Outras palavras

The Last Kingdom – fundação da Inglaterra

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Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

Finalmente, dei conta de fechar mais uma série e, por tabela, emendei num filme a ela relacionada diretamente. A maratona começou em outubro de 2023. Depois de cinco temporadas e cinquenta episódios, pude compreender, com a colaboração da arte cinematográfica e com todas as suas limitações e “licenças poéticas”, um pouco mais da formação complexa de uma das maiores nações da Europa. No que se constituiria mais tarde num dos primeiros Estados Modernos do mundo e também um dos grandes impérios econômicos, bélicos e culturais do tempo presente.

Nesse sentido, fiz a sua análise a partir de dois teóricos importantes: Norbert Elias (1897-1990) e Michael Pollak (1948-1992). O primeiro, no que diz respeito às origens do processo civilizador e dos Estados Nacionais na Europa, muito elucidador nessa perspectiva. Aliás, temas de duas das suas principais obras. O outro, para compreender as chamadas “batalhas da memória” (e olhe que não faltaram cenas de batalhas na série/filme, com uma reconstituição histórica de grande qualidade).

A série “The Last Kingdom (O Último Reino – 2015-2022) e o filme “O Último dos Reinos, Sete Reis Devem Morrer” (2023), de Stephen Butchan, são uma produção da Netflix e da BBC Two. Ambientados entre os séculos IX e X, nos últimos suspiros do Feudalismo, The Last Kingdom gira em torno do protagonismo do guerreiro Uhtred (o Senhor de Bebbanburg), interpretado por Alexander Dreymon, cujo enredo atravessa três reinados diferentes, com reis da mesma descendência hereditária: Alfredo, Eduardo e Etelstano. Este último, considerado o fundador da Inglaterra, embora o ideário tivesse sido iniciado por seu avô, Alfredo, que faleceu antes de concretizá-lo.

Importante citar aqui, para título de ilustração e compreensão, um trecho do segundo volume do livro “O Processo Civilizador” (1993), de Norbert Elias: “(…) Resta mostrar a dinâmica básica dos processos através dos quais um único dos grandes senhores feudais ou territoriais – o rei – assumiu preponderância sobre os demais, e a oportunidade de controlar um governo mais estável em uma região que abrangia muitos territórios, um “Estado” (p.85).

No caso da Inglaterra, também há necessidade de pôr fim aos inúmeros conflitos bélicos que ocorriam entre daneses (“pagãos”) e anglo-saxões (cristãos), tendo a Casa de Wessex, um dos últimos sete reinos da antiga Saxônia Ocidental, como ponto de referência e resistência às invasões dos povos nórdicos. A série/filme, para além de se basear na História, também faz uso, de modo particular, das famosas Crônicas Saxônicas (2004-2020), romances históricos (portanto com a licença da arte literária), de autoria de Bernard Cornwell (1944).

Para meus alunos de História e Memória, da Universidade Federal de Sergipe, à luz das considerações de Pollak, vimos que é possível detectar na série/filme os movimentos de apropriação da memória, tais como: “o dito” (as Crônicas Saxônicas), “o não-dito” (esquecimento/resistência/História) e “o representado” (a arte cinematográfica), sobretudo quando o sociólogo alemão assim o diz: “(…) o trabalho de enquadramento da memória se alimenta do material fornecido pela história; limitado pela credibilidade que depende da coerência dos discursos sucessivos” (1989, p. 8).

Ao passo que, no primeiro movimento, Uhtred foi um sujeito histórico cujas virtudes foram subsumidas em razão do ego dos que ele serviu e da condição de se manter livre (saxão e danês / “cristão” e “pagão”), numa época (vassalagem) em que a liberdade era uma ofensa; nos demais movimentos ele submerge do esquecimento, ora com um importante sujeito para a fundação de uma Inglaterra (militarmente falando), ora como um superestimado herói inglês, idealizado pela indústria cinematográfica.

Considerações e contestações à parte, a arte sempre será bem-vinda ao campo da História, levando-se em conta, claro, os filtros necessários. E nesse sentido, Last Kingdom presta um grande serviço ao ensino de história, mas também à discussão, no tempo presente, em torno da memória e dos usos e abusos que faz dela, notadamente por políticas que exploram a identidade não como pertença, mas como joguete de dominação, submissão e poder.

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Claudefranklin Monteiro

Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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