Outras palavras

Diário de um hospício – da contraideologia rebelde de Lima Barreto

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Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

Àquela altura de sua vida (38 anos), ele já gozava de notoriedade no âmbito cultural do Rio de Janeiro, capital do Brasil. Já havia publicado obras como “Recordações do Escrivão Caminha” (1909), “Triste Fim de Policarpo Quaresma” (1911) e “Numa e Ninfa” (1915), além de inúmeras crônicas para os jornais. Era a segunda vez que fora internado no Hospital Nacional de Alienados (FHN), antigo Hospital Pedro II, fundado em 1852. Ali permaneceu de dezembro (Natal) de 1919 a fevereiro de 1920. Num lugar que ele chamava de uma “(…) sombria cidade de lunáticos” (2017, p. 57).

Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 1881-1922) é para mim um dos maiores nomes da Literatura Brasileira, de longe, um dos melhores – e no campo da prosa, meu preferido -, pois na poesia o lugar é reservado para Vinícius de Moraes (1913-1980). Sua escrita me influenciou diretamente, como a de Julie Verne a ele. Sua capacidade de observar e analisar o seu entorno, nem mesmo no hospício se perdeu. Pelo contrário, para Alfredo Bosi, foi ali, incrivelmente e paradoxalmente, um “fecundo húmus cultural” (p. 23), que lhe rendeu dois escritos de memória extraordinários. O primeiro deles, “Diário do Hospício” (edição da Companhia das Letras, 2017), é o mote desta crônica.

Ora, mas o que estava fazendo Lima num hospício, ainda mais por uma segunda vez? Incrível, né? Pois isto lhe aconteceu infortunadamente. Causa maior: alcoolismo. Mas, para o próprio escritor, tantos outros foram os algozes a que chegou àquela condição em final de vida, morrendo muito prematuramente no dia 1º de novembro de 1922, com apenas 41 anos. Tanto a desejou, a morte, que ela veio sem pestanejar.

Para ser encerrado, preso, num lugar daqueles ser louco não era uma condição primária. Desafetos do sistema (leia-se polícia), incômodo social (de cor, principalmente) e subversão da ordem eram as condições nada clínicas para atestar uma demência e “recolher” o sujeito do mundo civilizado. Lima era “mulato” e crítico contumaz da sociedade de seu tempo. Dominado pelo medo, pela angústia e pelo álcool se transformava em pessoa non grata e logo precisava ser “contido”, calado e encerrado numa “cela” para rebeldes delirantes, contra a ordem vigente.

No Hospital Nacional de Alienados, Lima fez as vezes de testemunha, vítima, memorialista, analista e literato. No FHN, teve contato com os melhores nomes da psiquiatria da época: Adauto Botelho, Belford Roxo e Juliano Moreira. A este último, nutriu grande admiração, sobretudo pelo trato humano que dava à loucura e aos loucos. Coisa não muito comum naquele tempo, quando para os loucos apenas a nudez, o desprezo, choque elétrico e imundície.

“Ah! A Literatura ou me mata ou me dá o que eu peço dela” (p. 36) é algumas das pérolas produzidas por Lima Barreto no hospício, pasmem! E louco. Imaginem em “sã consciência”. Ciente do seu vício, ele rogava por um choque de realidade moral para largá-lo. É fato que as humilhações que sofria naquele recinto não eram menores do que tantas que já experenciou em vida. Logo, o amor às letras era seu único alento. Lima, definitivamente, estava naquele momento em que o espírito se entrega e diz: “me leve desta vida”.

Ciente de que todo problema de origem é sempre insolúvel, ansiava outro tipo de existência para ele: “(…) embora a glória me tenha dado beijos furtivos (…) queria outra vida (…) que ela fosse plácida, serena, medíocre e pacífica, como a de todos” (p. 67). E nessa crise existencial, desejava mesmo era penetrar no mistério – que era toda a alma, inclusive a sua – do universo. E sem perder tempo, em “Diário do Hospício” mantinha sua verve literária crítica, chamando a atenção para seu tempo e que ainda é, atemporalmente, o nosso, onde ricos não gostam de árvore, onde às pessoas e aos poderes públicos faltam iniciativa e autonomia intelectual, onde impera a vaidade dos nomes e dos sobrenomes, entre outras assertivas geniais.

Ao se referir a Sergipe, se vale de um paciente, V. de O., para dar uma cutucada nos intelectuais de seu tempo, atribuindo aos sergipanos a pretensão intelectualista, talvez para se dirigir magnânimo Sílvio Romero. A fala sutil, franca e ácida não é um menosprezo pela cultura sergipana. Mas, um recado para os presunçosos que, no alto de seu panteão, faziam às vezes da sociedade e do sistema: estereotipando para apartar.

 

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Claudefranklin Monteiro

Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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