Lá Vem História

A arte de escutar — atenção muda vidas

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Por Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

 

Em tempos surreais, ainda tenho muito a aprender. Todos os dias acordo à espera de coisas novas que me desafiam a adaptar-me aos novos tempos. Em tempo de Inteligência Artificial, IA, e com tecnologias por todos os lados, vejo-me na obrigação de inseri-me no processo para não ficar à parte. Se tem um aprendizado que eu carrego, é este: as pessoas sempre serão pessoas. A humanidade, a forma de sentir, de reagir, de cometer erros, de ter fraquezas e de viver é rigorosamente a mesma. O tempo passa, as tecnologias avançam, mas a essência do homo sapiens continua a mesma.

Tenho visto no meu entorno um grito, às vezes inaudível, de pessoas que clamam por atenção e afeto. As pessoas só querem ser amadas, respeitadas e valorizadas. O resto é história. Na semana passada, no supermercado que frequento, vi uma conhecida chorando baixinho. Por alguns momentos, hesitei se deveria ou não me aproximar e conversar com ela.

Finalmente tomei a iniciativa de aproximar-me e perguntar se ela estava bem. “Não! Estou triste, despedaçada.” Perguntei como poderia ajudá-la. Ela olhou-me com olhos expressivos e marejados. Andamos um pouco e nos sentamos na cafeteria do supermercado. Sem entrar em detalhes, falou-me que estava triste por escolhas erradas no passado que afetavam sua vida agora. Nos despedimos, e fiquei a observá-la. Quantas vivências essa senhora carregava dentro dela. Quantas lágrimas ainda sairiam de seus belos olhos. A verdade é que todos nós temos nossos infernos particulares. Ninguém está livre deles. O que nos diferencia é a maneira como lidamos com isso.

Quando você aprende a olhar para as pessoas, despido de preconceito, de rótulo, de cargo, de posição social, de poder, de riqueza, tudo muda.  Sabe por quê? Porque você para de julgar e começa a acolher. Você para de se afastar e começa a se aproximar. Ninguém é melhor do que o outro; apenas temos pecados diferentes.

Quando você entende que por trás de uma roupa de grife ou daquela roupa simples existe alguém que chora, que sente dor, que tem medos e que acorda todo dia querendo melhorar e se livrar do que o atormenta, tudo muda.

Com o tempo, aprendemos a não nos assustar com o status alheio e descobrimos que, no fundo, somos todos iguais: aprendizes tentando acertar. Somos seres em busca constante de afetos e atenção.

Num domingo, após um compromisso de trabalho, me encaminhei para o carro. Ao lado, uma Belina marrom, muito antiga, surrada, com um senhor com as portas abertas. Dei-lhe bom dia. Ele respondeu e perguntou se não gostaria de comprar um saco de petas. Comprei dois sacos: um para o amigo Marcelo Augusto, que me acompanhava, outro para mim. Entabulamos conversa, e aquele homem esquálido levantou a camisa, mostrando o corpo franzino, coberto com uma cicatriz enorme e a bolsa de colostomia. Em quarenta minutos, ouvi-o atentamente narrar sua via-crucis. Contou-me que teve um câncer de intestino; fez tratamento brabo e estava usando a bolsa. Falou da alegria em estar vivo, trabalhando, provendo a família. Homem simples, que tem somente o dia para viver, e o coração cheio de gratidão. São pessoas como Wandeley que fazem termos fé na humanidade e vermos que nem tudo está perdido.

Quando você enxerga a essência das pessoas, você se conecta com o que realmente importa. E é aí que a mágica acontece. Suas relações ficam mais leves, seu entorno fica mais belo; seu ambiente profissional fica mais humano, e você descobre uma paz gigantesca dentro de você.

Ter tempo para ouvir o outro nos engrandece. Quantos estão neste momento querendo, tão somente, alguém que os ouça.

Se lhe puder dar uma dica, amigo leitor, querida leitora, sempre que possível, faça esse exercício: olhe para além dos cargos, dos títulos e das aparências. Olhe para a pessoa que está ali à sua frente. É isso que transforma vidas, é isso que constrói pontes e é isso que faz você ser inesquecível na vida de alguém.

Pense nisso. Ouça, inspire, expire. As palavras têm poder. A atenção muda vidas.

 

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Luiz Thadeu Nunes

Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”. E-mail: luiz.thadeu@uol.com.br

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