Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

Trata-se do título original de um dos mais importantes e também do quarto romance escrito por José Maria Machado de Assis (1839-1908). A obra completa agora em 2026, 150 anos de sua primeira publicação: Rio de Janeiro, 1896. Conhecido como um dos maiores, se não o maior nome da Literatura Brasileira, o autor mereceu recentemente uma nova, robusta e atualizada biografia, O Filho do Inverno, cujo primeiro volume, com 640 páginas, foi lançado em outubro de 2025 pela Ação Editora (RJ).
Machado, o Filho do Inverno, de C.S.Soares

No dia 27 de janeiro último, seu autor, Cláudio Sousa Soares (C. S. Soares), concedeu uma entrevista ao programa Conexão Roberto D’Avila e apresentou alguns detalhes da obra, cujas impressões de leitura apresentarei, em breve, aqui mesmo nesta coluna. Por ora, adianto que não se trata tão somente de mais uma biografia de Machado, mas de uma promissora análise de sua trajetória de vida, que neste primeiro volume desfaz a ideia de que o escritor carioca fosse indiferente às suas origens afrodescendentes e à causa do fim da escravidão no Brasil.

Voltando minhas atenções a Helena, foi para mim uma experiência de leitura que em muito agregou ao meu interesse e conhecimento sobre seu autor. Algo que surgiu naturalmente no início deste ano, quando me senti instado a ler seu primeiro romance, Ressurreição, de 1872. Como essa coisa do hiperfoco está em voga, eis que me surpreendo a (re)ler os romances seguintes de sua autoria. Estou, no momento, na metade do texto de Iaiá Garcia (1878).

Entremeando tais leituras, aqui e ali, também dei uma atenção a alguns de seus estudiosos e críticos. No que se refere especificamente a Helena, destaco a professora aposentada da Universidade Federal de Minas Gerais, Ana Maria de Almeida, que se dedicou por anos à Faculdade de Letras desta instituição. Na décima nona edição do romance, publicado pela editora Ática, em 1995, em texto intitulado Um jogo dissimulado, a pesquisadora faz uma análise do estilo narrativo de Machado na referida obra, ressaltando o que diz ser a existência não somente de um núcleo conflituoso, mas também de “vários elementos conflitantes” nela.

Ainda segundo a professora, “Helena”, como na maior parte de seus romances, o autor encontrou uma maneira de apresentar aos seus leitores a decadência da sociedade do Segundo Império Brasileiro, às voltas com “(…) os problemas decorrentes da evolução política e social do país” (p. 14). Nesse sentido, a questão do casamento, não mais como uma instituição sacramental, católica, mas como um combinado de interesses os mais diversos, colocando em jogo personagens como Helena, que – não resistindo às “máscaras da simulação” (destaca Almeida) – vê sua vida se esvaindo até a morte.

Helena, romance de Machado de Assis

Tudo isso porque descobrira que aquilo que parecia ser um sentimento incestuoso com o seu presumido irmão, Dr. Estácio (matemático e contador), na verdade tinha sido um mal-entendido e consequências de alguns dos inúmeros vacilos morais do Conselheiro do Vale. Uma soma de notícias que, embora devidamente esclarecidas, não valia o amor verdadeiro que nasceu entre ambos, tendo que ser sufocado e abortado pelo medo do escândalo e do escárnio social.

Não prevalecendo a força do amor, mas o imperativo das conveniências sociais da época, não restou à intrépida Helena ceder ao desgosto e este à doença e esta, por sua vez, ao fim trágico da personagem, ao estilo “Romeu e Julieta” (1597), de William Shakespeare (1564-1616), de quem Machado foi assíduo leitor, levando boa parte de seu estilo narrativo e dramático para as suas obras, sejam romances, como também crônicas e poesia.

Revisitar a obra de Machado está sendo muito salutar para mim, nesta quadra de minha vida. A maturidade intelectual e também de minha existência tem me permitido perscrutar melhor as suas obras no que elas têm de mais fascinante: a genial tecedura narrativa. Aliada a isto, também, a riqueza de tipos que ele criou, sobretudo femininos, a crítica social toda singular e a erudição não enfadonha e ostentadora, mas leve e fluida, como deve ser a vida e, por que não, também a Literatura.

 

Claudefranklin Monteiro

Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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