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Por Luiz Thadeu Nunes (*)

 

Desde cedo Tobias mostrou a que veio, era diferente de todos os garotos de sua idade, e até dos mais velhos. Excessivamente curioso, tinha perguntas desconcertantes para todos, o tempo todo. Seu baú de perguntas nunca acabava. Sempre renovadas.

Ainda pequeno, na aula de catecismo, perguntou:

– Professora, é verdade que fomos feitos à semelhança de Deus?

– Sim, Tobias. Somos criaturas de Deus, feitos à sua semelhança.

– Quem disse isso, professora?

– A Bíblia, as Sagradas Escrituras.

– Então, professora, se somos igual a Deus, me responda, Deus solta pum? Deus faz xixi e cocô?

Riso geral na turma. A professora, atônita, não sabia o que responder, mas não podia perder o controle da turma.

– Professora, se Deus soltar um pum, ele acaba com tudo. Seria o maior estrondo do mundo.

Mais risos, as crianças em polvorosa, e a professora perdida.

– Crianças, vamos para o recreio.

Ela foi até a coordenadora e relatou o que ouviu de Tobias.

– Minha Nossa Senhora, vixe Maria,  nunca pensei nisso. Como vamos responder isso para esse garoto.

A professora voltou para a sala, entreteu a turma com jogos e terminou a aula. Tobias foi brincar com os colegas.

Assim cresceu Tobias, com muitas curiosidades e inúmeras indagações.

Todos no seu entorno achavam, e até apostavam que Tobias seria cientista. Já o viam na NASA, colocando os estudiosos de lá no bolso. Mas Tobias era apenas um curioso, especialmente do sistema digestivo, não passou disso. Para arranjar uma namorada era problema sério. As perguntas desconcertantes afugentavam as pretendentes. Sempre com uma pergunta estapafúrdia, ruborizava as moças, que picavam a mula.

Mas, como dizia minha avó Olindina: “sempre há um sapato velho para um pé descalço”, Tobias encontrou Gonocélia, falante e perguntadeira. Gonocélia era o terror dos pais. Observadora astuta, vivia a colocá-los em situação difícil.

Visitar os parentes, levando Gonocélia junto era certeza de embaraços e algumas vergonhas.

Moradores da periferia, aos domingos à tarde, era sagrado a família de Gonocélia visitar os parentes mais afortunados, que moravam no centro da cidade. No caminho, mil recomendações para a menina:

– Por favor te comportas, não fica olhando muito para as pessoas e nem para as coisa. Não suja o vestido, senta de perna fechada.

Olhar perdido, Gonocélia fingia que não era com ela.

– Só come se te oferecem, nada de perguntar por merenda. Entendeu, Gonocélia?

Era só chegar à casa dos parentes que Gonocélia perguntava.

– Mãe, que horas vamos merendar? Aqui não é casa dos parentes ricos?

– Menina, olhas os modos, nós acabamos de chegar. Fica quieta.

– Mas eles vão servir alguma coisa?

A mãe com os olhos a sacar da órbita:

– Menina, desse jeito teus tios vão pensar que tu passas fome lá em casa.

Assim cresceu Gonocélia; já adulta começou a namorar Tobias.

Com o passar do tempo, cada um ficou especialista em fazer perguntas capciosas para o outro.

Morando juntos, no café da manhã, Gonocélia tomava calmante seu desjejum, quando Tobias à queima-roupa lhe perguntou.

– Quantas pregas tem um c*?

– O meu ou o teu?

– Assim tu me desconcerta, Gonocélia.

– Nós que gostamos de fazer perguntas, não podemos ter vergonha. Tu envergonhado é algo novo pra mim.

– Pergunta pra Alexa, disse ela.

– Alexa, quantas pregas tem um c*?

O Google responde

– Desculpe, mas essa pergunta não vou lhe responder.

Com o smartphone em mãos, Tobias digita no Google: “Quantas pregas tem o c*?

Resultados da pesquisa! Trecho da Web em destaque:

“Aproximadamente 6 a 10 dobras verticais da mucosa, submucosa e camada muscular circular. Encontradas na metade superior do lúmen do canal anal”.

Assim, graças ao Google, Tobias, Gonocélia, você, caro leitor, amiga leitora e eu ficamos sabendo quantas pregas temos no ofício circular, rugoso, localizado na parte inferior lombar da região glútea de um indivíduo. Inclusive no meu e no seu.

Podemos até não gostar de um cu-rioso, mas graças a ele, que não tem vergonha de perguntar, ficamos sabendo de muitas coisas.

 

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Luiz Thadeu Nunes

Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”. E-mail: luiz.thadeu@uol.com.br

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