Passei a vida inteira querendo chegar longe… e, hoje, sinto saudade de onde tudo começou Imagem: Pixabay
Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)
Acordo sorumbático. Ando cansado de dias tensos. Reluto em sair da cama. Não há como ficar deitado. Compromissos me aguardam. Olho para o teto em busca de forças para iniciar mais um dia. Sou otimista, ou melhor, “realista esperançoso”, como diria o paraibano Ariano Suassuna. Mas está complicado encarar as agruras do dia. Fecho os olhos, oro aos céus em busca de alento. Sei que a “vida exige da gente coragem”, nas palavras do mineiro João Guimarães Rosa.
Fecho os olhos novamente. Algo sobrenatural percorre o corpo. Tento identificar. Melhor, não. Melhor, só sentir. Melhor deixar passar. Seguir em frente é imperativo.
Ontem, a convite do jornalista maranhense, radicado em Brasília, Paulo Abreu Figueiredo, dei uma entrevista para o programa “Cidadania: histórias cidadãs”, da TV Senado, Brasília, DF.
Conheço Paulo Figueiredo desde quando era médico, antes de migrar para o jornalismo, no qual se realizou.
Na entrevista, ao ser perguntado como encaro a vida, respondi:
“Viver é construção contínua e permanente, é saber se adaptar às diferentes situações”.
Falei de minha adaptação após o grave acidente automobilístico que sofri em julho de 2002 e de como passei a me posicionar diante da vida.
Recentemente, em outra entrevista, fui perguntado qual o dia mais feliz da vida. Demorei um pouco a responder. Rebobinei a memória. Lembrei de viagens, de quando ganhei uma promoção, de quando meus filhos nasceram ou de quando recebi uma quantia vultosa. Mas não. Provavelmente foi um dia qualquer, em que estava calmo, inteiro, sem expectativa de algo por vir.
Às vezes, a vida acontece naquilo que fazemos sem pressa: um café no final de tarde, sem olhar para o relógio. Uma conversa demorada com amigos ou a pessoa amada. Ter por perto a presença da pessoa que nos faz bem. Aprendi que nem todo momento precioso chega fazendo barulho.
Passei a vida inteira querendo chegar longe… e, hoje, sinto saudade de onde tudo começou.
O tempo possui uma pedagogia cruel porque frequentemente revela o sentido das coisas depois de retirar de nós a possibilidade de vivê-las novamente.
Suas lições chegam disfarçadas de acontecimentos: um amor que termina, uma amizade que se desfaz, um corpo que envelhece, um amigo que parte de repente. Uma oportunidade que não retorna, uma ausência que se instala onde antes havia uma presença indispensável. Mas quase sempre depois que a aprendizagem já perdeu sua utilidade imediata.
Descobri o valor de certas pessoas quando elas já não estão mais ao meu lado. Compreendi a importância de determinados instantes quando eles se transformaram em memórias. Percebi que deveria ter dito algumas palavras quando já não existe ninguém para ouvi-las. Entendi a fragilidade da saúde quando o corpo começou a cobrar os abusos cometidos durante os anos em que julguei invulnerável.
As respostas que tanto busco talvez estejam no fato de que nenhuma compreensão é inteiramente tardia enquanto ainda existe desejo e a necessidade de mudá-la.
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