Mídia, Cultura e Ebulições

Debaixo dos escombros da cultura, algumas boas histórias

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Por Luciano Correia (*)

 

Margareth Menezes não é o que se pode chamar de uma grande gestora. O cargo de ministra está centímetros acima de seu talento como cantora. Boa nos palcos, pífia nos gabinetes. Só está na fila do pão porque tem madrinha forte, a primeira-dama Janja. Mas, como diria o líder do governo no senado, Randolfe Rodrigues, é o que temos. De perto ninguém é normal. O próprio Randolfe, em suas andanças cata-votos pela sua terra Amapá, se faz acompanhar dessa iniquidade chamada Davi Alcolumbre. Mas essa semana ele pôs o dedo numa ferida.

Tudo começou com uma fala do ator global Wagner Moura (não do globo terrestre, se me entendem, mas da Rede Globo) reclamando cotas e verbas para o que ele chama de “setor do audiovisual”. Os pequenos produtores do audiovisual talvez comprem esse gato como lebre, como se o discurso de Wagner fosse comum à sua luta por espaços, verbas e reconhecimento. Calma lá, que aí tem tubarão grande no jogo. Wagner Moura, em matéria de cinema, é o que melhor representa hoje no Brasil a indústria cultural, o cinema do mainstream, dos grandes negócios.

O ator reclamou do que considera a baixa taxação das plataformas de streaming no projeto que o governo Lula está concluindo. Talvez tenha razão na defesa de uma contribuição maior por parte dessas grandes operadoras, mas não disse para onde e nem para quem seriam destinados esses recursos. Daí, engatou uma crítica dura ao governo, culpando-o por não aprovar uma lei mais generosa para o audiovisual nacional e atacando, por fim, o saco-de-pancadas da hora, nosso famigerado Congresso Nacional.

O líder Randolfe saiu de uma covardia tácita e mordeu a isca da fala marxista-leninista do nosso Guevara do Jardim Botânico. É que Moura, segundo ele, por não ter o telefone de Margareth Menezes, resolveu mandar seu inflamado discurso para a eminência parda da cultura brasileira, a mulher de Caetano Veloso, Paula Lavigne. Isso em público, pelo Instagram. Lavigne, como os artistas situados fora do bilionário eixo Rio-São Paulo da cultura nacional sabem, é uma mulher de negócios. Sabe abrir portas para ela e seus caetanos. Está em todas, a começar pela Lei Rouanet, um instrumento formidável de fomento à cultura, mas com o pequeno defeito de não funcionar de forma justa e democrática. Lavigne é quem mais conhece o significado daquele ditado que diz que o rio só corre para o mar.

E o melhor da história vem agora. Talvez cansado de apanhar de todo lado, inclusive no interior de um governo que ele mesmo lidera, Randolfe Rodrigues revelou uma coisinha de bastidores que é uma joia do caráter “cidadão” dessa turma platinada: foi a mesma Paula Lavigne quem percorreu gabinetes brasilienses em poderoso lobby para emplacar no Ministério da Cultura o gestor da Ancine, a Agência Nacional de Cinema. Ou seja, em público as lavignes e mouras jogam para as cordas um governo que apanha de todo lado, sangrando a cada dia sob as ameaças do golpismo permanente de uma direita que impede a democracia desde a Primeira República.

Do outro lado, o secreto, igual ao orçamento infame, também secreto, os comunistas-boys do doutor Roberto Marinho atuam na disputa dos cargos. Chamar isso de fogo amigo é não compreender o que é amizade, não? Nordestino como nós aqui, Wagner Moura adora nossa culinária típica. Não é à toa que exerce com rigor e satisfação a máxima de que “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

 

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Luciano Correia

Jornalista e professor da Universidade Federal de Sergipe

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