às propriedades, transformando produtividade em resultado econômico para o produtor.

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Antônio Carlos Garcia

CEO do Só Sergipe

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