Domingo em Desbaste

O aperto de mãos e o tríplice abraço fraterno

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Professor Manuel Luiz Figueiroa (*)

 

Há momentos em que as palavras já não conseguem traduzir aquilo que o coração deseja dizer. Depois de uma divergência, de um mal-entendido ou de um período de afastamento, um simples gesto pode representar muito mais do que um longo discurso.

O aperto de mãos é um desses gestos.

Quando duas pessoas que estiveram em lados opostos estendem as mãos e as unem, não estão necessariamente apagando o passado, mas demonstrando disposição para construir um novo caminho. É como se reconhecessem que a convivência é mais importante do que a disputa e que a paz pode ser mais valiosa do que ter razão.

O ensinamento cristão

Na tradição cristã, a reconciliação ocupa lugar central. Cristo ensina o amor ao próximo, o perdão e a busca pela paz. Em João 13:34-35, Jesus apresenta o amor mútuo como sinal distintivo de seus discípulos: “Amem uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar uns aos outros”.

Perdoar não significa necessariamente considerar correto aquilo que aconteceu. Significa não permitir que a mágoa, o ressentimento ou o desejo de vingança continuem dominando o coração.

A reconciliação é, portanto, uma expressão de amor, humildade e maturidade espiritual.

Nesse sentido, a mão estendida pode ser compreendida como um gesto cristão: não é a mão que acusa, cobra ou condena, mas a mão que oferece a possibilidade de paz.

O aperto de mãos entre irmãos maçons

Na tradição maçônica, o aperto de mãos possui uma dimensão simbólica de reconhecimento e fraternidade. Entre irmãos maçons, o aperto de mãos é sempre seguido do tríplice abraço fraterno, gesto que ultrapassa a simples formalidade e expressa a fraternidade que une aqueles que compartilham uma caminhada de aperfeiçoamento moral.

O aperto de mãos aproxima.

O abraço envolve.

E o abraço fraterno, repetido três vezes, acrescenta ao encontro uma dimensão simbólica ainda mais profunda.

É importante compreender essa passagem como uma expressão ritual e fraternal própria da tradição maçônica e não como uma regra universal em outras tradições esotéricas.

O significado do tríplice abraço fraterno

O primeiro abraço pode representar a reconciliação: dois irmãos que estavam afastados reconhecem que a fraternidade é maior do que a divergência.

O segundo pode representar o perdão: não necessariamente o esquecimento do ocorrido, mas a decisão consciente de não alimentar o ressentimento.

O terceiro pode representar o compromisso renovado de fraternidade: a disposição de seguir adiante, procurando preservar a união, o respeito e a harmonia.

Assim, o tríplice abraço pode ser contemplado como uma pequena caminhada espiritual: reconciliar, perdoar e reconstruir.

Três movimentos que retiram o homem do terreno do conflito e o conduzem novamente ao terreno da fraternidade.

A força simbólica do número três

O número três possui expressiva presença tanto na tradição cristã quanto na simbologia maçônica. No Cristianismo, a referência à Trindade — Pai, Filho e Espírito Santo — constitui um dos elementos fundamentais da fé cristã.

Na literatura simbólica maçônica, o ternário também ocupa lugar de destaque. José Castellani, em seus estudos sobre a simbologia maçônica, trata o número três como um número de especial importância simbólica.

Por isso, o tríplice abraço pode inspirar uma reflexão particularmente rica.

Primeiro abraço: reconciliar.

Segundo abraço: perdoar.

Terceiro abraço: renovar a fraternidade.

Essa interpretação não pretende estabelecer uma regra ritual, mas oferecer uma leitura moral e simbólica do gesto.

A fraternidade acima das diferenças

A verdadeira fraternidade não significa ausência de divergências.

Irmãos podem discordar. Podem interpretar de maneira diferente uma situação. Podem defender posições opostas. Podem até magoar-se.

Mas a fraternidade ensina que nenhuma divergência precisa necessariamente transformar-se em inimizade.

O verdadeiro desafio está em saber retornar ao caminho da harmonia.

É nesse momento que o aperto de mãos e o tríplice abraço fraterno assumem sua maior grandeza.

A mão que se estende vence o orgulho.

O abraço que aproxima vence a distância.

E o tríplice abraço reafirma que a fraternidade pode sobreviver às diferenças.

Um gesto que fala ao coração

Há abraços que são apenas manifestações de afeto.

Mas há outros que carregam uma história.

São aqueles em que duas pessoas, depois de enfrentarem divergências, silenciam o orgulho, vencem o ressentimento e decidem dar uma nova oportunidade à fraternidade.

Quando dois irmãos se abraçam fraternalmente, a mensagem silenciosa pode ser:

“Eu o reconheço como irmão.”

“Nossa divergência não é maior do que nossa fraternidade.”

“Seguimos juntos, com respeito e espírito de união.”

Para o cristão, a reconciliação lembra o ensinamento de Cristo sobre o amor, o perdão e a paz.

Para o maçom, a fraternidade recorda que todos são chamados ao aperfeiçoamento moral e à construção de uma sociedade mais justa e harmoniosa.

Para qualquer ser humano, permanece uma lição universal:

Nenhuma relação verdadeiramente importante deveria ser destruída pelo orgulho quando ainda existe espaço para o perdão.

Conclusão

Que nossas mãos estejam sempre prontas para ajudar, que nossos braços estejam sempre abertos para acolher e que nossos corações estejam sempre preparados para perdoar.

Porque, às vezes, a reconciliação começa com um aperto de mãos.

Mas, entre irmãos, ela pode encontrar sua expressão mais profunda naquele gesto silencioso e eloquente do tríplice abraço fraterno.

Três abraços podem simbolizar três decisões interiores:

reconciliar, perdoar e continuar irmãos.

E talvez esteja justamente aí a maior beleza desse gesto: depois que as mãos se unem, os braços se fecham em torno do irmão, e aquilo que estava dividido encontra novamente o caminho da fraternidade.

Três abraços. Um só sentimento: FRATERNIDADE.

 

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Bibliografia

BÍBLIA SAGRADA. João 13:34-35 — o novo mandamento do amor e o amor como sinal distintivo dos discípulos de Cristo. A passagem sustenta a dimensão cristã da fraternidade e da reconciliação.

BÍBLIA SAGRADA. Mateus 5:9 — “Bem-aventurados os pacificadores…”. Fundamenta a valorização cristã da paz e da conciliação.

BÍBLIA SAGRADA. Mateus 5:23-24 — ensinamento de Jesus sobre a necessidade de reconciliação com o irmão.

BÍBLIA SAGRADA. Colossenses 3:12-14 — exortação à compaixão, bondade, humildade, mansidão, paciência, perdão e amor.

CASTELLANI, José. A Maçonaria Moderna. São Paulo: A Gazeta Maçônica, 1987.

CASTELLANI, José. Liturgia e Ritualística do Grau de Aprendiz Maçom. São Paulo: A Gazeta Maçônica.

CASTELLANI, José. O Rito Escocês Antigo e Aceito: História, Doutrina e Prática. Londrina: A Trolha, 1988.

CASTELLANI, José. As Origens Históricas da Mística Maçônica.

BOUCHER, Jules. A Simbólica Maçônica. São Paulo: Pensamento.

LEPAGE, Marius. História e Doutrina da Franco-Maçonaria. São Paulo: Pensamento.

 

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Manuel Luiz Figueiroa

Professor Manuel Luiz Figueiroa é mestre maçom da Loja Maçônica Clodomir Silva e secretário de Educação e Cultura do GOB-SE

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