Juntar as cicatrizes e dar um novo significado à vida
Por Heuller Roosewelt Silva Melo (*)
Vivemos cercados por promessas de finais perfeitos, como se o sentido da existência morasse apenas no desfecho, na tal luz que brilha ao fim de um túnel interminável. A verdade é que a vida nunca esteve lá na frente; ela sempre esteve debaixo dos nossos pés. São as pequenas luzes acesas no meio do caminho – às vezes tímidas, às vezes ternas – que nos revelam quem somos. Não chegamos ao que somos apesar das cicatrizes: somos o que somos exatamente por causa delas, como uma obra que ganha valor justamente pelas suas marcas adquiridas com o tempo.
O cotidiano, tantas vezes subestimado, é o palco onde a vida realmente acontece. É ali, entre uma xícara de café compartilhada e uma palavra dita ao acaso, que a convivência se reafirma em forma de amizade ou, mais ainda, de amor. Esse laço não se sustenta em grandes gestos teatrais, mas na presença genuína vivenciada e repetida todos os dias.
Uma antiga arte japonesa, o Kintsugi, oferece uma poderosa metáfora para essa compreensão. Ao reparar uma peça de cerâmica quebrada, o artesão não esconde as fissuras, mas as preenche com uma laca misturada a pó de ouro. As rachaduras, em vez de serem vistas como falhas, tornam-se as protagonistas da nova estética do objeto, contando uma história de resiliência e superação. A peça não é simplesmente consertada; ela é transformada, tornando-se mais única, valiosa e bela do que era antes de se partir.
Assim como a resina do Kintsugi não endurece de um dia para o outro, a alma também precisa de tempo para se reorganizar. É preciso saber parar, absorver, sofrer com dignidade e permitir que aquilo que nos partiu se torne matéria de reconstrução. Kafka já avisava: crescer é superar-se a si mesmo. E superar-se não é ficar intacto – é aprender a respirar dentro do que rachou.
Essa visão se expande na filosofia do Wabi-sabi, que celebra a beleza do imperfeito, do transitório e do incompleto. É justamente aí que a convivência encontra sua plenitude: na aceitação de que somos seres em construção, inacabados, mas capazes de nos tornarmos extraordinários pelo simples fato de permanecermos almejando a parceria cotidiana. Aceitar as fissuras do outro — e permitir que ele veja as nossas — é o exercício mais profundo de nossa humanidade. A beleza não reside na expectativa de que o parceiro seja um espelho liso e impecável, mas na disposição mútua de emprestar o ouro do afeto para preencher as lacunas que a vida abre em nós.
Qualquer ciclo da vida não representa apenas o tempo contado, mas o ouro acumulado em cada fissura restaurada. É a prova de que o cotidiano e a convivência não se medem pelo que resiste intacto, mas pelo que renasce mais forte.
Se o tempo inevitavelmente deixa marcas, que bom. São nelas que encontramos a poesia do dia a dia e o verdadeiro tesouro de nossa existência. Em cada fissura preenchida, reside a prova de que o mais valioso não é o destino, mas o inestimável ouro que preencheu o caminho percorrido.
(Palavras que se perderam ao vento e se encontraram no tempo)
#ParaTodosVerem: Fotografia em close de um vaso de cerâmica escura com rachaduras restauradas em ouro, seguindo a técnica japonesa Kintsugi. O vaso está sobre uma mesa de madeira, ladeado por pequenos pratos também remendados com dourado. O fundo é escuro com partículas de luz dourada suspensas, transmitindo uma atmosfera de serenidade e resiliê
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