Por Léo Mittaraquis (*)

 

“Porque trabalhar com comida e bebida é o sagrado – e às vezes chato – ato da repetição, que passa a milhas e milhas de distância do glamour da televisão e das breguíssimas premiações recheadas de tapinhas nas costas. Quer dizer, pelo menos pra quem é sério”

Jota Bê

 

Por falta de assunto, de espírito de atualização, de cultura geral e muito menos de cultura específica de, sei lá, maior interesse, volto a abordar dias em SAMPA.

E qual é a bola da vez? Duas coisas boas: o almoço no restaurante Conceição Discos, situado no bairro Vila Buarque, localizado parte no distrito da Consolação, parte no distrito da República, parte no distrito da Santa Cecília na região central da capital paulista. E o encontro não previsto com o crítico culinário Jota Bê.

Conceição Discos? Em louvor do quê? Por ser um lugar ímpar, não necessariamente original, mas com proposta e prática funcionando perfeitamente. Ganho alguma coisa com isso? Em termos de grana? Nada. Reconhecimento? Só por parte da radiopatroa, mesmo. No mais, nunca me engano. Com raras exceções, é a diplomática cortesia. Grato, todavia.

Bem, vamos ao que realmente (não) interessa: Conceição Discos é o restaurante onde conceito (que ninguém come) é materializado de maneira ótima, em que os termos “sabor”, “aroma” e “textura” dialogam entre si e convidam aquele (a) que está, aí sim, comendo a participar da conversa.

E qual a especialidade do Conceição Discos? Ah, eis o coringa inteligentemente do qual ela, a cozinheira (prefiro ao termo “chef”) Talita Barros sabe se valer com mestria: ARROZ!!!

Ela garante dois pratos com base no arroz por dia. Fomos na quarta-feira. Dia de “Arroz Baião de Dois” e “Arroz de Carne Assada”. A Imperatriz consumiu o primeiro; o autor deste artiguete aqui, o segundo.

Como diria Patrick Süskind, em “O Perfume” (romance que mantenho, há quase quarenta anos à cabeceira), mediante o personagem ‘parfumeur’ Giuseppe Baldini, os pratos são “um desgosto de tão bons”.

Harmonização? Vinho cuidadosamente selecionado por Iara: um Pfaffmann Pinot Meunier Rosé seco. Hum, cumpre observar, com extrema alegria, que ao invés dos comuns 750ml, a garrafa é de um litro.

Ahn… Tudo de bom.

Música ambiente mantida por vinis, mesmo, a tocar na radiola antiga. Enquanto estávamos lá, ouvimos muito de Rita Lee.

Evidentemente, dispensamos mesas e cadeiras. Comemos e bebemos ao sempre preferível balcão. Pertinho da Thalita, assistindo ao maravilhoso espetáculo: ela a elaborar pratos com arroz. Ágil, leve, prática, focada. Mesmo enquanto dá atenção aos clientes que insistem em falar enquanto ela cozinha.

Mas, esperem, oh, improváveis leitores. Mas, como alertaria a filosofia ao jeito Polishop, “não é só isso”. Fomos agraciados com uma belíssima e comovente surpresa. E quem o viu primeiro foi Iara: eis que, numa mesa disposta na calçada, sob o frio sol paulista, senta-se para comer um dos meus críticos gastronômicos favoritos, sendo este, o primeiro na lista: Jota Bê e seu companheiro pug. Consumidos os pratos, bebido o vinho, decidimos por cumprimentá-lo. Mas, o que dizer? Boas intenções podem gerar mais incômodo e problema do que um gesto grosseiro. Assim é a vida social.

Satisfação imensa por comer um excelente prato bebendo excelente vinho. Seja assim sempre e sempre

Mas, então, tive um insight — ou saque, se quiserem. Entoei o mantra: “Não existe pipoca gourmet!”. Eis o supostamente insociável, ranzinza, carrancudo Jota Bê a abrir franco sorriso. Daí em diante a conversa rolou de boas. Ele, com extrema boa vontade, indicou lugares, pôs à nossa disposição o contato para que, em caso de dúvidas, pudéssemos dirimi-las.

Pena que não pudemos ficar por mais tempo. Sampa, qual o “Jardim das Delícias Terrenas”, de Jeroen van Aken, mais conhecido pelo pseudônimo Hieronymus Bosch, pintor renascentista, nos chamava, sedutora.

Mas percebemos que tínhamos, num breve momento, firmado uma longa amizade.

Espero voltar a São Paulo ainda neste ano. E, antes de tudo, quando lá, reencontrar Jota Bê. Quiçá realizar um tour culinário sob sua direção.

Eis, creio, que a Vida quer que a vivamos. Portanto, façamo-lo urgentemente.

Bem, já exorbitei do direito semanal às minhas inúteis digressões.

Santé 🍷 🍷

Leo Mittaraquis

Léo Mittaraquis é graduado em Filosofia, crítico literário, mestre em Educação. Bodegário da empresa Adega 7 Instagram: @adega7winebar

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