Articulistas

O Brasil é um país injusto (e por opção!)

Compartilhe:
Economia Herética

Por Emerson Sousa (*)

O Brasil é um país desigual e iníquo. Disparidades sociais são a nossa principal marca. Pior, a naturalização da injustiça é o predicado que nos define. Para cada absurdo há alguma opinião “moderada” que o justifique.

No país, esforços governamentais nos últimos anos criaram uma situação na qual 41,5% dos trabalhadores ocupados vivem na informalidade. Com o agravante de que, se entre brancos essa proporção é de 34,6%, entre negros e pardos está em 48,3% da força de trabalho. Lembrando que um trabalhador formal ganha, em média, pouco mais que o dobro de um trabalhador informal.

Do mesmo modo, se a remuneração média das pessoas ocupadas, segundo a PNAD/IBGE, é de R$ 2.163,00 mensais, para o homem é de R$ 2.382,00 e para a mulher é de R$ 1.874,00. Para brancos, é de R$ 2.796,00 e para negros e pardos é de R$ 1.608,00. Para jovens entre 14 e 29 anos, esse montante é de R$ 1.366,00, ao passo que para profissionais mais maduros ele passa de R$ 2.358,00 mensais.

Por sinal, a taxa de desemprego fechou o ano de 2019 em 12% da força de trabalho. Contudo, para mulheres foi de 13,8%; para negros, 14% e para jovens entre 14 e 29 anos de idade foi de 22,3%. Então, imagine o inferno que deve ser estar no lugar de uma jovem negra à procura de seu primeiro emprego.

No contexto de distribuição de renda nacional, os 10% mais bem remunerados recebem algo em torno de R$ 9.369,00 mensais. Por outro lado, aqueles que compõem os 40% de menor rendimento recebem algo próximo a R$ 720,00 por mês (sim, menos de um salário mínimo), numa funesta razão de 13 vezes entre esses níveis salariais.

Atualmente, 25,3% da população brasileira vive com menos de US$ 5.50 por dia. Dentro desses, outros 6,5% passam com menos de US$ 1.90 por dia, que é a medida internacional de extrema pobreza.

Ressalte-se que esse último percentual equivale à soma das populações de cidades como Rio de Janeiro (RJ), Brasília (DF), Salvador (BA) e Maceió (AL), enquanto o anterior ao de quase o total de habitantes da região Nordeste. Ou seja, a nossa população é pobre!

Muito dessa pobreza advém do fato de que durante décadas o nosso desenvolvimento foi espacialmente concentrado. A tal ponto que, com base no ano de 2017, apenas três estados, que concentram 40% da população – São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro – são responsáveis por 51% da riqueza gerada no país.

Consequentemente, as demais unidades federativas, sobre as quais repousam 60% dos brasileiros, precisam repartir entre esses 49% do produto interno bruto. Resultado: o produto per capita dos três maiores (R$ 40,6 mil) é mais de uma vez e meia dos demais (R$ 25,7 mil).

Contudo, quem puxa essa média para baixo são as regiões Norte (R$ 20,5 mil) e Nordeste (R$ 16,6 mil), já que as outras três detêm um valor médio de R$ 39,8 mil, aproximadamente.

O Brasil ainda impede que 12,8% de sua população tenham condições dignas de moradia (desses, 4,8% sofrem com aluguéis que abocanham mais de 30% de sua renda), também faz com que 27,6% de seus habitantes padeçam com restrições de acesso à Educação e que outros 37,2% não possuam serviços básicos de saneamento.

Muito embora 97,4% das crianças estejam matriculadas no ensino fundamental, a evasão escolar faz com que essa proporção decaia para 86,7% nos anos finais dessa fase do aprendizado. Apenas 34,2% das crianças de zero a três anos de idade estão na pré-escola.

Isso, com certeza, deve ter relação com o fato de que 1/3 de nossa população adulta possui somente o ensino fundamental, mais 26,9% completou o ensino médio e somente outros 16,5% dos brasileiros possuem o ensino superior.

Atualmente, 23% de nossos jovens de 15 a 29 anos não estudam e não estão ocupados, ao passo que quase 35% apenas estão ocupados. Somente se dedicando aos estudos, nós temos pouco mais de 28%.
Ainda assim, as perspectivas não são nada boas.

Afinal, as funções de segurança pública, saúde, trabalho, educação, cultura, direitos da cidadania, urbanismo, habitação, saneamento, transporte e desporto e lazer, áreas que afetam diretamente o bem-estar geral, e que, em 2014, cobriam 16,4% do gasto federal, viram a sua parcela cair para 13%, em 2019.

Enquanto isso, a despesa com encargos especiais, que é composta basicamente por amortizações e juros da dívida pública, saiu de uma fração de 39,8%, naquele primeiro ano, e foi para 42,4% do dispêndio efetivo, nesse último.

E esse último exemplo mostra que a nossa iníqua estrutura de distribuição de renda e de severas restrições a uma vida digna é uma opção política de nossa sociedade. Isso porque, nos últimos cinco anos, nós tiramos 3% do gasto público das mãos dos pobres e colocamos no bolso dos ricos.

(*) Emerson Sousa é doutor em Administração pela NPGA/UFBA e mestre em Economia pelo NUPEC/UFS.

Compartilhe:
Emerson Sousa

Doutor em Administração pelo NPGA/UFBA e mestre em Economia pelo NUPEC/UFS

Posts Recentes

CCJ do Senado aprova PEC que acaba com jornada 6×1

  A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou, nesta quarta-feira (2), por votação…

8 horas atrás

Empresários pedem adiamento, mas Senado acelera PEC do fim da escala 6×1

CNC defende que votação fique para depois das eleições, enquanto proposta avança na CCJ e…

9 horas atrás

Minha notória estultícia natural

    "O que sei eu?"   Michel de Montaigne   uma vez por todas,…

15 horas atrás

Prazo para empresas optarem por Simples Nacional começa nesta terça

As micro e pequenas empresas devem estar atentas. Começa nesta terça-feira (1º) o prazo de adesão…

2 dias atrás

   Confiança: da alegria à vergonha social

  Por Valtênio Paes de Oliveira (*)   m textos anteriores, nesta coluna, tratamos da…

2 dias atrás

Empreendedores do bairro Santa Maria, em Aracaju, contratam R$ 9,5 milhões com Crediamigo

  Maior parte dos financiamentos é aplicada entre mulheres da localidade (76,8%). Dados são de…

2 dias atrás