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André Brito (*)

 

Dia desses eu estava me lembrando como era bom jogar bola na chuva, correr descalço, sem camisa e ver a gripe passar longe. O sorriso no rosto era a vitamina necessária para criar imunidade e desfilar saúde. Problemas? Havia: dedão sem a ponta, claro, o couro ficara no paralelepípedo. Cotovelo arranhado, às vezes caíamos na disputa pela bola. Segue o jogo!

Parece que a alegria espontânea sempre foi remédio para muitos males da vida. Por que a vida é mais feliz quando se é criança? Ainda que faltem víveres (faz muito tempo que não via essa palavra), conforto, roupa de marca, milk shake e brinquedos eletrônicos, uma chinela virava bola, um triângulo riscado no barro da rua virava o recipiente de bolas de gude… a farra estava montada.

E se não tivesse videogame? Palitos de coqueiro, linha, cola e papel entravam no contexto e davam asas à nossa imaginação. Era como se os sonhos voassem junto com a pipa. Era como se fôssemos nós a voar pelos ares, na imensidão de um céu que pertencia a todos, indiscriminadamente.

Não sei se fui acometido da Síndrome da Volta aos Sonhos da Infância (inventei, viu!?) ou simplesmente corroborei para a prova viva do mito do retorno baseado na saga de Ulisses (aquele da Odisseia). Só sei que, por mais que a vida não fosse fácil (e não era, mas eu não tinha como saber, porque meus pais blindavam a dura realidade), era divertida, sobremaneira vida, sobressaltadamente feliz.

Aí vem a realidade adulta e o desaconchego das paranoias, utopias e entraves que criam em nós, na tentativa de apagar tudo de bom que fomos e somos. Sim, ainda somos. Sabe por quê? Porque a criança em cada um de nós ainda vive, salta, brinca, se esconde e sorri. O problema é que a casca de desesperança, que vai sendo criada ao longo da nossa vida, envolve a nossa forma de pensar e agir, na tentativa de apagar o bem que somos.

Não permito mais me perder (ou me levarem a me perder) no pânico das sombras de uma realidade criada para me transformar em “walking dead”. Sai pra lá, cabrunco! Que as nossas alegrias estejam tatuadas para sempre em nossos rostos e estampadas para contagiar os de coração sem sangue.

Um conselho: vá ao mercado, compre pião, pipa e bola de gude. Vá se divertir e fazer voltar quem é feliz dentro de você. O tempo é agora. O depois não existe, viu!?

 

 

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Andre Brito

André Brito é jornalista e professor

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