Marx e Engels — Escultura em bronze do artista alemão Ludwig Engelhardt, inaugurada em 1986 Foto: Acerco Canva Pro
“Hegel observa em uma de suas obras que todos os grandes fatos e personagens da história universal aparecem, por assim dizer, duas vezes. Mas esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.”
Karl Marx — O 18 Brumário de Napoleão Bonaparte
“Dominar a metodologia de pesquisa científica de Marx é o problema-chave para quem deseja assimilar a teoria marxista de forma criativa e aplicá-la corretamente na explicação dos fenômenos da vida social do nosso tempo.”
Vitaly Solomonovich Vygodsky — História de uma Grande Descoberta
Por Léo Mittaraquis (*)
A o responder à provocação meia-boca que inicia o título, digo: é aquela coisa… Ninguém ama o que não conhece. Por vezes odeia, o que livra o sujeito do compromisso, ou gosta, sem saber bem por que gosta.
A pergunta é referência bem-humorada à obra dramatúrgica (teatro) “Quem Tem Medo de Virgínia Wolf?”. Peça que até virou filme, com Burton e Taylor, salvo engano.
Ninguém tem medo de “O Capital”. E isto é fato. E por que cargas d’água, como diriam os intrépidos marujos portugueses, ter-se-ia medo?
Não, medo, não. Nem dos escritos em vida, nem dos escritos póstumos. Muito menos dos escritos de seus seguidores. Entre estes, alguns, como Erich Fromm e Hans-Georg Flickinger, manifestaram-se bem incisivos em suas críticas a Marx.
Outros que adotaram a perspectiva marxista para analisar e explicar, até mesmo, o fenômeno Literatura, optaram por adaptar o pensamento de Marx, a exemplo de György Lukács e de Terry Eagleton, proeminentes críticos literários.
A obra (normalmente, em três volumes) é densa e, de modo justificado, sem dúvidas, prolixamente didática. Seu conteúdo, como o próprio Marx adverte, foi construído aos poucos, incluindo os conceitos.
Ah, pra começo de conversa, seja qual for a tendência ideológica do(a) pretenso(a) intelectual coerente e consciente, o mais comum é ouvir deste(a) que “O Capital” é obra de tal densidade, de tal complexidade, de tal, até obscuridade, que sua leitura representa um quase intransponível obstáculo que desafia até o mais arguto exegeta.
Nada disso, homi! Nada disso, muié! Marx não escreveu “O Capital”, “A Ideologia Alemã”, “A Questão Judaica”, “A Miséria da Filosofia”, “O 18 Brumário de Napoleão Bonaparte” e “A Diferença entre a Filosofia da Natureza de Demócrito e a de Epicuro” (sua tese de doutorado), para não ser compreendido. O corpo textual é complexo, entretanto, não é irremediavelmente complicado.
Marx, de início, com a publicação do volume um, e Engels, com a edição/publicação dos dois outros volumes, certamente tinham ciência de que estavam a entregar, por assim dizer, ao mundo uma obra para aquele presente, mas, também, para o futuro que logo chegou e que prossegue ainda hoje, independentemente das notórias deturpações promovidas pela canalhada d’ambos lados e centros.
Juntem-se a isso as publicações dedicadas à Teoria da Mais-Valia, realizadas não mais por Engels, que falece em 1895, mas, sim, por Karl Kautsky, entre o final do século 19 e início do século 20. Estas últimas foram, ao longo dos anos, sob críticas à forma um tanto “livre” pela qual Kautsky reuniu os escritos póstumos, reorganizadas e republicadas.
A produção pragmático-teórica de Karl Marx foi, é, e ainda será, por muito tempo, como bem observava meu saudoso e grande mestre Eurico Amado (in memoriam, antigo PCB), a magistral decodificadora das abstrações reais que constituem parte considerável da sociedade capitalista.
Não significa, bem entendido, que outras percepções adotadas, como as de Keynes, Hayek, Böhm-Bawerk (este, recomendo em especial), não tenham elaborado interpretações muito interessantes e elegantes. E são leituras essenciais num estudo cuidadoso e comparativo.
Todavia, Marx ainda ocupa o posto de popstar. E pode ser compreendido, sim. Há objetividade flagrante no que concerne ao rigor científico e metodológico. Assim, se há algo que marca indelevelmente o modus operandi do genial renano-trevirense, é a preocupação com a clareza, com a concretude, com as fontes consultadas e verificadas.
Some-se, também, em meio a outras observações significativas, a teoria sobre o fenômeno “fetichização da mercadoria”. Algo genial, pois, quando apresentado e explicado por Marx, nos faz pensar: “Olha só! Não é que é mesmo?”. Em tempo: outros pensadores, no campo da filosofia político-econômica, rebaterão, a exemplo de Baudrillard, e sua denominada virada conceitual. Quem ganha, e muito, com isso, é o leitor zeloso.
Então, ler e estudar “O Capital”, de Karl Marx, requer o que requer qualquer obra de interesse, notadamente as grandes obras clássicas e universais, seja qual for o gênero: leitura lenta e atenta. Ou seja, exige estudo sistemático, permanente, recorrente.
Oh, sim, reconheço: e isso é chato, exaustivo… Porém, inexistente leitor destas mal traçadas linhas, supere com galhardia as dificuldades do volume um, e a leitura dos dois seguintes transcorrerá de boas.
Não que se torne água com açúcar, de modo algum. Porém, a base obtida mediante o primeiro volume ajudará muito na compreensão do restante.
Enfim, minha desimportante intenção é, sob quixotesca lente, talvez induzir uma só pessoa a tomar a decisão de ler, de verdade, cada volume de “O Capital”. E digo ler bem aos poucos, sem pressa, concedendo a si um prazo justo e confortável. Uns dezoito meses, quiçá. Equivale a um volume a cada seis meses.
No entanto, o prazo, o tempo, torna-se um pouco maior: para além da leitura de cada volume, há as anotações, a busca dos aportes teóricos de boa procedência (alerta, inexistente leitor ⚠️ — fuja do David Harvey, se quiser, de fato, compreender a obra, o pensamento de Marx).
Bem, este presente e mísero fólio é fruto de uma inquietude, a qual, nos últimos anos, tem acossado minha depauperada pessoa, provocada pelo intermitente e lamentável caso: o de, vez por outra, ouvir pseudo-meiaoitistas (há-os às miríades) citar Marx, “O Capital”, e os grandes (tão somente os decentes e coerentes, bem entendido) teóricos marxistas, de Engels (incluindo o indispensável V.S.Vygodsky) a Althusser.
Seja à direita (para negá-lo, desqualificá-lo) ou à esquerda (para incensá-lo, mitificá-lo), os equívocos, as bobagens, as mentiras, as idiotices proliferam, não de hoje, mas até hoje, à larga, quanto à obra e ao autor. E desde há muito perduram.
Ignorar algo, no caso, aqui, um clássico da filosofia político-econômica, não é pecado, não significa mancha moral na alma e nem na trajetória pessoal de vida de cada um. Digo, inclusive, por mim, que desconheço tanto de tantas coisas sobre o assunto… Há, como diria Nietzsche, tantas auroras que jamais vi e tantas outras que jamais verei…
Erro crasso é palrar a todo momento sem conhecimento de causa. É estufar o peito, com arrogância, sem, de fato, conhecer bem, ou razoavelmente, sobre o que fala e propaga. Fui e ainda sou pobre vítima idosa e indefesa desses exterminadores da boa conversa abalizada.
Explico: volta e meia, querendo tão somente manter-me a sós, com minha muito amada Imperatriz, num prosaico momento à mesa dum boteco, bebendo uma pilsen (sim, eu sei: cerveja de amador), sou surpreendido (nem tanto) por um indignado que, sem ter lido coisa alguma e sem permissão, teima em sentar e destilar sua logicice diarreica (Ops! dialética, quis dizer) por horas. Oh, tortura única!
Oremos!
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