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Nossos desacontecimentos

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“Nesses anos todos testemunhei muita gente se alienar da própria escrita

para não sofrer. É uma alternativa. Bem cara. Para mim essa escolha

nunca foi nem desejo nem possibilidade. Eu era o que escrevia. Sou.”

(Eliane Brum)

 

Germano Viana Xavier (*)

Nascemos e morremos várias vezes durante nossas vidas. Eis uma grande verdade cuja escapatória o homem ainda não soube descobrir. A vida assim é constituída, de ressurreições e falecimentos diários, cotidianos. A memória se serve de algumas porções de história e guarda o que é mais urgente. Mas nem tudo sobrevive às intempéries do tempo, que tritura e dilacera.

Nascer, como podemos suspeitar de antemão, não é uma tarefa das mais fáceis. Morrer dói. Renascer pode doer mais ainda. Desta forma, em pedaços, nossos corpos e corações são feitos para durar até o limite da dor que não podemos suportar. A fronteira entre o que podemos e o que não podemos aguentar está diante do que parece simples, como uma página em branco pousada sob um lápis ou um mero olhar sobre o comum.

Escrever pode ser a salvação quando os nossos nascimentos passam a se confundir com nossas mortes. É sobre a invenção da vida a partir da palavra que trata o livro “Meus desacontecimentos” a história da minha vida com as palavras, da renomada jornalista Eliane Brum. Um livro nada singelo – e até rude – sobre a menina quebrada ou o menino quebrado que pode existir dentro de cada um de nós.

Nossos desacontecimentos podem imperar a qualquer momento, podem nos sufocar, mas também são a partir deles que podemos retirar a maior parcela dos aprendizados que nos conduzirão por toda a nossa jornada vital. Nossos desacontecimentos acontecem todos os dias, ininterruptamente. Enxergá-los com serenidade pode significar a condenação brutal ou o fértil arremate em prol de um futuro melhor, mais digno e justo.

E a palavra, onde entra em tudo isso?

A palavra, como ser-de-fazer-ser, sacrifica-se para produzir a vida que nos falta. Escrevendo somos mais do que sabemos ser. A palavra nos ponteia, transporta-nos para além do que somos ou pensamos ser. A palavra ajuda a fazer travessias. Mas, cuidado: a palavra fere, macula e pode matar. O mundo sem palavras é escuridão, como nos diz Brum. Para sair de local tão funesto, saber ler o banal que nos transforma é talvez a provável saída mais inteligente.

Autobiográfico por excelência, “Meus desacontecimentos” não fica só na área da crônica acerca da infância da autora. É mais um apanhado sobre paixão e amor pela palavra escrita e/ou oralizada/contada do que qualquer outra coisa e merece a atenção do cuidadoso leitor. Brum encanta e desencanta nos encantando, coisa que só os bons escritores conseguem fazer.

 

__________

(*) Germano Xavier nasceu em Iraquara, Chapada Diamantina-Bahia, em 1984. É jornalista pela UNEB e mestre em Letras pela UPE. Publicou o livro Clube de Carteado (Franciscana, 2006). Seu livro de contos intitulado Sombras Adentro (ainda não publicado) foi finalista do IV Prêmio Pernambuco de Literatura (2016). Em 2021, publicou o livro O Homem Encurralado (Penalux); e em 2022 , Esplanada do Tempo, que compreende a segunda parte da Trilogia do Centauro. Escreve para encontrar o equador de todas as coisas.
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Germano Viana Xavier

(*) Nasceu em Iraquara, Chapada Diamantina-Bahia, em 1984. É jornalista pela UNEB e mestre em Letras pela UPE. Publicou o livro Clube de Carteado (Franciscana, 2006). Seu livro de contos intitulado Sombras Adentro (ainda não publicado) foi finalista do IV Prêmio Pernambuco de Literatura (2016). Em 2021, publicou o livro O Homem Encurralado (Penalux); e em 2022 , Esplanada do Tempo, que compreende a segunda parte da Trilogia do Centauro. Escreve para encontrar o equador de todas as coisas.

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