Entre as cinzas, um alicate e uma vela contam a história de uma missão cumprida — e de vidas interrompidas Imagem gerada por IA
Por André Brito (*)
D ia desses um homem de moto, uniformizado, com capacete e balaclava, chegou à porta da casa da Rua 31, onde morava uma feliz família composta por um casal, duas filhas (uma de 5 anos e outra de 3) e um bebê na barriga da mamãe. A missão do uniformizado: cortar o fornecimento de energia da humilde residência por falta de pagamento. O provedor da família, em momento de desemprego, ganha a vida e sustenta os seus com um trabalho noturno e consegue, com muito sacrifício, levar o “dicumê” pra casa.
Mas a missão dada precisa ser cumprida; caso contrário, o homem de uniforme se transformará também em um dileto desempregado. Sem ao menos conversar com ninguém, o empregado da concessionária puxa o alicate e desfere o golpe nos fios e, abruptamente, interrompe o fornecimento, deixando a todos sem energia. Sem remorso, sem consideração, sem empatia, cumprindo sua ordem de serviço, sai em disparada para outro corte.
Não dispondo dos recursos necessários para pagar a conta e ter o fornecimento restabelecido, a família perde os seus congelados descongelados, passa vergonha perante a comunidade e baixa a cabeça sem ter muito o que fazer. À noite, quando a escuridão tomou conta da casa e o pai saiu em busca de trabalho, o medo se instaurou nas meninas e na dona de casa. Para conter esse medo do escuro, duas velas foram acesas.
A luz do pavio na cera é fraca, mas suficiente para aplacar o pavor das crianças. Sem opções de lazer em casa, todas dormem. Mas a vela decide pregar uma peça sem graça. Ela cai e inicia um pequeno incêndio. Elas dormem. Afinal, dormir é uma forma de não ver a escuridão. O fogo, silenciosamente, começa a se alastrar pelo quarto. Sorrateiramente, as chamas se espalham pelo cômodo, que servia como refúgio do medo do escuro e agora se transforma numa fogueira cruel.
As crianças ficam no quarto.
Sozinhas.
Indefesas.
Inertes.
Mortas.
Carbonizadas juntas. A mais velha sobre a mais nova, como se, na sua inocência, estivesse protegendo a irmãzinha.
Nenhum sopro.
Só os gritos lá fora.
Só gritos…
Era uma vez uma história bonita de duas irmãs e sua família.
(*) Crônica baseada em fatos reais, ocorridos na noite do dia 16 de janeiro de 2023, no mutirão do conjunto João Alves Filho, município de Nossa Senhora do Socorro, em Sergipe.
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