Domingo em Desbaste

Solstício, os dois São Joões e a vitória da Luz

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Por Hernan Centurion (*)

 

Todos os anos, quando o mês de junho se aproxima do fim, a natureza parece convidar-nos, discretamente, à contemplação e a tradição cultural aos festejos juninos. Enquanto seguimos absorvidos pelas exigências da rotina, um fenômeno extraordinário acontece sobre nossas cabeças, repetindo-se com absoluta precisão desde que Deus ordenou o universo, o solstício. Poucos o percebem, menos ainda refletem sobre ele, entretanto, quanto mais procuro compreender seus significados, mais me convenço de que a criação também é uma forma de revelação.

Na astronomia, o solstício corresponde ao momento em que o sol atinge sua maior declinação em relação à linha imaginária do Equador. A própria origem da palavra, derivada do latim sol sistere, “sol imóvel”, faz referência à impressão de que o astro interrompe, por um breve instante, seu deslocamento aparente antes de iniciar lentamente o caminho inverso. Esse movimento acontece duas vezes por ano, em junho e dezembro, marcando o início do inverno e do verão em cada hemisfério e compondo, juntamente com os equinócios, o admirável ciclo das estações. Hoje sabemos que essa alternância decorre da inclinação do eixo terrestre durante sua órbita ao redor do sol, e não da distância entre ambos, como outrora se imaginava. Ainda assim, muito antes de a ciência oferecer essa explicação, o homem já intuía que ali existia uma linguagem que se reporta à espiritualidade.

No Hemisfério Sul, o solstício de junho inaugura o inverno e assinala a noite mais longa do ano. Poderíamos imaginar que as trevas finalmente triunfaram. O curioso, porém, é que ocorre exatamente o contrário. É justamente a partir desse instante que a luz inicia sua lenta reconquista. Os dias começam a crescer quase imperceptivelmente, alguns segundos de cada vez, num movimento tão discreto que somente o tempo é capaz de revelar sua grandeza. A criação parece recordar-nos que Deus raramente age com estrondo. Quase sempre prefere a delicadeza do silêncio. A esperança costuma nascer quando ainda acreditamos estar cercados pela escuridão.

Talvez por isso praticamente todas as grandes civilizações da Antiguidade tenham celebrado o solstício como um acontecimento sagrado. Persas, egípcios, gregos e romanos enxergavam naquele renascimento da luz um símbolo da vitória da vida sobre a morte, da ordem sobre o caos e da esperança sobre o desalento. Mitra, venerado pelos persas, e posteriormente o Sol Invictus romano, representavam justamente esse sol que jamais se deixava vencer pelas trevas. Ainda que desconhecessem as explicações astronômicas, percebiam, intuitivamente, que o universo obedecia a uma ordem muito superior à simples sucessão dos dias.

Quando o Cristianismo se difundiu pelo mundo antigo, não rejeitou esse simbolismo, contudo, conferiu-lhe plenitude. A luz que retornava a cada inverno deixava de representar apenas um ciclo da natureza para anunciar Aquele que o Evangelho proclamaria como “a verdadeira Luz que ilumina todo homem” (João 1:9). Afinal, o Deus que estabeleceu o movimento dos astros é o mesmo que conduz, com igual perfeição, a história da salvação da humanidade.

Não considero mera coincidência, portanto, que as celebrações dos dois São Joões estejam tão próximas dos solstícios. Existe, a meu ver, uma admirável harmonia entre o ritmo da natureza e o calendário litúrgico da Igreja, como se ambos narrassem, sob perspectivas diferentes, a mesma história da relação entre Deus e o ser humano.

São João Batista e São João Evangelista

São João Batista ocupa um lugar absolutamente singular nesse enredo. Filho de Zacarias e Isabel, santificado ainda no ventre materno ao estremecer diante da presença do Menino Jesus trazido no ventre por Maria, ele encerra o tempo dos profetas e abre as portas da Nova Aliança. Sua vida inteira resume-se numa única missão: preparar os caminhos, vivendo no deserto, desapega-se do supérfluo, conclama os homens à conversão e batiza nas águas do Jordão como sinal de purificação interior. Entretanto, sua maior grandeza talvez esteja justamente no fato de jamais desejar ocupar o lugar daquele que anunciava. Ao reconhecer Jesus, aponta para Ele e pronuncia uma das mais belas profissões de humildade de toda a Escritura: “Convém que Ele cresça e eu diminua.”

Há uma delicada sintonia entre essa passagem e o próprio solstício. Enquanto os dias começam lentamente a crescer, João compreende que sua missão se aproxima do fim. Assim como a noite cede lugar à luz, o precursor retira-se para que Cristo apareça. Não há tristeza nesse aparente desaparecimento, mas sim plenitude, pois João ensina que toda verdadeira vocação alcança seu ápice quando deixa de conduzir os homens para si e passa a conduzi-los para Deus.

Já São João Evangelista, filho de Zebedeu e Salomé, irmão de Tiago Maior, representa o movimento complementar. Se Batista prepara o encontro, Evangelista ensina a permanecer nele. É o discípulo amado, aquele que reclina a cabeça sobre o peito de Jesus durante a Última Ceia, permanece firme aos pés da Cruz quando quase todos fogem e recebe do próprio Mestre a missão de acolher Maria como mãe. Seu Evangelho distingue-se dos demais porque não começa pela história, mas pela eternidade: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” Antes do nascimento em Belém, antes de Abraão, antes da própria criação, João contempla o Cristo eterno. Se Batista aponta para a Luz, Evangelista revela quem é essa Luz.

Talvez por isso a tradição maçônica tenha acolhido ambos como patronos simbólicos de suas lojas. Herdando das antigas corporações de ofício a celebração dos solstícios, encontrou nos dois São Joões uma extraordinária síntese da caminhada iniciática. Primeiro é necessário preparar o coração, vencer as paixões, reconhecer as próprias limitações e permitir que o orgulho diminua, como ensina João Batista. Em seguida, torna-se indispensável permanecer junto à Verdadeira Luz, aprofundando a sabedoria, fortalecendo a fraternidade e aprendendo a contemplar, como descreve João Evangelista. Neste sentido toda verdadeira iniciação deve percorrer esse mesmo itinerário.

Enquanto escrevia estas linhas, ocorreu-me que todos nós experimentamos sucessivos solstícios ao longo da vida. Existem períodos em que a alma atravessa seus próprios invernos, marcados pelas perdas, pelas enfermidades, pelas dúvidas, pelas decepções e pelos inevitáveis desertos da existência. Nessas ocasiões, somos levados a acreditar que a noite será permanente e fria. Entretanto, basta voltarmos os olhos para a própria criação para, então, compreendermos que Deus nunca interrompe Seus ciclos, ainda que quase imperceptivelmente, a luz continua crescendo.

Destarte seja essa a maior catequese que o céu nos oferece a cada mês de junho, posto que o fenômeno do solstício deixa de ser apenas um evento astronômico para tornar-se um permanente convite à esperança. Ensina-nos que nenhum inverno é eterno, que nenhuma sombra consegue aprisionar definitivamente o amanhecer e que a graça de Deus costuma agir exatamente como a luz após a noite mais longa: silenciosamente, sem precipitação, porém de maneira irresistível.

Auguro que a claridade, a partir deste dia, volte lentamente a expandir-se sobre a Terra e encontre também espaço em nosso templo interior, dissipando a ignorância pela ação da sabedoria, a intolerância pela caridade e fraternidade, a inquietação pela confiança e o orgulho pela humildade e perdão. Inspirados por São João Batista, aprendamos a diminuir para que Cristo cresça em nós; inspirados por São João Evangelista, permaneçamos juntos à Verdadeira Luz até que ela ilumine plenamente nossa mente e nosso coração.

Porque, ao final de tudo, talvez o mais importante dos solstícios não aconteça no firmamento, mas no instante em que Deus, discretamente, faz nascer um novo amanhecer dentro da alma humana.

 

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Hernan Centurion

(*) Médico cirurgião e coloproctologista. Mestre maçom da Loja Maçônica Clodomir Silva 1477

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