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Espírito comunitário, educação e responsabilidade cristã – os 60 anos da Campanha da Fraternidade

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Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

O contexto político do Brasil não era dos melhores. Uma sombra cinzenta caía sobre a nação, sob as hostes de alguns civis e militares, movidos por ideologias exageradamente conservadoras, preconceituosas e autoritárias. Ironicamente, instalava-se no país um regime ditatorial que tinha como principal aporte a máxima hipócrita de “Deus, Pátria e Família”.

Assim como do lodo também nascem flores e a esperança, em 1961, em Nísia, Floresta, Arquidiocese de Natal-RN, por iniciativa de dom Eugênio de Araújo Sales (1920-2012), envolvendo padres que trabalham em parceria com a Cáritas, aconteceram as primeiras iniciativas do que passou a se chamar mais tarde de Campanha da Fraternidade (CF), oficialmente para todo o Brasil a partir do dia 20 de dezembro de 1964.

Aquele exemplo de Natal não tardou a entusiasmar outras regiões do país, primeiro pelo Nordeste e depois chamando a atenção da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, fundada em 1952. Vale salientar, também, que foi num ambiente clerical e teológico favoráveis que as sementes foram lançadas e logo germinaram: Concílio Vaticano II (1962-1965).

Ano após ano, a CF foi ganhando força e consistência. Ao passo que o regime militar endurecia, o coração da Igreja no Brasil se abria para os mais necessitados, para ações que favorecessem os excluídos da sociedade, apontando e denunciando os inúmeros males sociais que feriam a dignidade humana, mas também, provocando e levando adiante ações concretas, algumas delas vistas até mesmo, pasmem, como “comunistas”.

De 1967 até a presente data, a CNBB elabora e oferece à comunidade um subsídio não somente para cumprir o tripé da Quaresma (oração, jejum e caridade), mas também para que este último aspecto se efetive em “uma ação humana de caráter divino”, como nos lembra o Frei Júnior Mendes, OFM, na Folhinha do Sagrado Coração do dia 14 de fevereiro do ano em curso.

Todos os anos, a Igreja a partir deste subsídio propõe um tema e um lema. O tema de 1964 foi “Igreja em Renovação” e o lema “Lembre-se: você também é Igreja”. Foram os vários os elementos da vida humana em discussão, alguns deles marcando história, como a questão da fome e do cuidado com a casa comum. Com textos altamente fundamentados, a CF toca nas feridas e chama a atenção de todos para saírem da contemplação cômoda e partir para fazer algo que efetivamente mude a vida das pessoas, como o Cristo o fez e faz.

O tema deste ano é “Fraternidade e Amizade Social” e o lema “Vós sois todos irmãos e irmãs” (Mt 23,8). Na apresentação do subsídio de 2024, dom Antônio Tourinho Neto (bispo da Diocese de Cruz das Almas-BA), ressalta: “O Convite da Campanha da Fraternidade é para sairmos, sermos missionários, Igreja itinerante…” (p. 4).

Bispo de Estância, José Genivaldo Garcia Foto: Ascom/CNBB

Em seu pronunciamento oficial, dom José Genivaldo Garcia, bispo de Estância-SE, no que diz respeito não somente ao tempo quaresmal e de igual modo à vivência da CF de 2024, afirma que: “A Igreja quer nos lembrar que todos somos irmãos, filhos do mesmo Pai, e ela quer provocar em nós a amizade social, o respeito pelo outro”, destacando, de modo especial, uma das passagens do subsídio que diz que “devemos alargar a tenda de nosso coração”.

Que a CNBB, com a mercê de Deus, continue a favorecer aqueles que vivem à margem da sociedade. Particularmente, entendo que sua importância vai além do mundo espiritual. Em tempos de turbulência política, por exemplo, têm sido, historicamente, uma guardiã das liberdades individuais e para além das ideologias, têm primado, sobretudo a partir da CF, por tornar o país mais justo, mais fraterno e mais humano.

 

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Claudefranklin Monteiro

Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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