Uma reflexão sobre fazer o bem sem esperar reconhecimento — e sobre a verdadeira sabedoria Imagem: IA/Só Sergipe
Por Alex Santana (*)
O filósofo Clóvis de Barros Filho, em uma de suas entrevistas, faz uma reflexão que, à primeira vista, parece simples, mas revela uma profunda verdade sobre a condição humana:
“Sabemos quase nada sobre quase tudo.”
A partir dessa afirmação, ele nos convida a reconhecer que existem inúmeros assuntos sobre os quais nosso conhecimento é extremamente limitado.
Com exemplos do cotidiano, demonstra que, apesar dos avanços da humanidade, nossa compreensão da realidade ainda é pequena diante da imensidão do que existe para conhecer.
Essa constatação nos conduz a outra importante reflexão:
Ninguém deseja aquilo que acredita já possuir.
Assim, quem almeja a sabedoria precisa, antes de tudo, reconhecer que ainda não a alcançou. Afinal, somente busca o conhecimento aquele que tem consciência da própria ignorância. Na Maçonaria, essa verdade é profundamente simbólica. Ao ingressarmos na Ordem, somos convidados a reconhecer que somos uma Pedra Bruta, necessitada de contínuo aperfeiçoamento.
Cada sessão, cada instrução e cada reflexão representam mais um golpe do malho e do cinzel em direção ao nosso aprimoramento moral e espiritual. Mas surge uma pergunta inevitável:
Como se comporta um homem verdadeiramente sábio?
Será que a sabedoria consiste apenas em acumular conhecimentos?
Ou ela se revela, sobretudo, na forma como agimos diante das situações mais simples da vida?
Para responder a essa pergunta, permitam-me compartilhar um antigo conto oriental, difundido pela professora Lúcia Helena Galvão, que ilustra, de maneira extraordinária, a diferença entre conhecer o bem e tornar-se, verdadeiramente, um homem bom.
Certo dia, um filósofo, chamado de mestre, prometeu a dois de seus jovens aprendizes que os levaria ao ponto mais alto de uma montanha para conhecerem um sábio que por lá vivia.
Mas, para que isso pudesse acontecer, os dois teriam que se esforçar em suas atividades para conquistar aquele tão apreciado prêmio.
Era preciso mérito para uma vivência tão grandiosa.
Pois eles assim o fizeram por muitos dias seguidos, aprimorando seus conhecimentos e destacando-se nas atividades que lhes foram propostas, a tal ponto de conseguirem alcançar a recompensa.
Chegado o momento, o filósofo marcou um encontro com os dois aprendizes bem cedo, ao nascer do dia, para que, juntos, subissem aquela montanha em busca do tão esperado encontro com o sábio.
E, para não perderem nada, os dois aprendizes se adiantaram no horário, fazendo questão de chegar ao amanhecer ao ponto de encontro.
Enquanto esperavam, viam o movimento de pessoas que caminhavam para uma feira local.
Muita gente, carregada de coisas e animais.
Um jovem pastor conduzia vários porcos para serem comercializados. Entre eles havia um porco gigante, que caminhava com muita dificuldade, devido ao peso e a alguma ferida incômoda em uma das patas.
Isso fazia com que o comerciante se atrasasse e, por isso, estava extremamente irritado, dando uma surra no animal.
Vendo tudo aquilo, um ancião resolveu chegar perto do pastor e pedir sua autorização para que pudesse carregar o porco.
Assustado, o jovem permitiu, não acreditando que aquilo seria de fato realizado.
Como o jovem não se opôs, o ancião carregou o porco, com muita dificuldade, lambuzando-se com a sujeira do animal.
Os dois aprendizes viam aquilo perplexos.
Pois qual era a necessidade de fazer aquilo?
Deixassem o animal sofrer. Afinal, era só um porco.
Naquilo, no fim do trajeto, não havia nenhum tipo de gratidão a olho nu.
O porco não agradeceria, pois não é da natureza dos porcos agradecer.
O jovem pastor e comerciante também não viu sentido naquilo e, por isso, fez-se de desentendido.
Quando o filósofo chegou até os dois, o grupo foi subindo a montanha e comentando aquele estranho caso do ancião e do porco.
O filósofo, convicto, deu-lhes uma explicação:
O ancião fez isso por ele mesmo.
Como a sua consciência indicava que aquilo seria o justo, se ele não o fizesse, todos os dias, quando se lembrasse daquele fato, lhe doeria.
Viria à sua mente que ele deveria ter feito o justo e não o fez.
Já no alto da montanha, numa casa simples, morava o tão respeitado sábio.
Quanta honra poder conhecer um sábio!
Ao baterem à porta, foram logo recebidos pelo mesmo ancião que haviam visto na feira.
Os jovens ficaram assustados com a coincidência, mas não falaram nada.
Passaram um dia de aprendizado ali.
Ao irem embora, já no fim da tarde, o sábio perguntou se poderia contribuir com eles em mais alguma coisa.
Eles ficaram relutantes, mas resolveram perguntar por que aquele ancião havia feito, na manhã daquele mesmo dia, todo aquele esforço para carregar um porco manco que era conduzido por seu pastor até a feira.
O sábio, com olhar sereno, disse:
“Hoje de manhã? Porco? Que porco? Não estou lembrando de porco algum. Peço desculpas, mas não me recordo do que vocês estão relatando.”
Os discípulos então agradeceram, despediram-se e desceram a montanha sem entender nada.
Foi quando o seu mestre, o filósofo, soltou uma risada para si mesmo.
Os discípulos perguntaram do que ele ria.
O mestre respondeu que havia atentado para um fato.
Aquele homem, diferente dele, era um sábio.
E continuou:
“Eu carregaria o porco por disciplina, mesmo estando em guerra interna, reclamando do porco e da má sorte de tê-lo encontrado.”
“Mas o sábio, não.”
Ele carregou o porco com tanta naturalidade como quem respira, sem que a mente precisasse registrar aquilo como algo diferente da rotina do corpo.
À primeira vista, pensamos que a história fala sobre um porco.
Mas ela nunca foi sobre um porco.
Ela fala sobre nós.
Quantas vezes fazemos o bem esperando reconhecimento?
Quantas vezes ajudamos alguém e ficamos decepcionados porque ninguém agradeceu?
Quantas vezes cumprimos nosso dever apenas porque entendemos que era nossa obrigação?
Existe uma enorme diferença entre fazer o bem por obrigação e fazer o bem porque nos tornamos pessoas boas.
É exatamente essa diferença que o filósofo apresenta aos seus discípulos.
Ele reconhece:
“Eu carregaria o porco por disciplina.”
Que bela demonstração de humildade.
Ele não se coloca no mesmo nível do sábio.
Ele compreende que ainda existe um conflito dentro de si.
Uma parte de sua consciência sabe o que deve fazer.
Outra parte reclama.
Questiona.
Resiste.
E não é assim conosco?
Quando alguém nos ofende…
Nossa razão diz:
“Perdoe.”
Mas nosso orgulho responde:
“Não.”
Quando somos chamados a servir…
Nossa consciência diz:
“Ajude.”
Mas nossa comodidade responde:
“Depois.”
Quando devemos agir com paciência…
Nossa educação pede calma.
Mas nossas paixões querem reagir imediatamente.
É exatamente esse conflito que caracteriza o homem em construção.
Na Maçonaria, chamamos isso de desbastar a Pedra Bruta.
Não se trata apenas de aprender símbolos.
Nem de decorar rituais.
Muito menos de acumular conhecimento.
O verdadeiro trabalho acontece dentro de nós.
Toda sessão é um convite para lapidar nosso caráter.
Cada ensinamento recebido é mais um golpe de malho.
Cada reflexão é mais um uso do cinzel.
E, pouco a pouco, aquilo que antes exigia esforço…
começa a acontecer naturalmente.
No início, somos honestos porque aprendemos que devemos ser.
Depois…
nos tornamos honestos.
Primeiro somos pacientes por disciplina.
Depois…
nos tornamos pacientes por natureza.
Primeiro perdoamos porque sabemos que é o correto.
Depois…
perdoar deixa de ser esforço e passa a ser parte de quem somos.
Talvez aqui esteja um dos maiores equívocos que podemos cometer:
pensar que a Maçonaria existe para ensinar virtudes.
Não.
Virtudes podem ser aprendidas em muitos lugares.
A Maçonaria pretende algo muito maior.
Ela deseja transformar a virtude em caráter.
Porque caráter não é aquilo que fazemos de vez em quando.
Caráter é aquilo que fazemos sem precisar pensar.
É quando o bem deixa de ser uma escolha difícil…
e passa a ser nossa própria natureza.
Foi exatamente isso que os discípulos perceberam no final da história.
O sábio nem sequer lembrava do porco.
Porque, para ele, aquilo não tinha sido um grande feito.
Foi apenas um ato natural.
Assim como respirar.
Assim como caminhar.
Assim como estender a mão.
E eu lhes faço uma pergunta.
Quantos porcos ainda carregamos reclamando?
Quantas vezes fazemos o bem esperando reconhecimento?
Quantas vezes cumprimos nosso dever alimentando internamente o ressentimento?
Talvez ainda sejamos filósofos ou aprendizes.
E isso não é um problema.
Porque todo sábio, um dia, também foi um filósofo.
O problema seria acreditar que já chegamos ao destino.
Meus Amados Irmãos,
Nossa caminhada maçônica não termina quando recebemos um novo grau.
Ela não termina quando ocupamos um cargo.
Ela não termina quando aprendemos novos símbolos.
Ela só termina quando aquilo que hoje exige disciplina…
amanhã se transformar em natureza.
Quando a honestidade deixar de ser um esforço.
Quando a fraternidade deixar de ser um dever.
Quando a tolerância deixar de ser uma obrigação.
Quando servir deixar de ser um sacrifício.
Nesse dia…
talvez nem nos lembremos mais dos “porcos” que carregamos.
Porque teremos aprendido a fazer o bem sem esperar aplausos…
a servir sem desejar reconhecimento…
e a agir corretamente não por imposição, mas porque essa será a nossa essência.
E talvez possamos dizer que o verdadeiro objetivo da Iniciação não é formar homens que conheçam o bem.
É formar homens para os quais o bem se tornou tão natural quanto respirar.
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