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Por Luciano Correia (*)

 

O futebol e sua magia. A Associação Olímpica de Itabaiana entrou em campo hoje à tarde na Arena Pernambuco, um dos estádios que vai realizar jogos pelo mundial feminino. Do outro lado, o Retrô, um time construído por um ex-dirigente do Sport Recife, um desses clubes planejados pela visão empresarial, de gente que sabe fazer futebol, ganhar títulos e dinheiro – sobretudo dinheiro – porque nesse país ninguém é de ferro.

De um lado, um sofrido clube que resiste praticamente sem apoio do mesquinho comércio local, feito, pois, de homens mesquinhos. Resiste aos árbitros camaradas do futebol sergipano, que torcem, em estúpida maioria, pelo Confiança, enquanto os que não apitam para o Dragão, mexem suas palhas nos gramados para o Sergipe. Do outro, o Retrô, cada vez mais ranqueado no futebol pernambucano e nordestino, com uma folha salarial cinco vezes maior do que a do Tremendão da Serra.

O futebol e suas artimanhas. O atleta Fernandinho, ex-São Paulo, Atlético Mineiro, Grêmio e clubes do exterior, é o maior salário de todo o Nordeste, mesmo se comparado com tubarões como Sport, Bahia e Fortaleza. Foi esse time que pegou o Tricolor da Serra em casa hoje à tarde. A cidade de Itabaiana está de alma em festa: seu querido e sofrido Tremendão bateu o poderoso Retrô por 2 a 1. O Retrô, sim, tem uma folha salarial maior do que a do glorioso Santa Cruz, aquele que, mesmo em peladas do estadual, bota 50 mil torcedores no Arruda.

O futebol e suas manhas. O Itabaiana fez um a zero antes de dez minutos de jogo. O juiz anulou. Depois fez um gol daqueles que nem o saudoso Armando Marques anularia. Passo seguinte, teve dois pênaltis claros anulados, daqueles que nem os apitadores pró Sergipe e Confiança anulariam. Daí o Retrô se sentiu, de fato, em casa. Fez o gol de empate.

O futebol e sua caixinha de surpresas. O time da Serra de Itabaiana foi melhor em 80 dos 90 minutos do jogo, isto se a partida, como em todos os quadrantes dessa terra plana, fosse jogada em 90 minutos. Como o rio só corre pro mar, em Pernambuco do rico Retrô a peleja durou 54 minutos. Mas os ceboleiros se lembraram que foram campeões do Nordeste em 1971, e essa memória foi decisiva para o gol aos 40 do segundo tempo. Como os pênaltis anulados e a marcação cruel contra o clube sergipano não funcionaram, um último recurso do amigo do apito: o juiz deu 6 minutos de acréscimo, como já citado.

O futebol e a lei de Deus. Como essa prorrogação infame ainda acusava domínio sergipano, o incrível apitador resolveu dar mais três. Só que hoje foi daquelas tardes em que Deus entrou em campo, era o décimo segundo jogador fardado com as cores da gloriosa revolução francesa. A cidade e o time do Itabaiana fizeram história mais uma vez na enciclopédia do futebol nordestino.

Em tempo: Eu mesmo não, que sou um pacifista e apaixonado pelo futebol sergipano. Mas o filósofo Mané Veneno, celebridade das ruas do Augusto Franco, vibrou com a derrota do Sergipe ontem, em casa, para o modesto Petrolina, confirmando sua posição na lanterninha. E mais ainda com a derrota do Dragão (Draguinha?) para a Ferroviária de Araraquara e se afundando na rabada da Série C. Sim, o Itabaiana é o líder de seu grupo, entre os quatro que passam para a fase seguinte.

* Essa crônica foi escrita na tarde do domingo, pouco depois da partida narrada por este cronista esportivo da várzea, mas resolvi mantê-la no tempo do domingo, para não retirar o calor da hora que me moveu a escrevê-la.

 

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Luciano Correia

Jornalista e professor da Universidade Federal de Sergipe

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