Domingo em Desbaste

O tempo e as pluralidades do ser mulher

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Por Heuller Roosewelt Silva Melo (*)

 

A ressignificação de março como o “Mês da Mulher” transborda a linearidade de um calendário comum, consolidando-se como um tempo de síntese e resistência. Mais do que uma contagem de trinta dias, este período funciona como um observatório onde o passado das conquistas históricas encontra os desafios prementes do presente. É um convite para que a sociedade não apenas celebre, mas analise as estruturas que moldam a existência feminina em suas múltiplas dimensões.

A transição do “Dia Internacional” para o “Mês da Mulher” reflete a urgência de um fôlego maior para o debate. Se em 1975 a ONU oficializou o 8 de março como um marco global, hoje compreendemos que vinte e quatro horas são insuficientes para abraçar a complexidade das lutas por igualdade. Esse alargamento temporal permite que as facetas do trabalho, da saúde e da segurança sejam discutidas com a profundidade que a dignidade humana exige.

Um dos pontos centrais dessa reflexão é o conflito entre o tempo cíclico e o tempo linear. Enquanto o mercado de trabalho impõe um ritmo de produtividade constante e inflexível, a experiência feminina é atravessada por ciclos biológicos e de cuidado que exigem uma integração mais humana. O Mês da Mulher busca, portanto, harmonizar essas vivências, questionando modelos que ignoram a natureza transformadora e o ritmo do bem-estar feminino.

No entanto, para que essa análise seja honesta, precisamos questionar: a experiência de “ser mulher” é igual para todas? Os dados do Mapa da Mulher Sergipana nos mostram que a violência e as oportunidades não se distribuem de forma uniforme. É aqui que o debate ganha contornos de urgência, pois a identidade feminina é atravessada por interseccionalidades que intensificam os desafios enfrentados no cotidiano.

Além da tragédia expressa pelo machismo por si só, mulheres negras têm que enfrentar o peso estrutural do racismo, mulheres LGBTQIAPN+ lidam com a LGBTfobia, enquanto mulheres com deficiência e mulheres 50+ combatem, respectivamente, o capacitismo e o etarismo. Entender essas camadas é fundamental para que o Mês da Mulher não seja um discurso genérico, mas uma plataforma que enxergue as especificidades de cada grupo, garantindo que nenhuma seja deixada para trás.

Essa desigualdade reflete-se diretamente na gestão do tempo e na dupla jornada. No Brasil, o tempo dedicado aos afazeres domésticos e ao cuidado de dependentes por mulheres é quase o dobro do dedicado pelos homens. Essa sobrecarga não apenas limita a ascensão profissional, mas drena a saúde mental e física, tornando o diálogo sobre o autocuidado e a rede de apoio uma questão de política pública e não apenas de foro íntimo.

Nesse contexto, a informação surge como a principal ferramenta de cuidado e prevenção. Eventos como palestras sobre saúde e bem-estar feminino são essenciais para fortalecer a autonomia. Ao abrir espaços para dialogar sobre a qualidade de vida, a sociedade promove o empoderamento real, permitindo que a mulher reconheça seus direitos e identifique os sinais de violência, sejam eles físicos, psicológicos ou patrimoniais.

Em suma, o Mês da Mulher é uma construção que utiliza o tempo do calendário para honrar a memória histórica das greves de 1857 e 1917, projetando um futuro de equidade. É um período de ação e visibilidade, onde o compromisso com a vida das mulheres deve se transformar em políticas eficazes e consciência social. Somente ao abraçar a pluralidade de vozes e corpos poderemos, de fato, celebrar um tempo de verdadeira justiça e renascimento.

 

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#ParaTodosVerem: Fotografia em formato horizontal capturando um grupo diversificado de sete mulheres em um ambiente de conferência ou oficina. No centro, uma mulher negra segura um livreto intitulado “Mapa da Mulher Sergipana”, rodeada por uma mulher indígena, uma mulher idosa, uma jovem em cadeira de rodas e outras colaboradoras que conversam e analisam documentos sobre saúde e autocuidado. Ao fundo, um banner destaca a frase “Mês da Mulher: Pluralidade, Conquistas e Futuro”, próximo a um projetor com gráficos de dados. À esquerda, uma intervenção artística na parede une um relógio analógico a elementos cíclicos da natureza, simbolizando a fusão entre o tempo produtivo e o biológico. A cena é bem iluminada, transmitindo cooperação, diversidade e foco em políticas públicas femininas.

 

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Heuller Roosewelt Silva Melo

Um historiador, fazedor de contas; e um engenheiro, contador de histórias; progressista; bancário; esposo; pai ativo e presente. Sou do tipo que constrói templos à virtude e cava masmorras ao vício.

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