Luiz Thadeu: um acidente mudou o caminho; a fé escreveu o recomeço
Por Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)
Foi em uma sexta-feira que minha vida mudou para sempre. 11 de julho de 2003. Acordei diante do lindo mar de João Pessoa, na Paraíba, onde me hospedava. Descortinei a janela e vi a presença de Deus no colorido das águas da praia de Tambaú. Estava na cidade a trabalho. Era perito federal agrário do Incra. Encontrava-me em uma diligência.
Como sempre faço ao acordar, orei a Papai do Céu, agradecendo por tudo de bom em minha vida: saúde, emprego, casa própria, família equilibrada, filhos sadios. O que é essencial para uma vida feliz e confortável.
Estava em João Pessoa havia três meses, longe da esposa e dos filhos. Como era julho, Rodrigo e Frederico estavam de férias escolares.
Programei com Luís Henrique, meu irmão, para levá-los de carro para Fortaleza. Eles saíram cedo de São Luís; eu, de João Pessoa. Nos encontraríamos em um restaurante em Fortaleza, nosso favorito, no final da tarde daquele dia.
Cedo peguei o ônibus de João Pessoa para Natal. De lá tomaria outro até o destino final. Desci em um entroncamento em Parnamirim, próximo a Natal, na esperança de pegar o primeiro ônibus para a capital alencarina.
Começou aí a sucessão de erros. O ônibus para Fortaleza já havia passado. Começou a chover. Não havia abrigo. Na esperança de chegar até o ônibus que perdi, peguei um táxi de linha, desses que entram e saem passageiros. Não rodamos muito, e o táxi quebrou. Descemos. Continuava chovendo. Tomei outro táxi. No banco da frente, ao lado do motorista, estava um senhor com largo chapéu.
Ele desceu no posto de gasolina, onde o motorista reabasteceu o táxi. Na parada, aproveitei para ir para o banco da frente. O motorista me convenceu a voltar para o banco de trás. Obedeci. Proteção divina. Saberia logo em seguida o porquê.
Carro abastecido, pegamos a BR-304, que liga Natal a Mossoró. Já na BR, Juvenal, o motorista, atendeu um telefonema. Tinha urgência em chegar ao destino final.
Chovia muito. Pista escorregadia, Juvenal perdeu o controle do carro. Batida frontal com uma Scania que vinha no sentido contrário.
Com o impacto da batida, o banco do passageiro correu no trilho, esmagando minha perna esquerda. Desmaiei. Acordei no assoalho de uma Pampa, utilitário da Ford, todo ensanguentado. Não sabia da gravidade do acidente. Todos os objetos pessoais foram roubados, inclusive os sapatos.
Atordoado, perguntei: “Isto é um sonho?”
— Não se mexa, você sofreu um grave acidente, tiramos você agora das ferragens.
— Onde estou?
— Na BR-304, perto de Assu, no Rio Grande do Norte.
Desmaiei novamente, só fui acordar na maca enferrujada de uma ambulância que trepidava muito, a caminho do hospital.
Conto esta história para mostrar como a vida pode mudar abruptamente, sem que tenhamos nenhum poder sobre ela.
Não tinha noção de como minha vida mudaria para sempre a partir daquele dia.
Naquela noite, dei entrada em um hospital de Natal. O ortopedista que me operou cometeu um erro médico, iniciando minha Via Crucis. Tive osteomielite, infecção óssea. De Natal fui removido para São Luís, depois para São Paulo. Levei longos períodos internado em hospitais, fui submetido a 43 cirurgias. Passei um tempo em cadeira de rodas. Muita fisioterapia e, finalmente, cheguei às muletas, companheiras inseparáveis, com as quais desbravei o mundo.
Nunca saberemos a força que temos até precisar dela. Nunca imaginei que, após tantos percalços, a vida fosse me mostrar uma nova face.
Já são 162 países visitados em todos os continentes do mundo. Para quem não tinha nenhuma perspectiva de voltar a ter uma vida “normal”, hoje só posso agradecer ao bom e maravilhoso DEUS, que não me deixou fraquejar em nenhum momento.
Muito chão pela frente. Muitos sonhos a realizar, muitas coisas a conquistar.
A vida não me cansa, pois, a cada nascer do sol, é tempo de renovação. Tempo de novas experiências, novas conquistas, novas oportunidades, novos aprendizados.
O bacana da vida é agradecer mais do que pedir. Saí com cicatrizes das armadilhas do caminho, mas continuo vivo. Ativo. Que estou superando tristezas que nunca nem consegui expressar. Florecer de novo após tantos desertos.
Neste 11 de julho completo 23 anos de vida nova. Como homem de fé no DEUS VIVO, só posso dizer: “Obrigado, Senhor, por ter me trazido até aqui”.
Desculpem-me a intensidade, mas só tenho essa vida e procuro vivê-la intensamente.
Em qualquer circunstância, a vida é mágica, a vida é encantadora, a vida é para ser vivida. Sempre!
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